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05/12/16

Florbela Espanca, (e)ternamente... (por Renata Bomfim)

Florbela Espanca (1894-1930)

No dia 8 de dezembro de 2016 completa oitenta e seis anos que a poetisa portuguesa Florbela Espanca faleceu. Assim que Florbela partiu, em 1930, um grupo de intelectuais e de amigos fiéis passou a lutar para manter viva a sua memória.
Não foi fácil, pois, Florbela foi uma pessoa extemporânea em um Portugal conservador e de valores patriarcais, que negavam às mulheres lugares sociais considerados masculinos como a escrita, por exemplo. A poesia era um campo preponderantemente ocupado por homens e qualquer mulher que se aventurasse a penetrá-lo logo sentia o peso de tal infração. Elas eram ridicularizadas e, especialmente, tinham a sua moral posta em jogo, pois, uma mulher considerada decente não deveria se expôr, antes, seu lugar era o do silêncio.
O movimento feminista, a despeito das perseguições políticas que, por exemplo, em 1926, dissolveu entidades como o Grupo de Estudos Feministas, criado em 1907; a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, em 1909 e o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, em 1914, lutou pela educação das meninas, pelo sufrágio e por igualdade de tratamento entre homens e mulheres. As intelectuais dessas entidades se reuniram em torno da Revista Portugal Feminino, da qual Florbela foi colaboradora.
Florbela foi descrita de muitas maneiras diferentes, tanto em vida, quanto depois de sua morte, de forma que é difícil traçar um retrato seu acabado. Vejo-a como uma tela impressionista, na qual se sobressai a cor arroxeada das violetas que tanto amava. Em 2008, numa pesquisa para o CNPq, analisamos variados textos publicados em revistas e jornais portugueses das primeiras décadas do século XX. Observamos neles que muito se falou sobre Florbela, mas a sua obra, frente a uma vida cheia de infortúnios como divórcios, abortos, errância e suicídio, ganhou um lugar secundário. Jorge de Sena foi um dos primeiros críticos sérios a falar sobre a obra de Florbela, isso em 1946. Ele criticou a mirada biográfica lançada, até então, sobre a obra florbeliana, destacando que embora observasse nos versos da poetisa “uns cetins”, eles apresentavam “uma fúria inaudita”. Essa fúria observada por Sena marca a escrita de Florbela com a potência da transgressão. Nela, um feminino marginal se faz ouvir, ela é a “princesa desalento”, aquela que “no mundo anda perdida”, a “dolorida”, a “crucificada”.
Tenho dedicado a minha vida acadêmica à pesquisa da vida e da obra dessa grande poetisa. Desde 2007 me debruço sobre seus poemas, cartas, diário, buscando sondar os arquétipos que dão forma a uma obra inquietante, vigorosa, insurreta e capaz de encher de encantamentos leitores de diferentes tempos e países. Eu mesma sou leitora de Florbela Espanca desde a adolescência e em todos esses anos, sempre que abro os seus livros, leio versos novos e que me comovem. Mas, eu sou apenas uma em um mar de florbelianos, ¾ formados por leitores/fãs e pesquisadores ¾, cada um, a sua maneira, homenageia essa mulher fantástica que hoje é considerada umas das mais importantes vozes da lírica portuguesa moderna. Em 2011 eu o os amigos do Grupo de Pesquisa do CNPq Florbela Espanca et alli... , ativo desde 2007 sob a coordenação da queridíssima amiga e mestre Maria Lúcia Dal Farra, nos reunimos em Vila Viçosa, terra natal da poetisa, para apresentar nossas pesquisas no I Colóquio Internacional Florbela Espanca:“O espólio de um mito”. Esse evento[1] mostrou a pluralidade das abordagens e de temas que vinham sendo estudados na obra de Florbela Espanca. Foi nesse encontro que apresentei as descobertas realizadas durante as investigações de mestrado e que deram forma à pesquisa de doutorado intitulada A Flor e o Cisne: diálogos poéticos entre Florbela Espanca e Rubén Darío, defendida em 2014, na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Nessa tese desvelei o diálogo existente entre as poéticas de Florbela Espanca e de Rubén Darío num estudo comparativo inédito tanto dentro dos dos estudos florbelianos, quando dos rubenianos.  
