* Hello, my friends! welcome to letra e fel! If you like this space, please share it with your friends.
* Dzień dobry, drogi czytelniku, witaj w blogu Letra e Fel! Dziękujemy za wizytę. Jeśli nasz blog ci sie spodobał, poleć go swoim znajomym.
*!Hola! , amigo lector. Sea bienvenido y si le gustó mi blog, recoméndelo a sus amigos!
*Cher lecteur, soyez le bienvenu! Veuillez conseiller notre blog à vos amis si vous l'avez aimé. Merci beaucoup!

12/04/2017

IV Feira Literária Capixaba (FLIC) 2017/UFES


Amigos leitores, especialmente os capixabas, vem ai mais uma FLIC. A Feira esse ano acontecerá na Universidade Federal do Espírito Santo e terá uma programação variada. Eu darei uma palestra no dia 20/04 (sábado) às 10 horas, o tema será A leitura e a escrita na educação socioambiental. Estão todos convidados. Renata Bomfim


02/04/2017

Discurso da escritora capixaba Renata Bomfim na sua posse na Academia Feminina Espírito- Santense de Letras (cadeira nº 16)

Senhora Presidente da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras, Ester Abreu Vieira de Oliveira,
Sras. Acadêmicas,
Senhoras, senhores, amigos e irmãos planetários.

