* Hello, my friends! welcome to letra e fel! If you like this space, please share it with your friends.
* Dzień dobry, drogi czytelniku, witaj w blogu Letra e Fel! Dziękujemy za wizytę. Jeśli nasz blog ci sie spodobał, poleć go swoim znajomym.
*!Hola! , amigo lector. Sea bienvenido y si le gustó mi blog, recoméndelo a sus amigos!
*Cher lecteur, soyez le bienvenu! Veuillez conseiller notre blog à vos amis si vous l'avez aimé. Merci beaucoup!

10/09/2019

Los gozosos amores de Virginia Boinder y Pablo Céspedes, de Pedro Sevylla de Juana.




Recebi pelo correio a mais nova edição de Los gozosos amores de Virginia Boinder y Pablo Céspedes, vigésimo sexto livro do meu amigo escritor espanhol Pedro Sevilla de Juana. Pedro foi meu tradutor durante muitos anos, graças a ele minha poesia pode ser lida em vários países de língua hispânica, inclusive nos Estados Unidos, que possui muitos falantes desse idioma e por isso sou muito agradecida!
Eu tive a alegria de escrever o prefácio dessa obra como vocês podem perceber na generosa dedicatória que recebi. Indico a leitura desse livro que possui uma modelagem contemporânea ao reunir variados gêneros na sua construção. Trata-se de uma troca de correspondências afetivas,picantes e virtuais entre um professor e sua aluna. 
Reafirmo o que escrevi no prefácio que "El lector debe ir más allá de los juicios morales y de las convecciones sociales, para penetrar en los arcanos de la pasión, del deseo, de la entrega, de la seducción y del amor. El amor, de todos los mitos el más bello, y de todas las realidades la más cierta".
Renata Bomfim

Um presente especial do Carlos Nejar, o livro "Os dias pelos dias"



Recebi hoje, pelo correio, essa adorável surpresa, a obra Os dias pelos dias, do escritor Carlos Nejar. Já iniciei a leitura e recomendo. A obra foi publicado pela Topbooks e o prefácio é de Adriano Espíndola. Obrigada ao querido escritor, que sempre está aqui por Vitória, a gentileza na dedicatória.

Segue uma estrofe do pema Devastação.

Há uma devastação 
nas coisas e nos seres,
como se algum vulcão
abrisse as sobrancelhas,
e ali, sobre esse chão, 
pousassem as inteiras
angústias, solidões,
passados desesperos
e toda a condição
de homem sem soleira,
ventura tão curta,
punição extrema. 

02/09/2019

A Outra Florbela Espanca (Prof. Dr.ª Renata Bomfim)

Resumo: Durante muito tempo a crítica biográfica esboçou um retrato acabado de Florbela Espanca (1894-1930), tornando-a conhecida como a poetisa da dor, da saudade e da melancolia. Entretanto, novos olhares estão sendo lançados sobre a obra da escritora portuguesa, revelando que ao invés da malograda poetisa, estamos diante de uma personalidade poética atuante, extemporânea, e desafiadora do ideário feminino de sua época, uma persona dramatis que nesse artigo chamei de “Outra”, aludindo à mulher como alteridade. Apresentamos nesse estudo, aspectos da vida e da obra da poetisa alentejana, destacando o contexto social e cultural no qual ela viveu e produziu, bem como, salientamos a importância do movimento feminista para as escritoras do final do século XIX e início do século XX. Esses apontamentos são resultado das pesquisas que culminaram na tese de doutorado “A flor e o Cisne: diálogos poéticos entre Florbela Espanca e Rubén Darío”, de nossa autoria. Palavras-chave: Florbela Espanca; Poesia; Feminismo. 

Abstract: For a long time, the biographical critics outlined a finished portrait of FlorbelaEspanca as a poetess od grief, yearning and melancholy, However, new the works of the Portuguese writer is being observed from new points of view, revealing trhat instead of a fruistratedpoetes we stand before an active, extemporary poetic personality, who challenges the feminine system of ideas of her epoch, a persona dramatis whom , in this aricle, I called The Other, alluding to a woman as the otherness. In this study we present, aspects of life and work of the poetess from the Alentejo, pointing out the social and cultural context in which she lived and produced, as well as we highlight the importance of the feminist movement of the end of 19th and the beginning of the 20th century for women writers. These writings result from the research that culminated in our PhD thesis ”The Flower and the Swan: poetic dialogues between FlorbelaEspanca and Rubén Darío” of our own. Keywords: Florbela Espanca; Poetry; Feminism.

Pesquisas que culminaram na tese de doutorado “A flor e o cisne: diálogos poéticos entre Florbela Espanca e Rubén Darío”, permitiram que pudéssemos visualizar uma imagem mais nítida da poetisa portuguesa Florbela Espanca (1894-1930), para além da conhecida poetisa da dor, da saudade e da melancolia; da “malograda poetisa” descrita por José Agostinho em 1931. 

Deparamo-nos com uma mulher estrategista e diplomática, grávida, destemida, desafiadora, irônica e brincalhona, peregrina e em trânsito, uma Florbela “espantosa e quase inverossímil” (DAL FARRA apud VILELA, 2012, p. 132). Em 1979, a escritora e biógrafa de Florbela, Agustina Bessa-Luís (1979, p. 38), declarou que, para ela, o melhor “retrato” da poetisa foi feito por uma mulher que em uma tarde a viu numa ocasião: “Era alta, estava vestida de branco, e um lenço vermelho caia-lhe do bolso sobre o peito. Havia um enxame de homens em volta dela, e eu pensei que ela correspondia à ideia que se faz de uma poetisa”. Florbela foi uma mulher extemporânea e se a sua imagem ia ao encontro do que se pensava acerca de uma poetisa, certamente, essa era diametralmente oposta ao ideário feminino de sua época. 

Para a pesquisadora Ana Luisa Vilela (2012, p. 9), Florbela Espanca é uma “personalidade que, fundamentalmente, nos deslumbra e desconforta, nos intriga e nos comove”, e que é, também, um desafio para a crítica, na medida em que, “controvertidamente, seu contributo tornou-a um marco referencial da poesia portuguesa do século XX”. Ao ingressamos na aventura de conhecer um pouco mais sobre a mulher por trás do mito, observando como, equivocadamente, durante muito tempo, o amálgama vida e obra marcou a leitura de sua obra e a história da sua recepção, nos acercamos da teoria da Estética da Recepção. Foi na década de 1970 que Hans Robert Jauss (1994) criticou a objetividade e pouca abertura em relação a fatores externos dos métodos praticados nas análises dos textos literários, que não reconhecia a importância do leitor no processo da leitura e entendimento da obra, além de negligenciar a historicidade do texto. Citamos Jauss para destacar que a obra poética de Florbela foi recebida de maneira diferente em diversos momentos da história, como mostra o horizonte de expectativas do público, desde seus primeiros escritos, até os dias de hoje. Primeiramente, ela conheceu o silêncio e, posteriormente, o furor da crítica patriarcal e falocêntrica de sua época e, após a sua morte por suicídio, a poetisa foi desclassificada pela igreja católica, que desaconselhou a leitura dos seus poemas, como sendo um péssimo exemplo, de uma pessoa moralmente perniciosa. Ana de Castro Osório afirmou que Florbela Espanca não abriu para si “nenhum horizonte profissional” a não ser o de “literata”, e esse atributo era “o mais desagradável que podia ser dito de uma senhora, que era vista com um livro na mão” (ESPANCA, 1995, p. 16).

Na contramão do status quo, Florbela trouxe incômodos à sociedade moralista de sua época. Foi por meio do soneto, modelo clássico de expressão lírica preferida pelas poetas da época, chamadas pela crítica masculina intolerante e misógina de “poetisas-de-salão”, que Florbela ousou enunciar um discurso prenhe de erotismo. Antônio Ferro (1931), no artigo que deu visibilidade nacional a Florbela, escreveu que a poeta figurava em seu ficheiro como sendo “uma das poetisas da colmeia”, mais uma das “cigarras do [...] lirismo inofensivo” de “palcos” e de “salas”; mas, depois de ler seus sonetos mais atentamente, percebeu que era “uma poetisa autêntica”. José Agostinho (1931) escreveu: “Se D. Florbela nos tivesse mandado seus livros, teríamos agora pungentíssimos remorsos”, pois, “a injustiça do nosso silêncio teria sido flagrante e abominável”; mas não lhos mandou. 