Grande parte dos artigos e ensaios que escrevi sobre a obra de Florbela Espanca, seja do ponto de vista da psicologia jungueana, da estética da recepção ou da literatura comparada podem ser acessadas na revista literária Letra e fel (www.letraefel.com), on line desde 2007. Mas, nesse dia 8 de dezembro, dia da padroeira de Portugal, Nossa Senhora da Imaculada Conceição, - madrinha de Florbela-, e dia de nascimento e de morte da nossa poetisa, quero destacar o quanto é bom compartilhar essa paixão, esse gosto pelos seus escritos. Lembro ainda da fala de Ana Luísa Vilela, professora da Uévora que me coorientou durante as pesquisas em Portugal, que dizia que nossos poetas são “santos” para os quais rezamos. Mal sabia a professora sobre o meu costume de pedir iluminação à poetisa, assim como a Darío, outro poeta querido. E posso garantir que funciona, pois, após pedir ajuda a Florbela, junto ao busto de mármore que fica no Jardim público de Évora, tive uma surpresa. Chegando a UÉVORA encontrei quarenta cartas inéditas do espólio de Túlio Espanca, trocadas com Guido Battelli, tradutor e editor da obra póstuma da poetisa.  Pude inserir e analisar esse material na minha pesquisa de doutorado. 
Sabemos que a memória perfaz caminhos variados ao ser reconstituída.  No meu caso, a leitura da obra de Florbela, especialmente a poética, faz percorrer um caminho marcado por afetos, espantos e sonhos. Essa mediação afetiva ainda possui a potência de me arremessar,¾ mesmo entre lapsos temporais de cinismo, descrença, impaciência, etc.¾, adiante. Olho para o futuro e consigo sonhar: “sonho que sou a poetisa eleita/ aquela que diz tudo e tudo sabe/ que tem a inspiração pura e perfeita/ que reúne num verso a imensidade!”.
 Florbela bebeu da poesia trovadoresca, mais “do coração” que a poesia provençal francesa. E esse amor que em alguns momentos se perde entre sutilezas é uma súplica apaixonada ao amado e, como bem o definiu Segismundo Spina, é vitorioso em “emoção e sinceridade”. Por isso, assim como Florbela, “Eu quero amar, amar, amar perdidamente”. 
Mas, o que faz com que a poesia de Florbela Espanca encontre ressonância entre leitores de variadas idades e de variados lugares na contemporaneidade? Há algo em Florbela que escapa a definição e a leitura de sua obra causa vertigem ao nos arremessar da terra para bem próximo dos astros luminosos e, das alturas, sem avisar, ela faz com que nos precipitemos no abismo de nós mesmos para que sejamos “O pó, o nada, o sonho dum momento...”.
 Ah! Eu não quero as certezas, não preciso de verdades absolutas, me contento com o instante e, nesse instante, Florbela diz que: “A Flor do Sonho, alvíssima, divina,/ Miraculosamente abriu em mim,/ Como se uma magnólia de cetim/ Fosse florir num muro todo em ruína.// Pende em meu seio a haste branda e fina/ E não posso entender como é que, enfim, /Essa tão rara flor abriu assim!... / Milagre... fantasia... ou, talvez, sina... 
Sim, essa ternura que Florbela deixou como herança para os seus leitores que faz com que ela seja eterna, colorindo de roxo os nossos corações. Feliz aniversário Florbela!
Renata Bomfim