XXX Nesta noite, 11 de novembro de 2010, dia em que esta veneranda instituição, a Academia Feminina Espírito-Santense de Letras, amorosamente, abre para mim as suas portas, eu os saúdo, assim como a tudo mais que é vivo e respira: as árvores, as flores, os animais (especialmente os gatos), as pedras, as nuvens e, reverentemente, presto homenagem a todas as confreiras que por aqui passaram, deixando além da saudade, importantes contribuições literárias, que ninguém mais poderia dar.
XXX O reconhecimento público de uma mulher como escritora é uma vitória para todas as mulheres. Uma visada histórica revela que, desde os primórdios da civilização, o silêncio imposto ao discurso feminino por meios de estratégias como a violência cotidianizada e a censura, foi amplamente ocupado pelo discurso masculino. Milhares de mulheres pagaram um alto preço pela liberdade de expressão que desfrutamos hoje, algumas pagaram com a própria vida.
XXX Este encontro é uma celebração das conquistas alcançadas pelas mulheres que nos antecederam, e a oportunidade de fazermos o bom uso da palavra e construirmos uma nova história, e de denunciar a violência que ainda cala milhares de mulheres. O discurso feminino ainda incomoda e ameaça, mas é certo que avançamos e estou certa que avançaremos ainda mais, até alcançarmos o diálogo com nossos pares, até que dancemos todos, juntos, celebrando a superação da dicotomia que transformou a todos nós em ilhas.
XXX A opressão perpetrada à mulher remonta os primórios da civilização. Na Grécia considerava-se que a mulher não tinha capacidade de Philia, ou seja, da amizade que nasce do amor. Sua função era reproduzir e cuidar dos afazeres da casa. Foi nesse contexto de repressão e injustiça que surgiu Safo, primeira poetisa conhecida, e criou uma escola de formação intelectual para mulheres, Safo chamava suas discípulas de hetairai, ou seja, amigas.
XXX No império Romano assistimos ao nascimento do Direito e a criação do código penal que legitimou a inferioridade feminina, reforçando a assimetria entre homens e mulheres. Do mundo hebraico nos chegam as histórias de Moisés, que proibiu o culto ao feminino e à natureza por meio das tábuas da lei, e de Eva, mulher que cedeu aos apelos do demônio privando a humanidade do paraíso.
XXX No Renascimento, a Ciência se consolidou respaldado no pressuposto de que a mulher se fazia bruxa pela sua natureza, ou seja, pelo seu sexo, considerado impuro e maléfico. O Malleus Maleficarum, definiu a mulher como “mental e intelectualmente” inferior e elas perderiam, ainda, nos séculos subsequentes, os direitos sobre os filhos, os bens e sobre qualquer tipo de produção intelectual, que era assinada pelo pai, marido ou irmão. No seculo XIX foi considerada a histérica e, no século XX “ascendeu”, se tornando “ a rainha do lar”, mas apenas do lar...
XXX Há uma dificuldade em se recuperar, historicamente, os traços da resistência feminina, mas ela sempre existiu, mesmo com a exclusão perpetrada pelo direito, a depreciação sofrida com a Ciência arrogante e a condenação pela religião.
XXX O pesquisador Francisco Aurélio Ribeiro nos faz saber que, no Espírito Santo, “a questão da literatura feita por mulheres deve ser vista juntamente com a marginalização a que estas foram submetidas pela sociedade machista e falocrata até muito recentemente”. E foi nesse Estado “machista e falocrata”, mais especificamente em Vitória, que Sylvia Meirelles Da Silva Santos (1889- 1990), patrona da cadeira de nº 16, liderou o movimento pelo voto feminino, presidindo a Federação Espírito-Santense pelo Progresso Feminino, e defendendo o direito e o dever do trabalho da mulher. Dona Santinha, como Silvia era carinhosamente chamada, foi professora, poeta, declamadora e ativista social e cultural. Na década de 20, ela emocionou-se ao saber que Adalgisa Fonseca, havia sido a primeira mulher a laurear-se me medicina no ES, prontamente, organizou um jantar de confraternização em sua homenagem.
XXX Que responsabilidade a minha, amigos e amigas, ocupar esta cadeira. Sylvia Meirelles da Silva Santos chamou atenção em um de seus artigos sobre educação, para a necessidade de que as ações educacionais tivessem por finalidade “o amor à Pátria e à humanidade” e que os ensinamentos fossem “dignificantes” e que elevassem a Moral, burilando o caráter e purificando o espírito. Reafirmo, que desafio dar continuidade a este legado de luta marcado pela generosidade e pela capacidade de acolhimento, valores próprios do feminino.
XXX Maria Helena Teixeira de Siqueira (1927- janeiro de 2010), sucessora da acadêmica Sylvia Meirelles da Silva Santos, e a quem sucedo na cadeira de número 16, nasceu em Porto alegre e se formou em Direito pela UFES. Especializou-se em Direito Empresarial e foi Professora de português e espanhol. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Associação Espírito-Santense de Imprensa, correspondente da Academia Cachoeirense de Letras: cronista, poeta, crítica literária, e primeira mulher a ser eleita para a presidência da Academia Espírito-santense de Letras.
XXX Maria Helena Teixeira de Siqueira, assim como a nossa patrona Sylvia Meirelles da Silva Santos rompeu barreiras seculares ao militar pela justiça social por meio do direito, dignificando uma carreira que nasceu sob a égide da misoginia e dedicando também a sua pena à liberdade, como mostra o Gato Felini, personagem de sua obra. O gato que queria ser rato, inconformado com a prisão de seu amigo pássaro, lhe abre as portas da gaiola. Maria Helena Teixeira de Siqueira no poema Louvado para o amor diz: “Louvo o amor que tudo move,/ move o céu e as estrelas./ [...] Louvo o amor incontido,/ que se arremessa em torrentes./ Louvo o amor escondido,/ que se revela na poesia.
XXX Estou profundamente honrada e agradecida ás Acadêmicas por me concederem este voto de confiança, OBRIGADA! Apresento-me perante cada um dos senhores e senhoras como uma servidora, aceitando a responsabilidade de levar adiante o legado destas mulheres valorosas. Buscarei me inscrever literariamente na intercessão das propostas feitas por Sylvia e por Maria Helena, colocando a minha escrita a serviço da natureza, especialmente dos animais, tão merecedores quanto nós, humanos, de respeito, cuidado e amor.
XXX A História está cheia de assassínios em massa cometidos em nome de uma única verdade, não me arrogo dona de nenhuma verdade, mas acredito que precisamos despertar uma nova consciência. Zigmunt Bauman afirmou que “a voz da responsabilidade é o grito de recém-nascido do indivíduo humano”. Como pudemos observar, a história da civilização se fez e, ainda se faz, a custo de muito sofrimento e sangue, precisamos ler o mundo de forma crítica, como preconizou Paulo Freire, e reescrevê-lo. Portanto, firmo aqui e agora, o compromisso de colocar a minha voz a serviço da Paz e daqueles, cujos gritos de socorro, quase ninguém ouve. A minha pena, em consonância com a minha vida militará pelo Abolicionismo Animal, pois acredito que a libertação destes seres pressupõe a libertação de todos nós, criaturas viventes, dependentes dos recursos da Terra e irmãos planetários.
XXX O Especismo nefasto que considera todo o animal “não-humano” como propriedade, coisa, arrogando-se o direito de torturá-lo, de privá-lo de seu habitat e do convívio com seus familiares e grupo, de usar a sua pele, de comer a sua carne, está causando, além de sofrimento e dor, uma degradação ambiental sem precedentes na história. Concordo com Victor Hugo quando diz que: “A proteção dos animais faz parte da moral e da cultura dos povos” e acredito que pecamos quando agimos eticamente somente em relação aos seres humanos. Finalizo meu discurso para passar aos agradecimentos, com as palavras do Nobel da Paz (1952) Albert Schwweitzer: “Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante.".
XXX Agradeço, primeiramente, ao Cristo Cósmico, meu guia e inspirador, energia de Paz e amor, fonte de luz que me mantém viva, e que, a cada dia, me alimenta de fé e esperança e me levanta quando estou prestes a desistir... Obrigada Jesus...!
XXX Agradeço aos meus mestres, a quem tive e tenho a honra de chamar de amigos: Freda Cavalcanti Jardim, que me ensinou o fazer mosaico, que me ajudou a entender que os cacos podem virar arte, basta que queiramos; Maria Lúcia Dal Farra: Poetisa, amiga, gatófila, grande incentivadora; Luis Eustáquio Soares: meu “guru”, poeta inquieto que contagia com a sua paixão pela poesia e pela vida e Ester Abreu Vieira de Oliveira: Poeta, professora, apoiadora, mulher que consegue conjugar força e doçura. OBRIGADA!
XXX Agradeço aos meus amigos, irmãos que escolhi, o apoio e a companhia em todos os momentos da minha vida. OBRIGADA!
XXX Agradeço aos meus gatos por despertarem dentro de mim a consciência ambiental, por me mostrarem que Deus está em cada criatura que respira. OBRIGADA pela amizade, pela companhia radiante e radiosa, pela devoção, pelo encantamento e por me fazerem sorrir mesmo em momento de tristeza e dor.
XXX Finalizo agradecendo ao meu amor, que é também meu marido e meu amigo: Luiz Alberto Carvalho Bittencourt. Obrigada por me apoiar, por acreditar em mim, por ser sincero e delicado. Obrigada por não fumar, por não beber e por ser vegetariano. Obrigada por ter sido o meu primeiro leitor e por sua crítica ao meu primeiro livro que dizia: “Renata, o seu livro vai mudar os rumos da literatura capixaba e brasileira”. Luiz, OBRIGADA por existir na minha vida!  OBRIDADA a todos. OBRIGADA!