A escritora Agustina Bessa-Luís escreveu a biografia romanceada de Florbela em 1979. Nela, observamos que José da Rocha Espanca, padre de Vila Viçosa, em 1892, escreveu o Compêndio de notícias de Vila Viçosa. O religioso detalhou aspectos do território alentejano, defendendo que “os celtas foram os primeiros habitantes do Alentejo” e que os “Belos” foram “os tais Celtibeiros com cheiro fenício” (BESSA-LUÍS, 1979, p. 10). Daí que o padre Antônio Joaquim da Rocha Espanca tenha batizado a filha adulterina de João Maria Espanca como Flor-Bela. Bessa-Luíz (1979, p. 7) associando o universo da poeta alentejana ao do bardo-celta, situado entre dois mundos, oscilando entre a morte e o renascimento, “ligado à função sacerdotal” e a manifestação da poesia lírica ou histórica. A avó paterna de Florbela, Joana Fortunata Pires Garção, serviu no convento de Santa Cruz de Vila Viçosa até se casar com José Maria Espanca. O casal teve dois filhos, José de Jesus da Rocha Espanca e João Maria Espanca, futuro pai de Florbela. 

Os Espanca tinham pendências para as artes. João Maria Espanca, além de grande boêmio, era artista e tinha um espírito aventureiro. Ele aprendeu o ofício de sapateiro com seu pai, mas acabou se tornando dono de um antiquário e viajava de localidade em localidade comprando utensílios para serem revendidos. João Maria conheceu a Espanha, andou pelo Marrocos, pela França e, numa dessas viagens, adquiriu um Vitascópio de Édson, máquina que projetava imagens em movimento. Passou então a trabalhar exibindo filmes nas casas das famílias que o contratavam tanto em Lisboa, quanto em outras regiões. Além de ter trabalhado com cinematografia, sendo um dos pioneiros dessa arte em Portugal, o pai de Florbela teve um estúdio fotográfico em Vila Viçosa (Photographia Moderna). A existência do estúdio facilitou um acompanhamento do crescimento de Florbela, e temos imagens de sua infância, adolescência e algumas que mostram a poeta na idade adulta. Florbela Espanca nasceu no dia 8 de dezembro de 1894, um dos dias mais importantes do calendário português: dia de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, padroeira de Portugal. 
Florbela Menina

Foi na igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição que foi batizada pelo padre primo de seu pai. Embora Florbela tenha nascido sob a égide da santa da “imaculada conceição”, levando em consideração o modelo moral aceitável estabelecido pela igreja católica na época, a sua história familiar e pessoal se apresenta como um desvio desse modelo: Florbela é fruto de uma relação extraconjugal. A esposa de João Maria Espanca, Mariana do Carmo Inglesa, mais velha que João Maria e com um dote significativo, não podia ter filhos; assim, consentiu que o marido se unisse a Antônia da Conceição Lobo. A mãe biológica de Florbela era de origem muito humilde e foi criada em situação de quase miséria por uma senhora que atendia pelo sobrenome Lobo. Como destacou Concepción Delgado Corral (2005), “foi com dotes de Don Juan” que João Maria Espanca raptou Antônia Lobo, levou-a para o seu estabelecimento e depois a instalou em uma casa fora do centro da cidade. Mariana Toscano do Carmo, chamada de “Inglesa” porque vinha de uma família que tinha olhos azuis, consentiu na vida dupla do marido e, após o nascimento de Florbela, tornou-se sua madrinha de batismo. A menina foi batizada como Florbela D’alma da Conceição Espanca, filha de Antônia da Conceição Lobo e de “pai incógnito” (ESPANCA, 1999, p. XLV). Antônia da Conceição Lobo gerou também o irmão único de Florbela, Apeles, três anos mais novo, que foi criado junto à irmã por João Maria Espanca e Mariana Inglesa. Em 1908, Antônia faleceu, tinha então vinte e nove anos.

Florbela Espanca relatou ter vivido uma infância feliz e cercada de cuidados e registrou numa carta: “Tive os melhores professores de tudo na capital do Alentejo (que se são melhores não são bons), de bordados, de pintura, de música, de canto” (ESPANCA, 1995, p. 31). Na época, a família tinha uma situação financeira estável e a educação de Florbela ficou a cargo da madrinha e madrasta Mariana Inglesa. Desde muito cedo Florbela mostrou aptidão para a literatura, tanto que, em 1903, aos nove anos, escreveu o seu primeiro poema, intitulado “a vida e a morte”, que ela dedicou ao seu pai:

O que é a vida e a morte
 Aquela infernal inimiga 
A vida é o sorriso 
E a morte da vida a guarida 

A morte tem os desgostos
 A vida tem os felizes 
A cova tem a tristeza 
E a vida tem as raízes

 A vida e a morte são
 O sorriso lisonjeiro 
E o amor tem o navio 
E o navio o marinheiro 
(CORRAL, 2005, p. 231). 


Quando completou onze anos, Florbela já escrevia em francês, embora os textos apresentassem erros ortográficos. Foi entre julho e setembro de 1907 que fez experiências com a prosa e escreveu o conto “Mamã” (CORRAL, 2005, p. 33). A casa de Florbela Espanca ficava bem próxima à residência de verão da Família real. De acordo com Bessa-Luís, (1979, p. 10), “a euforia castiça” tomava conta do povo quando os reis chegavam, e os acontecimentos relacionados com os membros da monarquia eram acompanhados de perto pelos Espanca, em função do interesse de João Maria pela política.

 A corte dos Bragança era “pobre, sentimental, velhaca, dorida de intrigas domésticas”, e “suas banalidades fecundavam as demagogias das praças públicas”, e, como destacou Bessa-Luís (1979, p. 11), Florbela ouvia os passos dos oficiais na “galanteria das caçadas reais”, mas “Vila Viçosa decepcionava-a”. Em 1908, a família de Florbela mudou-se para Évora, para que esta pudesse continuar os estudos no Liceu de André Gouveia. Apenas Florbela e outra menina frequentavam o Liceu. Florbela estudou até 1913, quando largou os estudos para se casar, deixando inconclusa a 7ª série. Apenas em 1917, a poeta concluiria o ano de estudo que faltou para que pudesse entrar na sonhada Faculdade de Letras.

 Importantes acontecimentos políticos ocorreram nesse período, entre eles destaca-se a morte do Monarca D. Carlos e do príncipe herdeiro, Luis Felipe, ambos assassinados na Praça do Comércio, em Lisboa. Após o regicídio ocupou o trono o segundo filho de D. Carlos e D. Amélia, D. Manuel, que reinou como D. Manuel II, mas a monarquia foi perdendo força. Posteriormente, houve sucessivos governos provisórios em Portugal, até que em 1910 foi instaurada a República (BOURDON, 2010). Dal Farra (ESPANCA, 1994, p. 58) destacou que, se Florbela não teve ocasião de comungar diretamente dos ideais republicanos, ela os incorporou “à influência de João Maria Espanca”, seu pai, que era um defensor e militante ferrenho da causa. Dessa forma, a poeta tanto apreciava quanto exaltava tais doutrinas. Convém destacar que, desde 1914, a Liga Republicana de Mulheres Portuguesas e a Associação de Propaganda Feminina haviam sido dissolvidas pela ditadura. 

Florbela batizou o seu primo, Túlio Espanca, em 1913, e nesse mesmo ano se casou com Alberto de Jesus Silva Moutinho, amigo de muitos anos do Liceu. Começam as mudanças: Florbela mudou-se para Redondo e o casal passou por graves dificuldades econômicas, pois o único rendimento provinha das aulas particulares que ambos ministravam para alunos do colégio. A situação tornou-se insustentável ao ponto de Florbela se ver obrigada a retornar para Évora. O casal então passou a morar com João Maria Espanca e a dar aulas no colégio de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Florbela voltou novamente para Redondo e foi então que passou a escrever poemas. Observamos que a poeta passou por muitas dificuldades financeiras. Não é de se estranhar o fato de que a publicação de seus livros tenha ficado ao encargo de seu pai, João Maria Espanca. Durante muito tempo, a crítica míope acusou Florbela Espanca de ter sido uma poetisa apolítica, bem como de ser superficial e refugiar-se no mundo dos sonhos. Mas Florbela não foi alheia aos acontecimentos de sua época. 