[1] Esse evento foi realizado pelo Centro de Estudos em Letras da Universidade de Évora, sob a coordenação da amiga e pesquisadora Ana Luísa Vilela, e por Maria Lúcia Dal Farra (UFSE), António Cândido Franco (UÉVORA), Fabio Mario da Silva (UÉVORA/CLEPUL) e Manuel Serrano e Noémia Serrano do Grupo Amigos de Vila Viçosa.

Quando um anjo cai (Renata Bomfim)


É assim, sem avisar
que as nuvens se rasgam e, 
como mártir e menino, cai do céu
o anjo.

Não ganha para-quedas,
sorri barroco durante a derrocada
como se estivesse se tornando eterno.
Desliza para o nada rumo à humanidade,
- a decaída das decaídas-
Aprende a amar e a odiar com a mesma intensidade,
aprende o desregramento, xingamentos, 
experimenta o prazer...

Pobre anjo, privado que está
da paz, da tranquilidade eterna,
assim como nós, desgraçados, precisa trabalhar,
Mas, prefere roubar.

Anjo, anjo, se emenda!
medita,
acende uma vela.
Se não encontrar algum alívio, aprende,
sossega e vive, o colapso é normal e
a morte é certa.



RB, Vix, dez. 2016.



17/11/16

ATOS (IN)TENCIONAIS (Renata Bomfim)


I
En todo este tiempo no conociste mi color verdadero,
Ni sentiste ese olor mío tan especial
Nunca me sabrás del todo.
Esta soy en verdad:
Siempre otra, otra, otra, y otra distinta,
Desde que el mundo es mundo
Fui y continuaré evolucionando.

En todo este tiempo no acariciaste mi curva espinal
No sentiste la sacudida de mi soplo
El pinchazo seco del puñal: la cuchilla.
Son de hierro mis vértebras.

II
No estoy destinada a ti
Ni a tu placer siquiera.
No soy un florero de tu casa
estímulo en la cama, ¡no!
Esa mula incansable y obediente
Es solo una ilusión tuya.

No existo.
No vine para ti.
Quizá por eso solo sientas el deseo
Y no te interese yo ni las cosas del mundo.
Acaso por eso no percibas
La esencia viva de mi vida.

No lo comprendes:
Soy el vacío grávido.

III
Fértil y activa.
Nací dotada de vientre,
Entrañas, carne, sangre, escupiendo símbolos.
Estoy ante ti.
¿Me descubres ahora?
Sinuosa y cantando verdades, sigo

Fecundada por el vacío en la grieta,
En el interior,
(lugar que desconoces)
Fui, soy la dueña de los espacios ambiguos.
Ocupas el centro o lo ignoras todo
Del hueco y de lo que le llena.

IV
No deseo desvelarte esos secretos femeninos
Ignoras las sombras vivas que nos
Acompañan.
Desconoces la oscuridad que nos envuelve,
Pobre criatura!
No comprendes que el canto con sus ondas cortas y largas
            causa los malos tiempos.
Pobre de ti!
Observa: el tiempo abre fisuras en la existencia.
¿Desconoces el canto y sus ondas?
Pobre de ti!
Descubre el camino de regreso.

V
Una razón para vivir

Vivo porque el aire manda en mis pulmones.
Porque mi cuerpo sigue los dictados de su propia voluntad.
Aunque el sol encienda mi existencia y torne todo luz
Yo prefiero la luna, las sombras y lo oscuro.

Una sombra va conmigo.
Es espesa y desprecia los obstáculos.
La sombra no necesita razones para avanzar.


Yo preciso volar tras una noche de insomnio
Quisiera tener alguna certeza al abrir los ojos.
Nada de certezas!

VI
Voces conflictivas.
Alguien me toca
Despiertan los demonios del recuerdo
Necesito olvidar.
Necesito olvidarte una vez más.
Quiero ser derrotada en la lucha de los inocentes.
Fui mujer de muchos hombres
Conservo la pureza
Como el lirio abierto bajo
El manto de la Aurora.

VII
El hombre que amé se burlaba de mis bostezos
El hombre que amé se burlaba sin parar.
Hoy hace un día que perdí las llaves
esas llaves que te abrían.

VIII
Usted sospecha la existencia de la vida
Que crece dentro de mí?
Reconoce la vida de mi vida?
Con razón no me vislumbras,
Con razón.
Solo ves aquello que tus ojos imaginan ver,
Tu deseo te ciega.

Tuve una paciente llamada Norma,
La vida íntima de Norma parecía bonita, ella era libre.
Pero, cuántas medicinas,
Se esforzaban para que viviera así!
Norma vivía una vida artificial inconsistente.


La vida secreta de mi vida cuenta con legislación propia.
Vivo enviciada de poesía.
Ayer esnifé a Walt Whitman,
Después me inyecté unos románticos y, por fin,
Camões, cantos encapsulados.

Acaso las voces que nos orientan
En el paso de la vida íntima a la vida mostrada
Permanezcan comunicándose a través de la mente
Trasvasando conocimientos.