28/03/2017

[Texto crítico] Literatura para todos (Leyla Perrone-Moisés)

O artigo veicula reflexões sobre a atual crise da Literatura como disciplina escolar e universitária, tendo como um de seus principais eixos a leitura crítica de documentos do MEC, que versam sobre tal assunto.  (acesse o texto)

Leyla Perrone-Moisés nasceu em São Paulo. 
É professora titular de literatura francesa 
na Universidade de São Paulo (USP).

A autora lançou recentemente a obra
Mutações da literatura no século XXI.



16/03/2017

[Revista Todas as Musas] Colóquio das Árvores: a natureza pulsante de Renata Bomfim (Lina Arao)


O texto “Colóquio das Árvores: a natureza pulsante de Renata Bomfim”, foi escrito por Lina Arao, Pós-Doutoranda em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Essa resenha crítica sobre o meu livro mais recente foi publicada na conceituada revista Todas as Musas, ano 8, volume 2, dedicada à literatura de autores de Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

"No esclarecedor prefácio ao livro escrito pela professora Ana Luísa Vilela, destacase, acerca do instigador poema “Identidade X”, a “autenticidade feminina”, plural e contraditória, sendo, por isso, não-rotulável e flexível. Tais características são adequadas também para outros poemas de Bomfim, sobretudo aqueles que se relacionam com a construção de uma identidade poética feminina. 

É notável, nesse contexto, o duplo movimento empreendido pela escritora, que, por um lado, aproxima-se de uma espécie de “tradição” ou “herança” literária de autoria feminina, ensejando a recuperação de algumas imagens recorrentes, como a identificação do sujeito poético feminino com a imagem do pássaro; por outro lado, essa associação, nos poemas de Bomfim, transforma-se para alcançar o empoderamento, a autoafirmação de uma subjetividade feminina. 

Se muitas poetisas oitocentistas valeram-se da figura da ave para de alguma maneira simbolizar os ímpetos de liberdade ao mesmo tempo em que enfatizavam a condição de vulnerabilidade feminina característica do período, em “O canto da harpia”, por exemplo, Bonfim relata a transformação do eu lírico em harpia, de “indecentes e fortes plumas” e de “imensas asas”, cujo voo abarcador não revela fragilidade, mas a crença em sua capacidade de transpor limites e abarcar o “universo selvagemente novo”.  



10/03/2017

[Palestra] Divas da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras (Renata Bomfim)



A palestra abordou sobre o Sagrado feminino, desde o ponto de vista
 da teoria do matriarcado e da roda das deusas, exemplificando as representações
arquetípicas nos escritos de escritoras da AFESl.

Entre as escritoras homenageadas estava Dona Felicidade Albertina Méia,
autora capixaba de romances como "Banco de Jardim". 

Amigas(os), fiquei muito emocionada ao apresentar a palestra "Divas da AFESL", a cada momento vinha a mente a lembrança de confreiras queridas que nos deixaram como as queridas Thelma Maria Azevedo e Beatriz Abaurre, mas, segurei as lágrimas e toquei adiante. Vou guardar com carinho esse 8 de março! 

Falar sobre a divindade inerente ao feminino, literatura produzida por mulheres no ES, empoderamento da mulher e especialmente sobre a produção dessas mulheres maravilhosas da AFESL é algo que me dá muita satisfação! Parabenizo a querida Ester Abreu, Madu, Jô Drummond, Valentina Krupnova pela organização, pelas músicas e recital poético e pelas flores. Toda a apresentação musical foi um show coroado com música clássica, popular e com a nossa Maria Marino Schineider cantando sucessos em francês. 