Em 1915 a situação de Portugal era convulsa, foi quando Florbela se declarou anarquista e começou a escrever os poemas que reuniria, em 1917, no caderno Trocando Olhares. O manuscrito Trocando Olhares foi descrito pela crítica Dal Farra como um “objeto arqueológico” de caráter “híbrido” da poética florbeliana, que faz trânsito entre “a limpidez absoluta” e “um emaranhado quase indecifrável”, ao mesclar a caligrafia esmerada com esboço de poemas rascunhados e cheio de retificações (ESPANCA, 1999, p. 17). O ingresso de Portugal na Primeira Guerra Mundial, em 1916, moveu partidários republicanos e poetas engajados como Raul Proença, interlocutor importante para a poética florbeliana e editor do Livro de Mágoas, de Florbela. 

O Livro de Mágoas foi publicado em 1919, com poemas retirados do manuscrito Trocando Olhares, em 1923 a poetisa publicou o Livro de Sóror Saudade e, em 1931 veio a lume, postumamente, a obra Charneca em flor. Florbela Espanca reflete sobre o fazer poético e sobre as condições às quais esse fazer está sujeito, como, por exemplo, a historicidade da condição da mulher, e este é um posicionamento político que corrobora o nosso posicionamento quanto a poeta ter vivenciado o engajamento via poesia. Foi no influxo de variadas interlocuções e diálogos, a saber, com Madame Carvalho, Júlia Alves, Raul Proença e, mais, com o mercado literário e com o seu tempo, que Florbela atravessou “o limiar entre o privado e público” (ESPANCA, 1999, p. 143).

Deparamo-nos aqui com o aporte bakhtiniano. Mikhail Bakhtin (1895-1975) fez parte da escola formalista, mas divergiu dela ao reivindicar uma abertura sobre o mundo e sobre o “texto social”, além de propor o dialogismo como condição sinequa non do discurso (COMPAGNON, 2001, p. 111). Bakhtin (2003) postulou que a linguagem é um fenômeno que só acontece na relação do sujeito com o outro, também é ela que, no processo de interação social, constitui a consciência do sujeito. Os pensamentos de Bakhtin e de Jauss, referentes à historicidade no âmbito literário, possuem consonâncias. Para Jauss (1994, p. 47-48), a coerência da história geral é homogeneizadora, pois “a historicidade da literatura revela-se, justamente, nos pontos de interseção entre diacronia e sincronia”. O pensador alemão chama a atenção para o fato de a obra de arte não surgir no vazio, e nem por si só. Esse pensamento vai ao encontro de Bakhtin, para quem “a obra de arte é viva e significante do ponto de vista cognitivo, social, político, econômico e religioso, num mundo também vivo e significante” (BAKHTIN, 1993, p. 30):
O meio social deu ao homem as palavras e as uniu a determinados significados e apreciações; o mesmo meio social não cessa de determinar e controlar as reações verbalizadas do homem ao longo de toda a sua vida. Por isso todo o verbal no comportamento do homem (assim como os discursos interior e exterior) de maneira nenhuma pode ser creditado a um sujeito singular, tomado isoladamente, pois não pertence a ele, mas sim ao seu grupo social. [...] Nunca chegaremos às raízes verdadeiras e essenciais de uma enunciação singular se a procuramos apenas nos limites de um organismo individual singular, mesmo quando tal anunciação concernir aos aspectos, pelo visto, pessoais e íntimos da vida de um homem (BAKHTIN, 2004, p. 86). 

A partir do aporte bakhtiniano, observaremos que não foi apenas Florbela que teve dificuldades na enunciação do discurso poético. Constatamos que de todos os lugares destinados pelo sistema patriarcal à mulher, seja de mãe, esposa, amante ou de musa, existe um que só foi possível por apropriação, o de escritora. Quando pesquisávamos na Torre do Tombo, acerca do movimento feminista português do primeiro quartel do século XX, nos deparamos com uma matéria publicada no dia 27-3-1912, no Jornal lisboeta O Século, que trazia como título: “Uma mulher de Letras: A CONDESSA DE PARDO BAZÁN”. Essa publicação mostra o empenho das escritoras feministas, e de alguns intelectuais, para que Emilia Pardo Bazán fosse admitida na Academia Espanhola:

Emilia Pardo Bazán é hoje não apenas a primeira figura de escritora de que a Espanha e a península se podem orgulhar, mas também umas das primeiras da Europa, quer no romance, quer na crítica literária. A sua vasta bibliografia encerra verdadeiras obras primas, que lhe grangearam a maior e mais justa reputação. Artista perfeita, prosadora admirável, espírito brilhante e sagaz, d’uma cultura de que o seu sexo nos não dá muitos exemplos, ela conseguiu, mercê dos seus méritos singulares e d’um trabalho que ainda não buscou descanso, impor-se de maneira que, apesar de todos os preconceitos e das relutâncias dos anti-feministas, faz parte do Conselho de Instrução Pública hespanhol e é presidente da secção de letras no Ateneu de Madrid. Vagando, há pouco, uma cadeira na academia, por morte do grande matemático e sábio poliglota Eduardo Saavedra, produziu-se em Hespanha um entusiástico movimento como o fim de lembrar e até impor o nome ilustre de Pardo Bazán para o preenchimento da referida vaga. A insigne autora de La madre naturaleza e de tantas outras maravilhas literárias é galega, motivo porque esse movimento é na Galiza apoiado com um ardor excepcional. Resta ver se a Academia tem a coragem de se honrar com a admissão entre os seus membros de uma senhora que é incontestada na glória [o restante da página estava cortado]” (O Século, 27-3-1912).

Assim como a escritora Emilia Pardo Bazán (1851-1921) encontrou dificuldades para alcançar o reconhecimento do seu talento literário, outra escritora galega, Rosalía de Castro (1837-1885), também teve que enfrentar muitos preconceitos até ter reconhecido o seu valor. As vicissitudes da biografia de Rosalía de Castro, assim como as de Florbela Espanca, contribuíram para que em torno da mesma se erijisse uma aura que acabou por mitificá-la. Rosalía e Florbela vivenciaram situações semelhantes, como, por exemplo, foram ambas frutos de relações extraconjugais, o que na época em que viveram era algo que a sociedade tolerava, mas não aceitava. Florbela Espanca cantando a dor, a saudade, a sensualidade, o erotismo, a terra alentejana, o sonho, as vaidades. Rosália também desenvolveu na sua poesia temas variados, ela cantou a dor, a saudade, a religiosidade, questões existenciais como o questionamento do sentido da vida, a Galiza e trouxe para o primeiro plano os marginalizados (órfãos, mendigos, mães solteiras, os imigrantes galegos). Fiéis às suas verdades interiores, tanto Florbela Espanca, quanto Rosalía de Castro têm destacada, por inúmeros críticos, a coragem, por cantarem temáticas relevantes para a emancipação das mulheres, numa época em que o peso opressivo da cultura patriarcal inviabilizava o discurso feminino. Esses são exemplos da importância do movimento feminista no processo de emancipação feminina. 