IX
A ocultas planté un jardín.
Nada de simetría.
Cultivo las flores del desorden.
En secreto, la vida de mi vida se expresa
En mis entrelíneas, mías o de esa que imagino ser.
Todo normal, pero no soy aquella Norma.

X
Me encuentras, áspera
Grosera,
Mala.
Soy esa.

Ridículamente ruda y asocial,
Leo las palabras que balbuceas
A contrapelo.

Soy un despeñadero, soy cizañadora,
Hija de Saturno soy, desvariada,
Sí, eso soy.

Exageradamente solemne, eléctrica,
Orgásmica, dramática.
Nada Rococó,
No suavice los hechos,
Me gustan las consecuencias:
Soy una depresión y un montículo,
Abismo y cima,
Vamos a deshojar los afectos
Soy un barranco
Soy otra, otra, y otra distinta.

Esa soy yo.


***Tradução de Pedro Sevylla de Juana

A Academia Feminina Espírito-Santense de Letras perde uma de suas estrelas. Morreu, no dia 14/11/2016, a escritora capixaba MARGARIDA LENA PIMENTEL (Cadeira nº 15)


Amigos, a escrita de autoria feminina capixaba perde uma de suas estrelas, a escritora Margarida Lena Pimentel. A acadêmica da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras (AFESL), cadeira nº15, cuja patrona é Ailsa Alves Santos faleceu no dia 14 de novembro de 2016, foi velada na sua residência na Praia do Canto e enterrada no Cemitério Santo Antônio, em Maruípe.

Margarida Lena Pimentel nasceu no dia 8 de fevereiro de 1938, em Vitória (ES). Filha de Pedro Benatti Lenna e Eliza Sodré Lenna,  nasceu em Vitória – Espírito Santo. A escritora se destacou na prosa com as obras Apenas um homempublicado em português, Edições do Val, 1965, Rio de Janeiro e mantido por 18 Bibliotecas mundiais; Adultério sem flagrante, com 2 (duas ) edições publicadas entre 1969 e 1970, em português e inglês, Livraria Eldorado, Rio de Janeiro, mantido por 28 (vinte e oito) bibliotecas em países diferentes; Vento macho, (duas) crônicas, cujas edições foram publicadas em 1967, em português, pela Livraria São José, Rio de Janeiro, e são mantidas por 31 (trinta e uma) bibliotecas mundiais) e crônicas publicadas em Revistas e Jornais: A Gazeta, A Tribuna e o Diário. Participou da antologia da AFESL, Múltiplas vozes (2010).A escritora foi "Destaque Especial" no Concurso Nacional de Contos, 1993 e 1994, recebeu  a Medalha Cultural na Revista Brasília. Participou do Anuário de Escritores 2005Casa do Novo Autor, Editora São Paulo. Além de ter produzido contos e crônicas que foram premiados em vários concursos literários e é Sócia do Clube Literário Brasília.

Compartilho com vocês alguns escritos da nossa saudosa confreira Margarida Lena Pimentel.

 O OUTRO LADO DA COLINA
O outro lado da colina é uma ótima expressão para definir a meia-idade. É uma fase que, sem dúvida, tem os seus contras. O vento não sopra tão forte, nem as pernas são tão ligeiras como na subida. O passo encurta e, na medida em que vamos descendo o outro lado da colina, temos de ter cuidado onde pomos os pés, porque a experiência já nos ensinou a não pisar nas armadilhas. Na subida a visão estava bloqueada pelas vertentes, e não havia panorama para ver, a não ser que olhássemos para trás. Agora a viagem, felizmente está adaptada às pernas menos ágeis, podemos, então, parar e refletir, uma vez que o cimo já foi ultrapassado, e há um vasto mundo à nossa frente. Apesar de haver sombras e nevoeiros no horizonte, o sol também nascerá todos os dias, por mais trinta, quarenta anos, quem sabe? Tudo é possível... é só saber viver.
O outro lado da colina é mais tranqüilo. A juventude é um turbilhão de emoções, arroubos, loucuras, sem tempo de reflexão. Depois dos cinqüenta anos tudo se adapta, se encaixa, se ajeita. O trabalho deixa de ser uma máquina, para ser um cérebro. O fogo da paixão se transforma em amor e se divide em mil centelhas quando a família cresce: — Filhos, netos, noras, genros... e a vida vira uma festa com tantos aniversários, casamentos, formaturas e há muito mais a comemorar do outro lado da colina. Algumas tristezas, é claro, mas na maturidade a gente aprende a lidar com elas.
Engano quem pensa que ao chegar ao cimo tudo acabou. Acabou sim, de plantar, construir, correr atrás dos valores materiais. Agora, chegou a hora de colher o que plantamos e aí, entra o velho e sábio provérbio: Quem semeia vento colhe tempestade... do outro lado da colina pode ter flores, frutos ou espinhos, depende de nós ... é só saber viver.
Precisamos, urgentemente, de mais esclarecimentos para vivermos a idade madura, para que possamos ser preparados para a segunda metade da vida. Assim as pessoas aprenderiam que as metas da mocidade como dinheiro, conquistas e posição já não são as que deveriam procurar e sim o alvo seria: adquirir sabedoria, no sentido da experiência vivida e da avaliação de valores apropriados e explorar os tesouros de beleza que nossa cultura nos legou.
Em vez de aceitarem com resignação as frustrações e decepções, numa monótona solidão, o homem ou a mulher devia procurar novos encontros do outro lado da colina até mesmo o romantismo de um amor de outono..