Agradeço o carinho do público, com presenças ulustres como a do prof. Francisco Aurélio Ribeiro, um dos maiores estudiosos da literatura prodizida por mulheres no ES. Agradeço muito aos presentes e a equipe da Justiça Federal pela acolhida carinhosa, por disponibilizar o espaço e providenciar o suporte (data show) para a palestra. 
beijos no coração,
Renata Bomfim

05/03/2017

O esoterismo poético em Arcano Dezenove de Renata Bomfim (Fábio Mário da Silva)

Esse artigo, escrito pelo prof.º Dr.º Fábio Mário da Silva, foi publicado na obra O IMAGINÁRIO ESOTÉRICO LITERATURA CINEMA BANDA DESENHADA, organizada  por Cristina Álvares, Ana Lúcia Curado,  Sérgio Guimarães de Sousa e  Isabel Cristina Mateus, do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho, em Portugal. Editora Húmus, 2016. Acesse a revista

Capa do livro Arcano Dezenove 
de autoria do fotógrafo Jove Fagundes.


RENATA BOMFIM, que nasceu em Vitória, no Espírito Santo, em 1972, além de escritora, arte-terapeuta, educadora socio ambiental e profes­sora doutorada em Letras, começou a carreira como artista plástica dedicando-se à pesquisa da joalharia no âmbito da técnica do mosaico. No cenário brasileiro é autora de três livros de poemas – Mina (2010), Arcano Dezenove (2011) e Colóquio das árvores (no prelo) –, possui poemas seus integrados em antologias, ensaios e artigos publicados no Brasil e no exterior, e é autora do blog literário Letra e fel (www.letraefel.com). Estamos diante, então, de uma personalidade multifacetada que em 2010 estreou no cenário poético espírito-santense e brasileiro. Dentre as suas produções destacamos a que nos chamou logo a atenção, o seu segundo livro de poemas, Arcano Dezenove, no qual encontramos uma poesia ligada à ecologia, mas diante de uma tópica de misticismo e de esoterismo.

Em Arcano Dezenove, como já referimos no posfácio de nossa lavra, há um percurso estratégico situado em diálogos com outros autores (como, por exemplo, Florbela Espanca, Rubén Darío, e Maria Lúcia Dal Farra), através de um discurso focado na alteridade, proposta importante atualmente nos estudos literários –, a poetisa mostra os seus espelhos poéticos sem, no entanto, perder a sua originalidade (Silva, 2010: 84). Por seu turno, Maria Lúcia Dal Farra argutamente explicita, através de uma análise acurada em relação a esta e a outras cartas (o Arcano 16 e Arcano 17), bem como do Tarot em geral, citando autores como o ex-abade Constant, Baudelaire, Nerval, e André Breton, que os segredos e mistérios deste arcano (e dos outros), percorre a dinâmica seguidamente explicitada, desde a apresentação da capa até desembocar nos poemas e na própria figura da poetisa Renata Bomfim:

A Lâmina que a capa compõe é toda luz e sombra, magia branca e negra, incerteza melíflua (…). A Lâmina explicita, portanto, essa caçadora celeste, essa divindade lunar (Artemisa, Diana, Hécate) – imagem que se aglutinará durante a leitura do livro, graças mesmo a esse simbolismo de trânsito, de passagem, de viagem heróica que o Arcano 18 encerra. Do plano iniciático da via úmida lunar nascerá a Feiticeira, a Maga e a Poetisa que, viajando em corpo etéreo (o «corpo cósmico» tão referido no volume) da Noite para o Dia, da Luz Noturna para a Luz Solar que o Arcano 19 encerra, buscará despertar, com suas palavras, aquilo que dorme. Aliando-se ao Sol, ao Fogo Criador e à Pedra Filosofal próprias do Arcano 19, a Poetisa procurará representar o Centro da Consciência capaz de abranger e dar voz ao Universo. (Dal Farra, 2011: [s.p.])

Arcano Dezenove é dividido em cinco sessões (sob os títulos de «Arcano Dezenove», «Memória», «Quinta essência», «Transição» e «Rituais») nas quais a proposta de Renata Bomfim muito se alia a apro­fundar a origem do cosmo, do ser humano, da essência dos elementos e da inspiração poética, daquilo que é inominável. Assim, o sujeito poético nesta obra se assume como o próprio segredo, como o mestre que transmite aos seus discípulos uma experiência espiritual através de símbolos para que seja possível a sua compreensão: «A minha pena guarda segredos./ Ela tem um quê de mistério e maldade» (2010: 32). Por isso, nos deparamos com uma poética arraigada a uma tradição esotérica, seguindo uma filiação que contempla o diálogo entre o mestre
e o discípulo que dialogam e procuram transmitir um conjunto de ideias através de uma tomada de consciência de princípios imanentes à ordem do universo, transmitidos através de rituais e símbolos que permeiam a grande maioria desses poemas. Não é por acaso que o poema que abre a obra se intitula «Poeta Adâmico», metáfora construída através da tríade lógica: paraíso (linguagem), Adão (Poeta) e Letra (Eva), numa combinação harmoniosa, criando um mundo sem pecado nem condenação, gerando o diálogo entre outros «poemas-sementes». Como elucida este poema de abertura, este livro procura compreender (e não desvendar, já que o mistério deve permanecer) a comunhão cosmo-natureza, abordando também questões em torno do desejo, da multiplicação dos sentidos e de sensações que demarcam o prazer e as angústias, associado a um êxtase com os elementos da natureza: «A ninfa ascende entre agonias,/ a selva orquestra gemidos de prazer» (Idem, 18). Para Renata Bomfim, da natureza não emergem apenas as relações de desejo e espiritualidade, mas também o ato poético e, consequentemente, o poeta, que representam também essa força cósmica da natureza:

O poeta julga-se superior e,
no momento da criação,
sente-se plutão,
atingido por meteoritos. (…)

É um mago condenado.
É tantos e todos que é ninguém.
Bruma solitária que vaga
Entre pepitas de ouro e cadáveres. (Idem, 19)


O poeta se sente como próprio elemento da natureza, só assim se pode tornar parte do universo místico. Esta é uma poesia que tenta revelar os sentidos da vida e da morte, através de um conjunto de inter­pretações quase que doutrinárias para os seus leitores, que buscam afirmar algumas «supostas verdades»; as leis que regem todo o universo, seja ele o material ou o ficcional (a poesia), e que é bem mais inteligí­vel, consistente e compreensível se for visto através dos elementos da natureza. Neste caso, em Arcano Dezenove está evidentemente explícito que nós somos meros coadjuvantes deste cenário primevo e infinito, e nossa pátria deve ser muito maior que uma identificação nacional: «Eu canto a Pátria-planeta,/ antes que o pensamento,/ Divagando entre futilidades,/ se perca» (Idem, 22). Há um desejo implícito do sujeito poético em se fundir aos elementos da natureza, num processo não apenas de metamorfose, mas de parentesco, de identificação, numa procura de descobrir novas sensações:

As ondas me constituem
Parentesco que me abisma
E me pego, assim, mareada,
Ansiando tons de cinza e azul
Enquanto, silenciosamente,
Quebro na praia. (Idem, 25)


Tornar-se elemento da natureza ou do cosmo, feito na sua totalidade de microcosmos e macrocosmos, se sentir astro, aí reside o «mistério maldoso» de que fala o eu lírico. A maldade em transpor as barreiras das verdades absolutas, deixar de ser senso comum para adentrar-se no mistério da criação, da cosmologia que apenas deve ser experienciada e sentida, nem tanto compreendida:

Inunda a minh’alma um sol de sétima grandeza
e te desejo toda, inteira,
Terra amada, Santa, Natureza!
Despi-me toda para recebê-la,
Veste-me de lírios
lilases e caprichosas.
Respiro profundamente
Te sinto mistério maior:
Quasares, buracos negros, estrelas
tudo, tudo, tudo me leva a ti (Idem, 35)

Nesta fusão do corpo-sujeito com o corpo-natureza é criada uma atmosfera ritualística de entrega e de posse corporal, que se dá como oferenda sacral e se regozija nos «mistérios» quase ancestrais deste  contato; elementos da natureza esses que para Renata Bomfim têm uma estreita relação com o feminino: «Orgânica/ A mulher era verde/ E sem veneno» (Idem, 47); ou seja, estamos diante daquilo que Pierre Riffard (1996: 56) denominou como «esoterismo primitivo», associado a um culto da terra-mãe. Os rituais e pactos também se arvoram por questões filosóficas ligadas às bruxas e sua relação na busca por um equilíbrio pacífico e harmonioso com a Mãe-Terra, a Grande-Deusa – contrariando a ideia de obscuridade e maldade associados às mulheres feiticeiras –, como base prática de existência de retorno à essência dos seres, da purificação e encorajamento a atos benéficos, como aqui expresso em «Desejos de feiticeiras»:
  
Eu quero tocar os espíritos alheios
com encantos luminosos.
Acordar dormentes e sonâmbulos,
com fluidos escândalo-viscosos,
colhidos nas veias dos cristais e das ervas.
Lançar bênçãos,
Distribuir afagos e,
justificando a minha natureza,
distribuir, também,
olhares de secar pimenteiras (Idem, 71)

A única maldição lançada por esta poética é contra aqueles que desprezam a natureza, ato de violência imperdoável: «Se brigar com esses seres,/ Será amaldiçoado e perseguido./ Não adiantarão algas, nem filtros» (Idem,72). Esta poesia ensina então a fazer mandigas, filtros mágicos de conquista amorosa (mais eficazes que promessas aos santos), como, por exemplo, no poema «Banho de limpeza», no qual se recita uma limpeza espiritual que abre caminhos. Já em «Patuás» e em «Cerimônia do chá» ficamos a saber que muitos ritos só podem ser concretizados através de cerimoniais envolvendo as fases e místicas da lua, do número sete aliado à harmonia dos elementos da natureza, aquela «que guarda em si/ elementos combinados» (Idem, 81). É uma poética na qual, mesmo nas referências a figuras cristãs, encontramos um discurso voltado, mais uma vez, para um certo  eco-existencialismo, que relaciona natureza e religiosidade, [2] como, por exemplo, em «Nossa Senhora dos raios multicoloridos»:

Te sonho infinitamente,
Te busquei no mais alto das montanhas
cujos picos eram branco-azulados
E lembravam aqueles que partiram sem se despedir.
Clamei por teu nome, doce e secreto,
Do abissal de minhas entranhas e,
Nos meus pensamentos, armadilhados intangíveis,(…)