 Vale destacar que as mulheres do século XIX foram potências produtivas domésticas, e as mais pobres, entre outras atividades, produziam artefatos que vendiam nos mercados, eram costureiras e operárias. Já as mulheres burguesas trabalhavam para os seus maridos. Muitas vezes elas exerciam as mesmas funções que os homens, mas não eram remuneradas equitativamente. Michelle Perrot (1988) destaca que o feminismo surgiu como movimento social, e não político, e isso fortaleceu a ideia de que política não era coisa de mulher. Foi a partir de 1848 que o feminismo se desdobrou em variadas direções e despertou uma forte resposta social contrária, tanto que os sindicatos passaram a lutar para que as feministas não tivessem espaço nem remuneração no mercado de trabalho. Nessa época, muitos sindicatos exigiam que fosse extinto o trabalho feminino fora do lar. Não conseguindo impedir a inserção da mulher no mercado de trabalho, o sistema regulamentou a sua atuação. O principal  veículo de difusão dos ideais feministas foi a imprensa. As mulheres liam os jornais diários, se apropriavam dos folhetins e foram, pouco a pouco, conquistando espaço. Florbela publicou em variados jornais e revistas. A poeta publicou, entre os anos de 1916 e 1930, no Notícias de Évora, A Voz Pública, O Século da Noite, no Diário de Lisboa, na Revista Seara Nova, Europa, Dom Nuno, O Primeiro de Janeiro, Revista Civilização, Diário de Coimbra, Portugal Feminino e no suplemento feminino do jornal O Século, Modas & Bordados. O jornal O Século era esquerdista, e podemos observar a notícia de seu lançamento no dia 28-1-1912, nasceu com o objetivo de instruir donas de casa, mas acabou por tornar-se espaço para as poetisas feministas publicarem seus textos:

De há muito tempo que vínhamos recebendo indicações sobre a falta, em Portugal, de uma publicação que, reunindo a modicidade do preço à perfeição da fatura, permitisse a toda mulher portuguesa, qualquer que fossem os seus meios, seguir a evolução das modas e bem assim a de todos os trabalhos femininos que constituem as melhores prendas de uma boa dona de casa. Sentíamos, nós também, essa falta. É certo que se vendem no nosso país alguns milhares de publicações francesas, inglesas e espanholas, contudo o que se faz lá fora n’essa especialidade [...] Sairá todas as quartas-feiras um suplemento de Modas e Bordados, com oito grandes páginas, cheias de figurinos que acompanham, dia a dia, a moda estrangeira, mas, adaptados ao nosso meio; publicará também numerosos desenhos de bordados, letras, rendas, etc. , etc. , que forneçam a todas as senhoras modelos de trabalhos em todos os gêneros; dará explicações detalhadas de todas essas gravuras e desenhos; fornecerá bons conselhos práticos sobre tudo quanto diz respeito à mulher, e, n’uma secção especial, encarregar-se-á de respondera todas as perguntas que lhe sejam enviadas (O Século, 1912). 
Entretanto, no dia 4-2-1912, o jornal O Século destacou um detalhe interessante: que o suplemento cuidaria a sério “de todos os assuntos que dizem respeito à educação de uma boa e sensata dona de casa”, isto é: “será um jornal, um dos poucos jornais que se pode deixar nas mãos de uma menina, sem que a sua leitura lhe infiltre no espírito más tentações, antes lhe aperfeiçoe o seu natural bom gosto e lhe inspire ideias sãs”. A escrita feminina em Portugal, na época em que Florbela produziu a sua obra, não era tabula rasa, ou seja, Florbela Espanca não surgiu no vácuo, como destacou Bakhtin. No início do século XX muitas mulheres passaram a escrever poesia. Esse fenômeno foi descrito como “um surto de poetisas” pela crítica, o que remete o termo “poetisa” para o campo da patologia, relacionando-o com a ideia de doença, epidemia. As poetas alcançaram grande popularidade, especialmente na década de 1920. Um breve olhar para o cenário da escrita feminina do século XIX mostra que entre os anos de 1849 e 1851, foi publicada a revista Assembléia Literária, dirigida por Antônia Gertrudes Pusich, uma das primeiras escritoras que ousou assinar o próprio nome numa publicação, numa época em que as identidades eram resguardadas por meio de pseudônimos. Em 1868, surgiu a revista A Voz Feminia, que abriu espaço para as mulheres que desejassem publicar. Em 1867, Maria Amália Vaz de Carvalho lançou a obra Uma primavera de mulher, que suscitou do crítico Ramalho Ortigão este comentário: “o pai e o marido, e não mais Deus, eram os novos tutores e médicos da mulher”, declarou ainda que essas mulheres deveriam se submeter “dócil e amorosamente” a estes nos períodos de sua existência (ALONZO, 1994, p. 22). A tendência à patologização pode ser observada na propaganda das pílulas Pink, uma entre muitas que prometiam força e saúde ao sexo considerado frágil.

Belas Senhoras, cuidado, muito cuidado: Cuidado com a primavera encantadora, sim, mas perigosa! Sois fracas, todos os vossos órgãos são fracos. O vosso sangue está carregado de impurezas, e os vossos rins demasiado fracos não podem eliminar essas impurezas. É mister, porém, que elas saiam. Sairão pela pelle, e o vosso belo rosto não tardará a ser deteriorado, afeiado, por uma quantidade de cousas detestáveis: erupções, fogagens, borbulhas, grandes furunculos até. O vosso intestino é fraco. [...] Purificam o sangue, e o pouco sangue que tendes está impuro. Tonificam o sistema nervoso, que tanto tendes fatigado nas festas e prazeres da sociedade, ou nas fainas do trabalho, têem grande necessidade de um tônico. As Pílulas Pink estimularão todos os vossos órgãos. Se não vos tardardes agora já, pagareis bem cara a vossa negligência: tome pois as PILULAS PINK” (O SÉCULO, 1912). 
A escritora portuguesa Ana Plácido (1831-1895), amante do escritor Camilo Castelo Branco e, posteriormente sua esposa, escandalizou a sociedade portuguesa chegando a ser presa por adultério. Ana Plácido também utilizava pseudônimos. No século XX surgiram em Portugal O Grupo Português de Estudos Feministas (1907), A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, em 1911, a Associação de Propaganda Feminista, em 1914, e o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas. Todos esses movimentos foram dissolvidos em 1926 pelo Estado Novo. As mulheres que participaram do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas se reuniram em torno da revista Portugal Feminino, da qual Florbela foi assídua colaboradora durante o último ano de sua vida. O reconhecimento do público não era algo inalcançável. Escritoras como Branca de Gonta Gonçalo (1880-1944), Alice Moderno (1867-1946), Domitila de Carvalho (1871-1966), conciliaram a escrita com atitudes femininas esperadas e aceitáveis, sendo aplaudidas por homens e mulheres. Maria de Carvalho (1889-1973), por exemplo, prefaciou a obra de Gonta Colaço destacando qualidades tradicionalmente femininas como a beleza, a modéstia e o altruísmo, e Virgínia Victorino (1898-1967), autora de Namorados, fez tanto sucesso que sua obra foi editada doze vezes. Essa obra de Virgínia Victorino se afasta da produção de Florbela por não abordar temáticas como a sensualidade. Isabel Freire (2010, p. 53) destaca o fetichismo dos discursos opressores na época do Estado Novo: “as Raparigas que aspirassem a outro destino menos doméstico e menos ‘puro’ colocaria em forte risco a sua virtude”. Publicações católicas como a revista Stella traziam o apelo dramático das mães e das educadoras advertindo para que se tomasse cuidado com as meninas, pois estas corriam perigo no alucinado século (FREIRE, 2010, p. 53). Segundo essa revista: “Não é com matemática e história na cabeça, o nome da fita recente ou do romance em voga que as pobres raparigas vão saber viver”, antes é por meio da educação cristã (FREIRE, 2010, p. 53). 

A feminilidade de Florbela Espanca não foi domada, a sua obra se aproxima da de Judite Teixeira (1880-1959), poeta que, na mesma época em que Florbela lançou o Livro de Sóror Saudade (1923), publicou a obra Decadência, cujos exemplares foram apreendidos sob a acusação de serem imorais, por terem um forte teor sensual e fazerem alusão ao lesbianismo, atração considerada perversa (ALONZO, 1994). Suilei Monteiro Giavara (apud VILELA, 2012, p. 190) nos faz saber que Judite Teixeira provavelmente conhecia Florbela, pois dirigia o jornal Europa na época em que Florbela publicou o soneto “Charneca em flor”, em junho de 1925. Florbela Espanca resistiu transgredindo, cantando o corpo, a liberdade, e a carga de sensualidade presente na sua obra poética vinculou-a a uma inextricável associação entre o prazer sexual e o proibido, ou seja, ao pecado. É preciso atentar para o fato de que Florbela viveu em um tempo no qual as mulheres não tinham liberdade sexual, ou seja, não tinham direitos plenos sobre o seu corpo e sobre a sua sexualidade. A liberdade que hoje se materializa no direito ao prazer, que já não é apenas reservado aos homens, era vetada às mulheres consideradas honestas, e o corpo, com suas sensações e demandas, era considerado um tabu. Observemos que, mesmo no século XXI, a sexualidade e o sexo, para a maioria das pessoas, ainda fazia parte da intimidade e continua pertencendo ao campo do privado. O poema “III”, que está reunido na seleção intitulada “He hum não querer mais que bem querer”, mostra de forma explícita os caminhos do desejo e da sedução por onde passa o eu poético florbeliano.