ESTADO MAIOR
Vivemos em confusão constante em presença da Justiça do mundo moral. Por quê? É a pergunta, eterna, universal, tão velha quanto a primeira lágrima, tão recente quanto o último noticiário da televisão. Pode-se encontrar uma razão pra o rápido sucesso de certas pessoas nos negócios, na vida social e outras áreas mais? Capacidade, inteligência, talento? Não sei! Tem tanta gente com tantos predicados e competência, e nada consegue.
Incrível é o prestígio dessas pessoas. Em solenidades, até mesmo oficiais, esses ilustres desconhecidos ocupam os melhores lugares, estão sempre nas primeiras filas, reservadas para eles. Os mais dignos não encontram lugar no recinto. Já imaginou ouvir um longo discurso em pé? Se não havia lugares para todos, por que convidam tantos? É pura deselegância dar distinção a poucos e até mesmo fazendo as pessoas que já  estavam sentadas cederem seus lugares a outras para as quais os lugares estavam reservados.
Aliás, essa história de lugar reservado é antiga. Quando nos transportamos em imaginação à estalagem de Belém na noite de Natal, verificamos que não havia lugar para Ele, logo Ele? E constatamos que todos os lugares na estalagem estavam ocupados pelos homens do Governo e ricos mercadores. E assim, o menino chamado Jesus nasceu numa manjedoura, mas os seus sábios ensinamentos acharam lugar no coração da humanidade.
Isso me faz lembrar de uma festa numa cidade do interior, quando meu marido era juiz da comarca. Festa popular, alegre e bonita, mas destaque mesmo só para as autoridades, políticos e “aqueles” que os organizadores da festa achavam importantes. Entre risos e palmas, beijos e abraços, os figurões circulavam no meio do povo. Entretanto, as barracas com toldos coloridos e as mesas com toalhas brancas estavam reservadas aos ilustres convidados que, aos poucos, ocupavam seus lugares.
Depois de uma estafante caminhada pelos caminhos da roça, bem longe da cidade, onde foi levar a comunhão a um doente, o padre da paróquia chegou à festa. Suado, cansado, empoeirado. Observou tristemente que todos os lugares estavam tomados, exceto ao redor de uma esplêndida mesa isolada numa pequena elevação ao lado da praça. Foi ali que o padre se instalou.
Imediatamente, correu agitado ao seu encontro o secretário do prefeito da cidade.
—Desculpe, senhor padre, mas estes lugares estão reservados para o Estado-maior.
—Quem é o Estado-maior? — perguntou o padre.
— Ora, senhor padre, são os homens do Governo, a Justiça, Exército, política...
— Meu filho — respondeu o padre — eu pertenço ao Estado –maior do Senhor Jesus Cristo, e até que apareça alguém que seja mais graduado do que Ele, vou ficando por aqui mesmo!