Como posso tocar o teu manto de luzes
Multicoloridas e vislumbrar a tua rara santidade?
Mil sóis estão explodindo, estrelas colidem ruidosas,
O caos se instaura dentro de mim.
Vem plena de amor, iluminada.
Eu não resistirei e serei a flor
Colhida e fresca, perfumosa,
à mercê de tua sábia providência. (Idem, 27)

A luz, neste caso os raios coloridos da Nossa Senhora, pode rees­tabelecer o caos instaurado intimamente no eu lírico. Esta dinâmica é muito parecida com a explicitada por Luc Benaist (1969: 27) que refere que a criação do mundo se apresenta como um ajuste do «caos» ou, mais precisamente, como «a consequência duma ‘ordem’ divina, que a Bíblia apresenta como um Fiat Lux, porque a luz sempre acompa­nhou as teofanias e que a ordem identifica-se com a luz». Por isso, o sujeito poético deste poema procura um equilíbrio através dos raios luminosos, deixando de ser caos, para se constituir como experiência espiritual e divina, acedida através da ordem que é luminosidade. Aliás, num outro poema, «Saturnais: mito de origem», Renata Bomfim traz à discussão a questão do surgimento da ordem através da luz, do sol, que só é possível graças a uma intervenção feminina:

Antes era Nada.
E de dentro do Tudo nasceu o Sol.
A grande roda brilhante se alimentava
nas generosas tetas cósmicas
das mulheres galáxias,
que eram, também
filhas do Tudo e netas do Nada.


Gotas de leite estelar caíram,
pingaram abundantes e deram forma a inúmeras raças:
os Syrios, os Krianos
e também, a humana,
de complexidade rara.

Para louvar o grande Nada
e agradar ao Sol,
organizavam festas que duravam
sete luas.
Ocasião em que essa raça,
que ainda não conhecia a sabedoria,
não roubava, nem matava, mas
cantava celebrando a vida e
fazia amor na alvorada.

Um banquete público era o que,
ao contrário, amor traduzia,
ato que refletia o lampejo da origem.
E, durante a festa, essa rude criatura
 revelava o que, da sua face, a rotina ocultava.
De tanto arranhar a Terra e violar os Rios
 ofendendo o grande Nada,
Tudo veio ensinar-lhes a compaixão e,
resgatando-os da ignorância,
ensinou coisas de partículas brilhantes.
Essa raça de pés sujos vive olhando para o céu,
esperando voltar ao seio da mãe primordial. (2010: 44)

Este poema está impregnado da ideia de «sagrado celestial», que é um tipo de experiência religiosa muito antiga baseada na ideia de que «a transcendência revela-se pela simples tomada de consciência da altura infinita» (Eliade, 1975: 128), visto que esse «muito alto», o sol celeste na poesia, é algo superior, atributo de uma divindade:

O ‘muito alto’ é uma dimensão inacessível ao homem como tal; ela pertence de direito às forças e aos Seres sobre-humanos. Aquele que se eleva subindo a escadaria de um santuário ou a uma escada que conduz ao céu, cessa então de ser homem: de uma maneira ou de outra participa da condição divina. (Idem,129)

 Renata Bomfim assim relata o Nada (o infinito cósmico) que é elevado, eterno, forte e procriador («E dentro de tudo nasceu o Sol»). O Deus-Celeste neste poema é o Nada, que deu sentido a um todo-tudo surgido in illo tempore. Na fala inicial do sujeito poético, neste tempo remoto, também encontramos referência à sacralidade na sexualidade, ao nascimento que as «tetas cósmicas» das «mulheres galáxias» pro­porcionaram, ou mais precisamente, ao mistério do parto descoberto pelas mulheres que são criadoras no plano da vida, experiência essa feminina por excelência.
Em suma, Arcano Dezenove traz à tona vários debates e temáticas ligados à experiência com a sacralidade criadora da Natureza, envolta em misticismo e religiosidade, que desembocam também em passagens fortemente marcadas por um tom esotérico. Por isso mesmo Maria Lúcia Dal Farra (2011: [s.p.]) diz que Renata Bomfim é uma «Feiticeira» e que «essa mulher é também telúrica e vegetal», visto o eu lírico compor-se como ser-planta num tom de equilíbrio dum ecossistema harmonioso: «A minha errância é como a água turva/ De um rio caudoloso:/ Não permite que lhe encontre a fonte/ Ou que lhe desnude os mistérios do fundo» (2010: 62). Por fim, acreditamos que o esoterismo de Arcano Dezenove está intimamente ligado ao que Jean-Paul Corsetti descreveu como uma dinâmica deste conceito:
  