Frêmito do meu corpo a procurar-te, 
Febre das minhas mãos na tua pele 
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel, 
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te, 

Olhos buscando os teus por toda a parte, 
Sede de beijos, amargor de fel, 
Estonteante fome, áspera e cruel, 
Que nada existe que a mitigue e a farte! 
(ESPANCA, 1999, p. 258). 

Florbela integrou esse grupo de poetas que cantou o amor, a dor, a desilusão e que foi alvo de muitas críticas no primeiro quartel do século XX. Um dos muitos críticos, que era contra a inserção da mulher no campo da poesia, e, diga-se de passagem, do discurso, foi Ramalho Ortigão. Desde 1877, na obra As Farpas, Ortigão apregoava o quanto a educação das mulheres as desviava de sua missão própria: “preparar o caldo”. Chamamos a atenção para a forma como, nos poemas recolhidos no jornal esquerdista O Século, a atitude era de abnegação das mulheres, de submissão frente ao masculino. Temáticas como o elogio da saudade e de outros temas portugueses, a culinária e a religião eram corriqueiros na imprensa da época. Se a escrita feminina não era vista com bons olhos, como veremos detalhadamente mais adiante, ela era tolerada, desde que não se desviasse do ideário feminino da época. A escrita feminina era considerada a expressão de “mulheres de alma delicada, e com espíritos igualmente delicados” (O Século, 1919). Florbela não escapou a muitas das temáticas comuns à sua época, nem foi poupada de críticas, mas o amor que descreve na sua poesia não é submisso, antes, é um amor ansioso, que deseja um para “além...”, tanto do objeto amoroso, pois seu amor espalhase para “Este e Aquele, o Outro e a toda gente...”, até alcançar a despersonalização e “Amar! Amar! E não amar ninguém!”, como observamos no poema “Amar”:

Eu quero amar, amar, perdidamente! 
Amar só por amar; Aqui...além... 
Mais Este e Aquele, o Outro e a toda gente... 
Amar! Amar! E não amar ninguém!
 (ESPANCA, 1999, p. 232). 

Como observamos, Florbela Espanca levou uma vida extemporânea. Foi literata, lugar social que na sua época não era bem visto quando ocupado por uma mulher. Dona de uma personalidade autêntica, corajosa, a poeta tinha consciência das dificuldades do campo de trabalho que escolhera. Diferente da maioria das mulheres de sua época, Florbela teve acesso à educação. A poeta cresceu em um ambiente politizado, pois seu pai, João Maria Espanca, era militante republicano atuante. Como vimos, Florbela publicou dois livros em vida, o Livro de Mágoas (1919) e o Livro de Sóror Saudade (1923). A sua terceira obra, o livro Charneca em flor (1931), foi publicado postumamente por Guido Battelli, professor italiano que dava aulas na Universidade de Coimbra. Battelli é um personagem controverso da história editorial florbeliana. Após a morte de Florbela, ele manipulou documentos e inaugurou um movimento de associação entre a vida e a obra de Florbela. Se por um lado essa associação mecanicista fez com que o nome de Florbela ficasse conhecido em todo Portugal, por outro desviou a atenção do público e da crítica da imanência de sua obra. Destacamos que, a partir do pressuposto bakhtiniano, a obra poética de Florbela dialoga com a tradição literária popular e culta e com o seu tempo, com a crítica, com o mercado literário. Rico é, também, o diálogo interno que estabelece em cada um de seus livros, seja com o amado, com a natureza, ou consigo mesma. Tanto Bakhtin quanto Jauss apontaram para a importância da historicidade para o entendimento da obra de um determinado escritor; e foi em consonância com esse pensamento que lançamos o olhar para a escrita realizada por mulheres no final do século XIX e início do século XX, e as suas implicações. Constatamos que Florbela, mesmo utilizando uma forma poética rígida, o soneto latino, cantou a liberdade e o erotismo, temáticas tabus na sua época. Essa ousadia e insurreição feminina, revelados por essa “Outra” Florbela, a poeta insurreta, vincularam os seus escritos ao campo da alteridade.


Originalmente publicado na Revista Ágora (Acesse)
Vitória • n. 22 • 2015 • p. 111-123 • ISSN: 1980-0096