CHÁ DE CATUABA
Na encosta dos Andes, no Peru, existe um verdadeiro vale, envolvido numa amena temperatura — 18 graus no inverno e 22 no verão. Nesse vale a velhice demora a chegar. Ninguém adoece. Seus habitantes vivem em média de oitenta a cem anos. A maioria em perfeita condição física e psicológica. As doenças, quando raramente aparecem, são tratadas com ervas e raízes. E usam e abusam de uma infinita variedade de chás.
O festival de fantasia que o vale oferece na milagrosa cura dos seus chás, encanta o visitante, mas na cidade moderna parece um pouco fora de moda. Entretanto, essa milenar sabedoria é uma espécie de elo entre um tempo passado e a geração presente, porque todos nós sabemos que as plantas medicinais curam muitas doenças. Muitas dessas ervas vieram para o Brasil, trazidas pelos imigrantes. Aqui se adaptaram ao clima, solo e juntaram-se a centenas de outras que nossos indígenas já conheciam. Hoje o Brasil dispõe de amplo conhecimento sobre sua flora medicinal e nossa geração adora chá. Os irmãos orlando e Cláudio Vilas Boas, passaram quarenta anos entre os índios brasileiros aprenderam a conhecer matas, o segredo da nossa flora e valor medicinal de cada folha.
No Japão, o cerimonial do chá é uma arte. Tem características da mais profunda religiosidade. Cada gesto deve ser aprendido nos seus menores detalhes. Na Inglaterra é pura tradição. Chineses e indianos conferem ao chá os mais altos significados e o seu cultivo vem desde as eras mais remotas. O gaúcho dorme e acorda tomando chimarrão, seu ritual só perde para os japoneses.
O chá é a segunda bebida que mais se consome em todo  mundo. Só perde para a água. Digestivo, refrescante, estimulante, os chás não são todos milagrosos, mas muito são de inegável utilidade para todo o corpo e para todas as idades. Afinal, quem não se interessa em manter por perto a plantinha que ajuda aliviar cólicas, ores, infecções e até impotência? Aliás, a impotência masculina é tratada na flora medicinal com chá de catuaba que contém um grande poder afrodisíaco, infalível no combate a doença que minha avó chamava de “vergonha do homem”. Não há, porém, comprovação científica dessa imposta propriedade ao chá de catuaba. Mas muita gente acredita... Não custa nada tentar ...
E muitos homens quando ouvem o “canto do cisne”, recorrem ao milagroso chá de catuaba, numa esperança de cura. Talvez, influenciados com o apelo bem-humorado de propagandas como a do “Poema do Homem Quando Envelhece”.
Esse porém, muito divulgado, diz mais ou menos o seguinte:— “quando o homem envelhece/ o cabelo embranquece/ a musculatura desce/ o vigor desaparece/ a mulher oferece/ e ele diz: — Ah! Se eu pudesse!/ Mas tomando chá de catuaba isso não acontece!”
Será?...

09/11/16

Sobre o fim de mim mesma


Penso no meu corpo morto, inerte.
Onde estarei no momento em que pessoas desconhecidas
colocarem flores sobre o meu caixão?
Imagino (delirante) que devo estar errante como um sopro,
talvez me torne semente de alguma coisa prestes a ser plantada
no desconhecido.
Afinal, quantas serão as nossas existências?
Quantas vidas tenho aqui, nesse momento?
Quantas de mim desconheço?
Os sonhos me denunciam falando
do que assombra.
Sonho contigo, minhas mãos se estendem em tua direção,
mas é como se uma barreira feita de tempo e de açúcar se erguesse entre nós.
Não quero acreditar que os beijos que te dei e os que me deste desaparecerão,
que a vida se apagará como uma vela de aniversário barata.
Não me importo com nada que não respira,
os bens materiais não me interessam:
que os parentes se matem por eles.
Não, os gestos diários permanecerão, eles são a nossa herança:
sobreviverão a todos os esquecimentos, à nossa desintegração,
aos vermes: as refeições, os passeios, as atenções na dor e na doença,
os olhares silenciosos, os cuidados com os gatos, as árvores, os pássaros.
Talvez o destino reúna outro casal que tenha os nossos nomes,
mesmo que seja no lá no Japão, eles terão a nossa bênção.
Nunca escolhi sangrar,
nasci mulher, sangro.
Tanto destino previamente escrito, que roteiro mais previsível.
Não, nem que seja um pouco, a história será interrompida, reescrita,
eu a reescreverei com carvão e tinta e a encenarei
utilizando máscaras que ainda não foram inventadas.