En discernant la magie des métamorphoses sous l’apparent désordre, l´esotérisme révèle à l´homme de désir qu’ en transformant son regard sur le monde et sa connaissance de la nature, il ne cesse de récréer lúnivers qui l-entoure, réveillant alors la vie qui sommeille sous les pierres. (Corsetti,1992: 328)
Referências:
 Benaist, Luc (1969), O esoterismo, trad. Fernando G. Galvão, São Paulo, Difusão Européia do Livro.
Corsetti, Jean-Paul (1992), Historie de l’ésotérisme et des sciences occultes, Paris, Larousse.
Dalfarra, Maria Lúcia (2011), Uma leitura poética do Tarot, por Renata Bomfim, [em linha] diponível em http://www.letraefel.com/2011/09/uma-leitura-poetica-do­-tarot-por-renata.html [consultado em 18/02/2015].
Eliade, Mircea (1975), O Sagrado e o Profano. A essência das religiões, trad. Rogério Fernandes, Lisboa, Edições Livros do Brasil.
Riffard, Pierre A. (1996), O esotermismo, trad. Yara Azevedo Mauro e Elisabete Abreu, São Paulo, Mandarim.
Silva, Fabio Mario da (2010), «O que nos resta, após a leitura de Arcano Dezenove?», in Renata Bomfim, Arcano Dezenove (2010), Vitória, Helvética Produções Gráficas e Editora, pp. 83-85.


**Poema «Nossa Senhora dos raios multicoloridos», contido em Arcano Dezenove (Vitória: Helvética Produções Gráficas e Editora, 2010, p. 27). Todas as citações feitas neste trabalho dizem respeito a esta edição, pelo que daqui por diante será referido apenas o número de página, a fim de evitar a repetição constante da informação bibliográfica.

**Mircea Eliade em O Sagrado e o Profano explica bem esta dinâmica da seguinte forma: «Para o homem religioso, a Natureza nunca é exclusivamente ‘natural’: está sempre carre­gada de um valor religioso. Isto compreende-se facilmente porque o Cosmo é uma criação divina: saindo das mãos dos Deuses, o Mundo fica impregnado de sacralidade» (1975: 127).


02/03/2017

Poemas de José Régio traduzidos para o castelhano por Pedro Sevylla de Juana


ntico negro

Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: vem por aqui!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



ntico Negro

Ven por aquí” — me dicen algunos con los ojos tiernos
tendiéndome los brazos, y seguros
de que sería bueno que yo los escuchara.
Cuando me dicen: ven por aquí!”
yo los miro con ojos lánguidos,
(Hay, en mis ojos, ironias y cansancios)
Y cruzo los brazos,
nunca voy por allí…
Mi gloria es esta:
Crear barbaridades!
No acompañar a nadie.
Que yo vivo con el mismo desánimo
con que rasgué el vientre a mi madre
no, no voy por ahí! Sólo voy por donde
me llevan mis propios pasos
Si a lo que quiero saber ninguno de vosotros responde
Por qué me repetís: “ven por aquí!”?
Yo prefiero resbalar en los callejones embarrados,
arremolinar vientos,
como andrajos, arrastrar los pies ensangrentados,
a ir por ahí…
Si vine al mundo, fue
solo para desflorar selvas vírgenes,
y dibujar mis pies en la arena inexplorada!
la mayor parte de lo que hago es inútil.
Cómo, pues, vais a ser vosotros
quienes me deis impulsos, herramientas y coraje
para derribar mis obstáculos?
Corre, por vuestras venas , vieja sangre de los abuelos,
Amáis lo sencillo!
Me gusta lo Distante y el Espejismo
aprecio los abismos, los torrentes , los desiertos
Id! Tienes carreteras,
tienes jardines, tienes parterres,
tienes patria, tienes techos,
y tienes normas, y tratados, y filósofos, y sabios
Yo tengo mi locura!
La alzo como una antorcha ardiendo en la noche oscura
y siento espuma, y sangre, y cánticos en los labios
Dios y el Diablo conducen, nadie más!
Todos tuvieron padre, todos tuvieron madre;
mas yo, que nunca comienzo ni acabo,
nací del amor existente entre Dios y el Diablo.
Ah, que nadie me entregue intenciones piadosas,
nadie me pida definiciones!
nadie me diga: ven por aquí”!
Mi vida es un vendaval que se desató,
y una ola que se elevó,
y un átomo más que se estimuló…
No sé por donde voy,
no sé hacia donde voy
sé que no voy por allí!


Baile de máscaras

Contínua tentativa fracassando,
Minha vida é uma série de atitudes.
Minhas rugas mais fundas que taludes,
Quantas máscaras, já, vos fui colando?

Mas sempre, atrás de Mim, me vou buscando
Meus verdadeiros vícios e virtudes.
(– E é a ver se te encontras, ou te iludes,
Que bailas nesse entrudo miserando…)

Encontrar-me? iludir-me? ai que não o sei!
Sei mas é ter o rosto ensanguentado
O rol de quantas máscaras usei…

Mais me procuro, pois, mais vou errado.
E aos pés de Mim, um dia, eu cairei,
Como um vestido impuro e remendado!