21/08/2019

LITERATURA PRODUZIDA POR MULHERES NO ESPÍRITO SANTO: JUDITH LEÃO CASTELLO RIBEIRO E A AFESL

www.afesl.com 
Durante muito tempo um silêncio ruidoso pairou sobre a produção intelectual das mulheres capixabas. Maria Stella de Novaes, na obra A mulher na História do Espírito Santo (História e folclore), escrita entre 1957 e 1959, denunciou que essa “omissão de referências às mulheres” remontava os registros históricos da comitiva de Vasco Fernandes Coutinho, donatário da Capitania. Dona Stelinha, como carinhosamente era chamada, é uma personalidade importantíssima da historiografia do ES, pois, contribuiu para manter viva a memória de muitas mulheres, como a esposa do índio Maracaiaguaçu, batizada como Branca Coutinho e a viúva de Guajaraba (Cabelo de Cão) que guiou o seu povo na descida do Sertão para a aldeia dos Reis Magos. Não ficou de fora de seu relato a importância histórica de Dona Luísa Grimaldi, que governou o Espírito Santo com êxito entre os anos de 1589 e 1593 e de Maria Ortiz, heroína capixaba, filha de espanhóis que defendeu a Capitania da invasão holandesa, em 1625. Os séculos passaram e “humildes e ignoradas, alheias, mesmo aos resultados sociais e econômicos dos seus esforços”, as mulheres capixabas chegaram ao século XVIII ainda condicionadas por conceitos patriarcais religiosos, sociais e legais que as caracterizavam como inferiores ao homem. Dona Stelinha registra: “fadas incógnitas que salvaguardavam as bases da sociedade”, as capixabas eram consideradas “máquinas de trabalho doméstico”, mesmo assim, as alunas da professora Maria Carolina Ibrense protagonizaram a primeira publicação pública feminina no ES, poemas no Correio de Vitória (29-12-1849).  No século XIX as mulheres começaram a conquistar novos espaços sociais e as senhoras do Espírito Santo se organizavam em torno de novos interesses, como o jornal de moda parisiense A Estação e surgem clubes literários como o de São José do Calçado, denominado “Amor às letras” e temos registros das primeiras escritoras capixabas: Orminda Escobar Gomes, Cecília Pitanga Pinto, Silvia Meireles da Silva Santos, minha patrona na AFESL,, e Maria Antonieta Tatagiba. Em Vitória e Vila Velha as rendas, parte do aprendizado de trabalhos manuais das moças, eram famosas. Porém, esses novos espaços conquistados se devem muito à escolarização das mulheres e à emergência de suas ações coletivas. Nesse sentido, no século XX, podemos perceber a relevância da vida e da obra da homenageada da 6ª Flic-ES, Judith Leão Castello Ribeiro. O Brasil viveu e vive um obscurantismo com relação às questões de gênero, exemplo disso é que o tema vem sendo subtraído das metas da educação nacional. Acreditamos que resgatar a história das resistências das mulheres como Judith Leão é essencial, pois nos inspira a continuar lutando pela educação e pelo direito à livre expressão. Judith Leão se insere nesse contexto de luta e resistência das primeiras sufragistas capixabas. Ela estudou, tornou-se professora e o seu interesse por política levou-a a se engajar no movimento de mulheres. Vale recordar que a exclusão das mulheres da categoria de cidadãs, na constituição inglesa de 1791, levou a escritora Mary Wollstonecraft a escrever Reivindicação dos direitos da mulher e essa obra, que denunciava a opressão no tempo do iluminismo, ecoou no Brasil e, insuflado por Nísia Floresta com o seu Direito das mulheres e injustiça dos homens, de 1832, floresceu o movimento feminista brasileiro. Berta Lutz, na década de 1920, liderou a criação da FEDERAÇÃO BRASILEIRA PELO PROGRESSO FEMININO e esse feminismo de primeira hora, que tinha como foto a melhoria das condições da mulher na sociedade e a conquista do direito ao voto feminino, só alcançou o pleito em 1932. Segundo Maria Stella de Novaes, o movimento feminista capixaba delineou-se, paralelamente ao movimento nacional, liderados por Silvia Meireles da Silva Santos, em Vitória. Nessa época, a organização das mulheres em entidades fomentou importantes debates políticos e, em vários estados da federação, o feminismo se fortaleceu. No Espírito Santo não foi diferente, as intelectuais capixabas já chamavam a atenção pela atuação destacada no cenário cultural local, mesmo assim, alguns espaços ainda lhes eram negados, e um desses espaços era o político. Judith foi uma defensora ardorosa dos direitos políticos das mulheres, mas, o ambiente conservador da época exigiu uma sensibilização das capixabas para a luta política. Maria Stella de Novaes expõe as dificuldades das mulheres que ousavam desafiar a ordem patriarcal adentrando espaços públicos, relata que ela mesma sofreu para ingressar como catedrática no corpo docente do Ginásio do Espírito Santo e na Escola Normal do Estado, e que “as escritoras e as poetisas margaram” da mesma forma, “bebendo o cálice da crítica ferina e da oposição implacável”. Em 1933 um grupo de senhoras vitorienses fundou a FEDERAÇÃO ESPÍRITO-SANTENSE PELO PROGRESSO FEMININO, buscando incentivar o alistamento de mulheres e, sem compromisso partidário, fundou-se também a CRUZADA CÍVICA DO ALISTAMENTO, cuja presidente foi Silvia Meireles da Silva Santos, vice-presidente, Judith Castello Leão Ribeiro, e tesoureira Maria Stella de Novaes. Judith já era professora, desde o ano anterior, quando tinha sido aprovada em concurso público e ingressada como professora no Grupo Escolar Gomes Cardim. Foi como mestre que, em 1934, pela primeira vez, ela se candidatou como deputada estadual não filiada a partido, mas não se elegeu.Em 1936, o direito ao voto das mulheres foi mantido sem restrições na Constituição Federal e a sessão capixaba da Federação, no Rio de Janeiro, então capital Federal, contribuiu com uma mobilidade para esse episódio. A movimentação feminista vitoriense repercutiu no interior do estado e uma delegação da UNIÃO CÍVICA FEMININA, de Cachoeiro de Itapemirim, em 1936, enviou uma delegada para participar do Congresso Nacional Feminino. O “esforço titânico” para o êxito do movimento feminista, ¾ como diria Maria Stella de Novaes ¾, de Judith Leão e de muitas outras mulheres capixabas, entre elas Guilly Furtado Bandeira, Ilza Etienne Dessaune, Maria Antonieta Tatagiba, Lidia Besouchet, Virgínia Tamanini, Yponéia de Oliveira, Zeni Santo e Haydée Nicolusse, precisa ser conhecido pelo público. A Flic-Es busca criar espaços para que os escritores do passado e do presente possam ter visibilidade. Em 18 de julho de 1949, um grupo de mulheres uniram forças com Judith Leão e fundaram a ACADEMIA FEMININA ESPÍRITO-SANTENSE DE LETRAS (AFESL). Francisco Aurélio Ribeiro, dedicado pesquisador da vida e da obra das escritoras capixabas, nos faz saber que apenas muito recentemente as mulheres foram aceitas nas academias de Letras, e destaca da extemporaneidade da capixaba Guilly Furtado Bandeira que, em 1913, ingressou como acadêmica na Academia de Letras do Pará. A escritora é, também, a primeira capixaba a publicar um livro, em 1913, Esmaltes e Camafeus. A acadêmica da AFESL Ailse Therezinha Cypreste Romanelli destacará que, no ES, era “um despautério”, na década de quarenta, uma mulher como Judith cumprir quatro legislaturas como deputada e, ainda, tentar entrar para a Academia Espírito-santense de Letras. Judith se candidatou para uma cadeira da AEL, mas, não foi aceita. Ailse Romanelli destaca, ainda, que “as academias eram exclusivamente masculinas”, então num movimento de afirmação feminina, Judith fundou a Academia Feminina Espírito-santense de letras (AFESL) e foi a sua primeira patrona. Participaram dessa primeira diretoria Arlette Cypreste de Cypreste, como vice-presidente, como secretárias Zeni Santos e Iamara Soneghetti e Virgínia Tamanini como bibliotecária, a elas se juntaram Ida Vervloet Finamore, Hilda Prado e outras escritoras e a instituição foi se firmando no cenário cultural capixaba. Temos o registro de que a querida escritora e acadêmica Maria Filina Salles de Sá declamou o poema “Mãe Negra”, de Colares Júnior, na reunião da AFESL do dia 11 de agosto de 1949 e que Beatriz Monjardim participou pela primeira vez de uma sessão no dia 25 de agosto de 1951. Maria Filina e Beatriz Monjardim continuam participando ativamente das atividades da AFESL, fica aqui registrado o meu carinho e o de todas as acadêmicas por ambas. Beatriz Monjardim lançará o seu mais recente livro, “Nas contas do meu terço”, na 6ª Flic-ES. Maria Stella de Novaes participou da comissão que escreveu o primeiro estatuto da AFESL, juntamente com Ida Vervloet Finamore e Hilda Pessoa Prado e muitas outras personalidades femininas do Estado passaram pela AFESL dignificando a instituição. No dia 16 de agosto de 1949, estiveram presentes no Salão de honra da Escola Normal Pedro II, onde aconteceu a Sessão solene de Instalação da AFESL e posse da primeira diretoria, o Governador Carlos Fernando Monteiro Lindenberg, que falou sobre a “feliz iniciativa” de criação da Academia, o representante da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, Dr. José Rodrigues Sette, e o Presidente da AEL, Dr. Eurípedes Queiroz do Vale, pessoa que muito incentivou e contribuiu para com a fundação da AFESL. Nos seus setenta anos de existência, a AFESL continua lutando para ser um espaço de criação de livre produção para as intelectuais capixabas, desde os seus primórdios quando Annette de Castro Mattos, em 1950, organizou a “Vitrine literária”, fazendo um importante registro das escritoras do Espírito Santo, passando pelo programa “Mulher e perfume”, dirigido por Arlete Cyprete de Cypreste na Rádio Capixaba e que deu voz a muitas escritoras e artistas, a escritora Zeny Santos, que fundou a “Casa do capixaba”, o apoio dado pela AFESL ao Instituto Braile na sua criação, a criação do “Lar da Menina”, por Beatriz Nobre de Almeida e tantas outras ações das nossas acadêmicas. O emblema da nossa academia é Ubi Plura Nitente, que significa “onde todas brilham”, ele ilustra o sentimento que nos norteia. Assumi a presidência da AFESL consciente da responsabilidade de dar prosseguimento a esse legado de luta feminina/feminista e sinto-me honrada em presidir a AFESL no ano do seu Jubileu. A trajetória dessas e de outras grandes mulheres, muitas delas ainda desconhecidas, mostra a importância de que tenhamos consciência do nosso papel no âmbito da cultura, assim como no da política, da pesquisa, etc. A realidade atual exige, de nós, posicionamento com ações concretas. Poucas instituições culturais completam setenta anos ativas e com um histórico de conquistas. Dedico essas linhas a Judith Leão Castello Ribeiro, a Ester Abreu Vieira de Oliveira, destacando duas em especial, Carmélia Maria de Sousa e Haydée Nicolussi, que nas suas épocas, não foram aceitas no quadro de acadêmicas da AFESL, mas que hoje nos honram sendo nossas patronas. Renata Bomfim - Presidente da Academia Feminina Espírito-santense de Letras e da 6ª Flic-ES

11/08/2019

Brazil

Minha terra, meu amor,
Quantas saudades de ti, senti,
Lá em Madri.
Era verão, 2013, e eu andava sem rumo,
Embriagada pela ilusofonia.
Fui atrás do Rubén Darío, o bardo beberrão e sensual,
Dei um rolezinho com a Florbela, em Évora.
Eu, uma poetisa capixaba, anônima como os pombos
Da Puerta del Sol.
Nessa época, escrevi um poeminha apaixonado,
Tão sincero, para ti,  meu Brasilzinho,
A saudade doía. Nele, cantei tuas belezas
Reconheci ser parte de ti e, tu, o meu sangue e carne.
Fiquei chocada, um dia, em Madri,
Quando vi, nos muros de uma universidade,
Um picho convidando para um encontro pro nazi.
Fiquei horrorizada, indignada, muito puta da vida.
Isso me lembra que um homem me abordou, em uma feira de livros
Em Portugal, queria pagar pelos meus montes, prados e matas.
Lembrei o sujeito que não estávamos em 1500.
Ironicamente, eu acabara de comprar um livro de freira:
Cartas portuguesas e de ler as Novas Cartas Portuguesas.
Voltei para ti, pátria e, vejam só, um tempinho depois, logo, logo,
Eis que ascende ao Planalto Adolfinho e seu secto bizarro.
Ah! terrinha querida,
Foste sequestrada por uma quadrilha
Perversa, sanguinária,
Malditos incendiadores do futuro.
Agora, o meu corpo de mulher luta para não se reduzido
A cinza, pó e nada e a tupiniquim que me habita 
Grita, luta e exige justiça.
A Mata e os animais, que amo mais que a mim mesma,
Estão sendo dizimados.
A morte se instalou no teu seio como um câncer.
Pátria armada, salve, salve!
Não, não espero que me salvem.
Ensaio movimentos plurais e sinuosos de sobrevivência. 
Pátria estuprada, aviltada. 
Terra de desamparados, marginalizados e oprimidos. 
Brazil. 