A língua dos anjos (Renata Bomfim)


Gruta escura e misteriosa,
onde vivem seres inumanos.
Ouvi palavras inescrutáveis,
línguas cortavam o vento 
como se lambessem
espumas marítimas.
Elas envolveram o meu corpo
sugando-o com as suas ventosas. 
O som podia ser apalpado
de tão real:
     agudo,
    estridente
Dissonância enroscada
formava novelos
cujos fios estavam a meio caminho
da lã e do arame farpado.
Dentro da gruta, eu.
Solidão, detalhe singelo.
Estar só sempre foi rotina na minha vida.
Mas, acabar nesse buraco estranho?
Isso, eu não compreendia.
Porque me foi dado escutar as palavras que ouvi?
Por que me foi permitido sentir mais que os outros e sofrer mais.
Ter a dor por companheira?
Pior é a dor de quem se reconhece só.
Estou dentro do começo do que posso chamar existência,
Dentro do que não tem começo.
TU és o início no fim de mim mesma, talvez o caminho para fora,
ou um contorno na face esquecida pela luz. 
Apalpo letras difusas e as línguas me rodeiam ainda.
Ululantes labaredas de fogo frio e azulado me circundam.
- Deus! é lindo!
Graças! graças! graças por todos esses infortúnios!
Agora posso sentir os ossos rangendo dentro do meu corpo,
Agora sinto o que a vida significa na matriz.
A minha insignificância brilha como o ouro, cintila, e as trevas 
cedem esbranquiçadas como se trombetas da alvorava anunciassem:
O dia vai raiar!
Aleluia! bendita exaustão!
Estou em contato com o pó,
Sou amiga da poeira
Tão nada, nada, nada...
Levei uma vida inteira para compreender
Que o cricrilar do grilo mais miúdo tem a potência
Da nona sinfonia.


RB, Vitória, nov. 2016

  

10º Aniversário Vegano Renata Bomfim (21/11/2016)

Olá amigos,
enfim, chegou novembro e a hora de soprar mais uma velinha. Esse ano o "aniversário vegano" completa a sua décima edição. Nos primeiros anos ele acontecia apenas entre as pessoas mais   próximas, depois de um tempo resolvi abrir a ideia na internet. O pedido dessa poeta amiga de vocês é que no dia 21/11 não comam carne.

A ideia de "um dia sem carne", em 2016, choca menos que há dez anos atrás, especialmente porque hoje estão sendo divulgados de forma mais ampla os benefícios da dieta vegana, assim como os malefícios da ingestão da carne, não apenas mas para a saúde, mas para o planeta.

É sabido que a cada minuto milhares de animais são mortos das maneiras mais terríveis, muitos sangram até morrer, morrem sozinhos, em estado de pânico, afastados de seus familiares e amigos, alguns são moídos vivos ou sufocados até a morte. 

 Diferente do querem que acreditemos, a carne tem pouquíssima proteína, ao contrário dos vegetais que, comprovadamente, são fontes potentes das mesmas. Dados indicam que 100 acres de terra produzem carne para 20 pessoas, enquanto a mesma quantidade de terra produziria grãos para 240 pessoas.

Hoje não podemos deixar de pensar nas reservas de água. Muitas delas são contaminadas com as criações de boi, frango, etc, os desmatamentos seguem essa esteira.E ainda precisamos atentar para o fato de que os animais são seres sencientes, ou seja, capazes de sentir afeto, amor, dor, medo, tem pensamento lógico, memória.

Enfim, é isso,
agradeço desde já os muitos presentes!
beijos da poeta
RB

AGRADECIMENTOS:
Obrigada aos amigos que, mais este ano, aderiram a minha campanha! Eu almocei como uma rainha, um delicioso cogumelo recheado, com salada ao vinho e os indispensáveis arroz e feijão. Enfim, um dia de muita alegria!




30/10/16

O Bicho (poema Renata Bomfim)

Não como
carne,
Sou de carne.

Executado
nos matadouros,
Todos os dias eu morro,
sou desossado,
ensacolado,
depois vendido,
(barato)
comido
sem cerimônia.

Como eu admiro
os índios antropófagos.