Baile de máscaras

Contínua tentativa fracasando,
Mi vida es una serie de actitudes.
Mis arrugas más profundas qué taludes,
Cuántas máscaras, ya, os fui colando?
Pero siempre, detrás de Mí, me voy buscando
Mis verdaderos vicios y virtudes.
(-Y para ver si te encuentras, o te encubres,
bailas en ese carnaval infausto…)
¿Encontrarme? ¿engañarme? ay que no lo sé!
Sé pero es tener el rostro ensangrentado
La relación de máscaras que usé …
Me busco más, pues, voy más equivocado.
y a los pies de Mí, un día, yo caeré,
como un vestido impuro y remendado! 


Soneto de amor

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem almaAbre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua…, unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois… — abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!


Soneto de amor

No me pidas palabras ni Salmos,
ni expresiones, ni alma… Ábreme el seno,
Deja caer los párpados pesados,
y entre los pechos apriétame sin recelo.

En tu boca debajo de la mia, en el medio,
Nuestras lenguas buscan, desvariadas
Y que mis flancos desnudos vibren en el fuego
de tus piernas ágiles, delgadas.

Y en dos bocas una lengua …,. unidos,
vamos a intercambiar besos y gemidos,
Sintiendo nuestra sangre mezclarse.

Después … – abre los ojos, mi amada!
entiérralos bien en los míos; no digas nada
deje la vida expresarse sin disfraces!


Testamento do Poeta

Todo esse vosso esforço é vão, amigos:
Não sou dos que se aceita… a não ser mortos.
Demais, já desisti de quaisquer portos;
Não peço a vossa esmola de mendigos.

O mesmo vos direi, sonhos antigos
De amor! olhos nos meus outrora absortos!
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos,
Que fostes o melhor dos meus pascigos!

E o mesmo digo a tudo e a todos, hoje
Que tudo e todos vejo reduzidos,
E ao meu próprio Deus nego, e o ar me foge.

Para reaver, porém, todo o Universo,
E amar! e crer! e achar meus mil sentidos!….
Basta-me o gesto de contar um verso.


Testamento del poeta

Todo vuestro esfuerzo es vano, amigos:
no soy de los que se conformancon no estar muertos.
además, ya renuncié a cualquier puerto;
no pido vuestro óbolo de mendigos.

Lo mismo os diré, sueños antiguos
de amor! ojos en los míos, una vez absortos!
cuerpos ya hoy torcidos, viejos, gordos,
que fuiste el mejor de mis ejidos!

Y lo mismo digo a todo y a todos, ahora
que todo y todos veo reducidos,
a mi propio Dios niego, y el aire me abandona.

Para recuperar, sin embargo, todo el Universo,
y amar! y creer! y hallar mis mil sentidos! ….
me basta el gesto de contar un verso.



Obsessão
Poema de José Régio, à morte da su filhinha única

Sobre umas pobres rosas desfolhadas,
Vestidinha de branco, imóvel, fria,
Ela estava ali pronta para o fim.
Eu pensava: De tudo, eis o que resta!
E entre as pálpebrazinhas mal fechadas,
(Como um raio de sol por uma fresta)
O seu olhar inda me via,
E despedia-se de mim.

Despedir-se, porquê?, se nunca mais,
Sobre essas pobres rosas desfolhadas,
A deixei eu de ver…, imóvel, fria.
Pois eu, acaso vivo onde apareço?
Lutas, ódios, amores, sonhos de glória, ideais,
Tudo me esqueceu já! Só não esqueço,
Entre as pálpebrazinhas mal fechadas,
Aquele olhar que inda me via.


Obsesión
Poema de José Régio, a la muerte de su hijita única

Sobre unas pobres rosas deshojadas
vestidita de blanco, inmóvil, fría,
ella estaba allí dispuesta para el fin.
Yo pensaba: “¡De todo lo existente, he aquí lo que queda!
y entre los parpaditos mal cerrados,
(como un rayo de sol por una rendija)
su mirada aún me veía,
y se despedía de mí.

Despedirse, ¿por qué?, si nunca más,
la dejé de ver, inmóvil, fría,
pues yo, ¿acaso vivo donde aparezco?
Luchas, odios, amores, sueños de gloria, ideales,
¡todo, todo, todo, me olvidó ya! Solamente no olvido,
entre los parpaditos mal cerrados

aquella mirada que aún me veía.



***Traduzco a José Régio, a quien considero uno de los más completos creadores de la moderna literatura portuguesa. En primer lugar, tal creador es un filósofo que se interroga sobre lo que le rodea, sobre su origen y objetivo. Llega así a Dios y a la sociedad, pasto inagotable para su entendimiento. Pensamiento y método lo llevan a crear un cuerpo de certezas del que hace norma de conducta personal. Es, en ese sentido, una persona consecuente. La obra emana de la vida, la vida emana de la obra. Han dicho que su obra rezuma misticismo, creo que revela humanidad, una humanidad social que va y lleva a alguna parte de interés. Su Dios es causa, pero, sobre todo, consecuencia. El teatro del mundo está formado por individuos actores; él lo sabe y lo tiene como premisa de sus silogismos. De ahí su sentido del humor. He traducido algunos de sus poemas donde se muestran estos rasgos. 
Pedro Sevylla de Juana