RB- Vix, 11-08-2019

O "Santinho" de Elvis Júnior

***Em 2014 fiz esse "santinho" para o meu gatinho milagreiro, o Elvis Júnior. Aconselhava os amigos que queriam passar nas provas de mestrado e de doutorado que rezasse para ele, visto que tinha funcionado comigo, e tive o retorno de três colegas que rezaram e passaram. Então, sabendo dos três "milagre", canonizei o felino sem problema e nem pudor, era beato e pronto, o meu santinho Elvis Júnior.

SANTO ELVIS JÚNIOR,
GATO MILAGREIRO,
DOS ANIMAIS, PROTETOR,
LIVRAI OS ANIMAIS
DAS PESSOAS MALVADAS, 
DO ABANDONO, DA FOME,
DO FRIO E DA DOR.
VENHO A VÓS, FELINO BENEVOLENTE,
JUNTO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS,
PEDIR QUE NOS ATENDA PRONTAMENTE.

30/07/2019

“El sacro incêndio universal amoroso”: ecos del lirismo de Rubén Darío en la poesía en lengua portuguesa. (Renata Bomfim)




Visita a Diriamba, Nicarágua.

Delirio divino, así como lo definió Platón; deseo de aquello que nos falta, como lo entendió Sócrates; experiencia a las puertas de la muerte, descrito por Santa Teresa; la temática amorosa forma parte del manantial lírico de todas las épocas, siendo el amor un arquetipo potente que estremece y arrastra hacia el objeto perseguido.
La temática amorosa, plasmada por Rubén Darío en su obra, encuentra resonancia en la tradición lírica en lengua portuguesa, desde las cantigas de amor medievales, pasando por la obra de Luis de Camões que cantó: “el amor es fuego que arde sin ver”; por Eugênio de Castro, a quien el poeta dedicó estudios, Fernando Pessoa y, llegando al Brasil, en las voces de poetas de diferentes épocas: Gregório de Matos, considerado el primer poeta brasileño, Olavo Bilac, Carlos Drummond de Andrade y Hilda Hilst, entre otros.
En la obra dariana, el amor posee el poder de fragmentar barreras y facilitar la coincidencia; y se singulariza, dejando de ser “lugar común” para alcanzar la “universalidad”. El poeta y crítico Pedro Salinas, calificó al bardo nicaragüense como “el mayor revolucionario del concepto del amoroso”. Esa revolución poética dariana puede ser comprobada en la constante invitación a la entrega hecha por el yo lírico: “Ama tu ritmo e ritma tus acciones” (“Ama tu ritmo”); al fin, hasta la “fiera virgen ama” (“Estival). Así, el amor se erige en fuerza vital que posibilita superar “la montaña de la vida” (“Amo, amas”). De ese modo, el amor, para Darío, se hace instrumento de reafirmación vital, se vuelve poesía, se convierte en mito.
Sucedió durante la investigación del maestrado, mientras investigaba la obra de la poetisa portuguesa Florbela Espanca (1894-1930), cuando me encontré con el poeta nicaragüense. Observé que el libro de poemas florbeliano Charneca em flor, póstumo, de 1931, llevaba como epígrafe el poema “Amo, amas”, de Canto de vida y esperanza. Defendí la tesis de la existencia de un diálogo estrecho entre esos dos libros. Así, muchos de los poemas contenidos en Charneca em flor, probarían el impacto que la lectura de la obra de Darío pudo causar en la poetisa considerada como una de las mayores voces de la lírica portuguesa moderna. Presenté tales inquietaciones en el I Congreso Internacional Florbela Espanca, que reunió en 2011, en Vila Viçosa, Portugal, a estudiosos de variados países. Las hipótesis presentadas fueron comprobadas, posteriormente, en la tesis de doctorado titulada A flor e o Cisne: diálogos poéticos entre Florbela Espanca e Rubén Darío, defendida por mí en 2014, en la Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
Florbela Espanca fue una poetisa que, como Darío, conoció mudanzas socio-políticas significativas, incorporadas por la modernidad. Entre ellas el cuestinoamiento de la tradición y la recuperación de los códigos del pasado. El poema dariano “Amo Amas, de la obra Cantos de vida y Esperanza, dice: “Amar, amar, amar, amar siempre, con todo/ el ser y con la tierra y con el cielo, / con lo claro del sol y lo obscuro del lodo. / Amar por toda ciencia y amar por todo anhelo”. En el poema de Florbela Espanca, titulado “Amar”, resuena la voz del bardo nicaragüense: “Yo quiero amar, amar, perdidamente!/Amar solo por amar; Aquí… allá…/ también a Este y Aquel, al Otro y a todo el mundo…/Amar! Amar! Y no amar a ninguno!
Observamos que el poema florbeliano es un clamor obsesivo, en el que se da un uso anafórico de la palabra amar; repetida ocho veces, siete de ellas en el primer cuarteto. En el poema dariano, la palabrea amar se repite siete veces y, amor, una. Florbela Espanca ama perdidamente, y esta pasión, fuerza vital de su poesía, no conoce límites. Florbela describe en su poesía un amor libertario, insumiso y ansioso; que desea un “más allá” del objeto amoroso; pues su amor se extiende hacia “Este y Aquel, el Otro y toda la gente…”, hasta alcanzar el despersonalizado “Amar! Amar! Y no amar a ninguno!”. Para la poetisa portuguesa, la vida, esa primavera con los días contados, solo vale la pena abandonándose al numen, a lo humanamente inexplicable. Desde esa perspectiva, el amor se siente capaz de dar nuevo significado a la vida y vencer a la muerte: “Y si un día he de ser polvo, ceniza y nada/ Que sea mi noche una alborada, que me sepa perder…para encontrarme…”
En “Historia de mis libros”, Darío dice del poema “Amo, amas”: “pongo el secreto de vivir en el sacro incendio universal amoroso”. El amor, cantado por el poeta, tiene como distintivo la continuidad: “Amar, amar, amar, amar siempre”, o sea, sobrepasando el simple placer carnal que se agota en sí mismo –aunque sea esta una de las facetas distintivas de la poesía dariana, un amor completo, integro, que como el descrito en el “Amar” de Florbela,  se aleja de la individualidad. Darío defiende el amor como ejercicio verbal que debe ser conjugado “con todo/ el ser y con la tierra y con el cielo,/ con lo claro del sol y lo obscuro del lodo./ Amar por toda ciencia y amar por todo anhelo”.
Si la poética de Florbela, rompió con el ideario femenino de su época, encontramos en la poética de Darío la ruptura con el canon literario, contribuyendo a la renovación del idioma español, inicio del primer movimiento genuinamente hispanoamericano, el Modernismo.
Florbela y Rubén no se conocieron personalmente, aunque Darío visitó Lisboa en 1912 como director de la Revista Mundial. Tras esa visita a Portugal, el poeta viajó a Brasil. Había estado Darío en Brasil en 2006 como Subsecretario de Relaciones Exteriores de Nicaragua, participando en la Tercera Conferencia Panamericana, celebrada en Rio de Janeiro. En esa reunión, marcada por tensiones políticas, el poeta leyó por vez primera el polémico “Salutación al águila”. Siendo aclamado por los destacados intelectuales brasileños: Machado de Assis y Graça Aranha. En 1912 Não fue diferente, recibió a Darío la flor de la intelectualidad brasileña: Silvio Romero y Afrânio Peixoto entre ellos. El renombrado crítico paraense José Veríssimo, intervino en nombre de la Academia Brasileira de Letras, destacando el “funesto” distanciamiento existente entre los pueblos latinoamericanos: “Hijos del mismo continente”, que vivían, “indiferentes los unos de los otros e ignorándonos por completo”. En ese sentido, Veríssimo señaló a Rubén Dario como “uno de los mejores representantes del espíritu latino-americano”, o sea, una personalidad capaz de conseguir la unidad primordial de esos pueblos.
Es indiscutible que, en América Latina, el incendio promovido por el lirismo dariano inflamó a poetas muy distintos. En Brasil, la obra del bardo nicaragüense fue leída y mencionada profusamente por los escritores de los inicios del siglo XX, especialmente Manuel Bandeira. Sin embargo, constatamos que, en la actualidad, tanto su poesía como su prosa son poco estudiadas, aunque se demanden traducciones. Pensamos que ese escenario tiende a cambiar, en la medida en que el eurocentrismo pierde fuerzas y los estudiosos tienden su mirada hacia el Sur. Darío es un poeta de plena actualidad porque canta el amor y la fraternidad entre los pueblos. Difundir su poesía entre los brasileños, nos da hoy la oportunidad de celebrar y fortalecer los lazos que nos unen histórica y culturalmente. Y ese es nuestro reto.


Tradução Pedro Sevylla de Juana (pedrosevylla.com/ruben-dario/)



28/07/2019

Encruzilhada (Renata Bomfim)

Na encruzilhada,
Sem posses, lembranças,
apenas uma escolha e
a voz que, mesmo baixa,
se projeta
pelos caminhos.
Todo final pode ser
um recomeço.


Labrar Profundo Poema de Pedro Sevylla de Juana


A ti Alonso, hijo de Madrid o de Bermeo
Ercilla y Zúniga, o de Valladolid acaso, aunque improbable,
mas de Iberia por seguro;
a ti Alonso, quiero explicarte en estas letras,
gracias a Fortuna, breves,
mi asombro nacido de la separación que haces
de las noche vecinas de los días,
cuando escribes en plena madrugada:
“en una parte oculta y encubierta
tengo cerca de aquí mi gente armada”
gente que atacará al despuntar el alba,
confesando Alonso, al papel, secretos militares;
que soldado eres y escritor
a partes desiguales,
y no sé, lo doy por ignorado,
si actúas para contar
o cuentas para obligarte a hacer lo que has contado.

Como escritor, yo, que describe lo ocurrido
y lo mezcla con los deseos personales,
con aquello que quisiera que ocurriera,
dándolo por hecho de igual modo,
te diré que admiro el uso simultáneo
de la pluma y de la espada
blandiendo cada una en una mano:
ora la acción cierta,
ora, previo, su relato.

Labrar profundo, muy profundo
para que la tierra se airee y se oxigene,
y luego sembrar hondo
ese grano de trigo, humedecido
durante una semana larga en Valdepero
con agua del pozo y piedralipes,
y eliminar así enfermedades pasadas y futuras
de la semilla repleta de esperanza,
y que la semilla hinche su preñez más fructuosa
variedad antigua de grano adormecido
-coincido con Neruda en llamarla palabra-
pues ya estaba en el principio
del universo, aleteando, aleteando, aleteando
en vigorosa soledad, en abandono activo.

Y aunque hoy
hayamos convertido la palabra en sangre,
aunque la vayamos transformando en luz,
sangre a intervalos cada vez más largos
luz en espacios cada vez más breves,
debemos recordar, en el momento todo,
que su capacidad
-palabra lenitivo, palabra espada-
sigue siendo enorme, enorme, enorme;
ingente, apremiante y apretada.

Cuando, la puerta europea, en otro tiempo de par
en par abierta, a cal y canto amanece cerrada,
los necesitados de Iberoamérica
y del entero mundo
tienen que asaltarla, reivindicándose
como personas iguales y distintas
que no encuentran
huellas recientes de la humanidad antigua.

Europa los relega,
los relegan Portugal y España
los gobiernos europeos
los relegan, más como pobres sin enmienda
que como gentes de su gente
a la que también relegan.

Relega España a Ercilla
Madrid lo trata como a desconocido
y aquí reivindico su nombre y su vida
su vida y su obra
como ejemplo de todo aquello
que tenga de ejemplar el uso de la espada
antes o después
de usar con maestría la palabra.

Moriste Alonso y no sabes
por Fortuna
lo que tu cadáver fue y vino
de aquí para allá entero o separado;
ignoras que fuiste enterrado,
desenterrado y nuevamente enterrado
enterrado de nuevo, nuevamente;
ignoras que decapitado fuiste, y tu cabeza
vivió aventuras
que tu corazón ignora y viceversa
por Fortuna.

PSdeJ


Canto X de la Araucana (Fragmento)
Escrito por Alonso Ercilla y Zúniga
Traduzido por Pedro Sevylla de Juana

Estas mulheres, digo, que estiveram
num monte escondidas esperando
da batalha o fim, e quando creram
que ia de revés o castelhano bando,
ferindo o céu aos gritos desceram,
o mulheril temor de si lançando;
e de alheio valor e esforço armadas,
tomam dos já morridos as espadas.

E a voltas do estrondo e multitude
também na vitória embevecidas,
de medrosas e macias de costume
se voltam temerárias homicidas;
não sentem nem lhes dava pesadume
os peitos ao correr, nem as crescidas
barrigas de oito meses ocupadas,
que correm melhor quanto mais grávidas.

Se chamaba infelice a postreira,
e com rogos ao céu se volvia,
porque a tal conjuntura na carreira
mover mais presto o passo não podia.
Se as mulheres vão desta maneira,
a bárbara canalla qual iria?
De aqui teve princípio nesta terra
vir também as mulheres à guerra

Vêm acompanhando a seus maridos,
e no duvidoso transe estão paradas;
mas se os contrários são vencidos,
saem a perseguí-los esforçadas;
provam a fraca força nos rendidos
e se cortam neles suas espadas,
fazendo os morrer de mil maneiras,
que a mulher cruel o é deveras.

Assim aos nossos esta vez varreram
até onde o alcance tinha cessado,
e desde ali a volta ao povo deram
já dos inimigos saqueado.
Que quando fazer mais dano não puderam,
subindo nos cavalos que no prado
soltos sem ordem e governo andavam,
a seus donos por jogo remedavam.

Quem faz que combate e quem fugia,
e quem depois do que foge vai correndo;
quem finge que está morrido e se tendia,
quem correr tentava não podendo.
A gente alegre assim se entretenía,
o trabalho importuno desprendendo,
até que o sol riscava os collados,
que o General chegou e os mais soldados

PSdeJ

Académico Correspondiente de la Academia de Letras del Estado de Espírito Santo en Brasil, Pedro Sevylla de Juana nació en plena agricultura de secano, allá donde se juntan la Tierra de Campos y El Cerrato; en Valdepero, provincia de Palencia y España. La economía de los recursos a la espera de tiempos peores, ajustó su comportamiento. Con la intención de entender los misterios de la existencia, aprendió a leer a los tres años. A los nueve inició sus estudios en el internado del colegio La Salle de Palencia. En Madrid cursó los superiores. Para explicar sus razones, a los doce se inició en la escritura. Ha cumplido ya los setenta, y transita la etapa de mayor libertad y osadía; le obligan muy pocas responsabilidades y sujeta temores y esperanzas. Ha vivido en Palencia, Valladolid, Barcelona y Madrid; pasando temporadas en Cornwall, Ginebra, Estoril, Tánger, París, Ámsterdam, Villeneuve sur Lot y Vitória ES, Brasil. Publicitario, conferenciante, traductor, articulista, poeta, ensayista, editor, investigador, crítico y narrador; ha publicado veinticuatro libros, y colabora con diversas revistas de Europa y América, tanto en lengua española como portuguesa. Trabajos suyos integran seis antologías internacionales. Reside en El Escorial, dedicado por entero a sus pasiones más arraigadas, vivir, leer y escribir. Blog: pedrosevylla.com