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12/09/2017

Relíquias (Renata Bomfim)

Ah! minha rudeza,
Sou casca grossa de árvore milenar,
Para além da beleza sei, como ninguém,
arranhar, ferir, fazer sangrar...
Fui banida das aldeias tecnológicas,
Caim nem um pouco arrependido,
Poeta expulso da pólis por
Criar quizumba e recitar palavras
perigosas como amor e liberdade...
Errante, sigo pelos caminhos recolhendo
Os espólios da guerra,
Objetos quebrados entre escombros:
Relíquias da minha solidão.

11/09/2017

Concordia de clases (Poema de Pedro Sevylla de Juana)

                      Dedicado a Amancio Ortega

HIC ET NUNC
Ah, mi España,
paulatina síntesis atroz de este Planeta,
lugar donde al nacer estuve a punto de morir
y hoy, de impotencia y dolor, acaso muera.

PLANTEAMIENTO
Era jueves, catorce,
cuando
tout à coup, de repente
conocimos el rumor
que aseguraba la posible inmortalidad
de los ricos más ricos,
y supimos que alcanzando en euros
los cien millones
de capital uno o diverso,
Dios había decidido
que los ricos más ricos vivieran
por lo siglos de los siglos.

Sentimos, y hay que destacarlo,
la mayor alegría
de nuestra pobre vida de pobres,
contribuyentes natos y netos
al enriquecimiento creciente y bien crecido
de los contrariados,
permanentemente insatisfechos,
ricos.

Alegría sí, mucha, inenarrable
-ancianos, adultos y niños-
pues, al fin,
nuestro esfuerzo íntegro y constante:
un día después de otro, hora tras hora
dedicado a alimentarnos con lo mínimo
y a enriquecerlos al máximo,
cumplió su elevado objetivo.

Quedaba claro,
no éramos tan inútiles
como nos hizo creer su descaro.

NUDO
Hubo multitud de comentarios
y algunas
especulaciones;
incluso se llegó a pensar en la existencia
de letra pequeña en el acuerdo,
-fruto de la intervención del Demonio,
negociación a dos: Cielo e Infierno-
que añadiera requisitos más difíciles
de cumplir,
por ejemplo:
que hubiera un límite hacia arriba,
por ejemplo:
que al llegar a los millones
ciento veinte
en el capital del rico
el derecho a la inmortalidad
se perdiera facto ipso.

Imaginando el apresurado
proceso de enriquecimiento
y el parón consiguiente
-las argucias: esas limosnas repentinas
carentes de continuidad,
y la vuelta al crecimiento ya sin prisas
con moderación-
soltábamos la risa.

Parón y limosnas
que no debían ser excesivos,
ya que se trataba de conseguir
la difícil armonía, el equilibrio;
pues si bajaba la fortuna de los cien
millones limpios
la muerte llevaría a los desafortunados
a su cubil estrecho y frio.

Lamentamos al instante;
tan insólita situación
viendo en ella, los pobres
-acostumbrados a sufrir
un averno de angustia y zarandeo
en nuestra existencia de exiguos-
sintiendo en ella un insufrible tártaro
incrustado en la ansiosa existencia de los ricos.

DESENLACE
Por si acaso; no fuera a ser
cierto
el rumor,
muchos acumuladores, moderando
su extraordinario apetito
adoptaron mi lema:
“Lucha hasta el equilibrio”.



PSdeJ El Escorial 30 de agosto de 2017

10/09/2017

A semente sonha (Renata Bomfim)

A semente sonha imagens 
espetaculares,
o desejo faz com que toque
maciez desconhecida;
é como se estranhas asas a elevassem
para a luz e para cima:
perfume indizível, explosão de cores,
flores: EPIFANIA!

*** Minha fascinação pelas sementes vem de longa data. Sempre me abismou a ideia de uma semente guardar dentro de si milhares de outras árvores, com suas sementes, flores e frutos. Até que passei a não jogá-las mais no lixo, e sempre que como uma fruta tenho um vasilhame onde as deposito até encontrar uma terrinha onde possam ter uma chance de se tornarem o que estão programadas para ser desde sabe Deus quando.É lindo ver o abacateiro dar frutos pela primeira vez, lembro ainda de ter deitado a semente no solo e de vela-la crescer. Hoje os macacos brincam nos seus galhos e de uma maneira muito estranha reconheço que, nesse percurso acidentado,- que é a minha vida -, fiz algo bom. 
Sim, as sementes sonham enquanto dormitam, seus corações pulsam e elas sabem que chegará o momento da brotação. RB.   

09/08/2017

Día bruto (Renata Bomfim)

Ven conmigo,
Un nuevo día brilló.
Llueve, amor.

Día bruto,
diamante.
El sol vigila
(tímido, obtuso),
suma asombro una luz
(azul)
brillar aquí desde el fondo,
de mí,
Mi Yo profundo,
Ese Yo que se desconoce,
Un Yo que es mucho más que eso.
(devenires)

Soledad,
Lágrima peregrina,
Corazón en fuga,
Delirio.
Esa soy yo...
Por eso ven

Acércate delicado y abierto,
Ese día bruto y ceniza.

Ven conmigo.

 Tradução para o castelhano por Pedro Sevylla de Juana

31/07/2017

Dia bruto (Renata Bomfim)

Vem comigo,
Um novo um dia raiou.
Chove, amor.

Dia bruto,
diamante.
O sol espia
(tímido, obtuso),
assiste pasmo uma luz 
(azul)
Raiar aqui do fundo,
de mim,
Eu profundo,
Eu que se desconhece,
Eu que não é apenas isso.
(devires)

Solidão,
Lágrima peregrina,
Coração em fuga,
Delírio.
Essa sou eu...
Por isso vem!

Chega delicado e aberto,
Nesse dia bruto e cinza.

Vem comigo.

25/06/2017

Amor e humor em Vento Sul, de Carmélia Maria de Sousa, a cronista do povo (prof.ª Renata Bomfim)

"Que este texto ajude a dar mais visibilidade a essa grande cronista capixaba que, infelizmente, ainda é pouquíssimo conhecida e estudada no nosso estado" RB.

Carmélia Maria de Sousa

Carmélia Maria de Sousa (1936- 1974), a “cronista do povo”, como ela própria se intitulou em entrevista concedida para O Diário, em 1971, é uma cronista capixaba cuja obra é marcada pelo seu tempo, pois, a escritora surgiu no cenário literário encarnando a voz da contracultura, em 1958, traduzindo as inquietações de sua geração.
A irreverência de uma escrita marcada pela ironia e, ao mesmo tempo, poética e afetiva, fez com que a Carmélia angariasse um público cativo pelo qual tinha grande carinho: “me sinto honrada quando me chamam de “cronista do povo”, para este povo que eu respeito e amo que continuarei a escrever [...]. Já que não o posso carregar nos meus braços, carrego-o no coração” (SOUSA, 2002, p. 133).
Francisco Aurélio Ribeiro destaca que desde a década de 1940, as escritoras capixabas vinham conquistando espaços em variados âmbitos, especialmente após 1946, quando chegou ao fim o regime ditatorial de Vargas, que perseguiu escritoras feministas como Haydée Nicolussi, ¾que tinha o agravante de ser comunista¾, a escritora foi presa em 1935 e posteriormente vigiada pela polícia getulista, sendo, inclusive, impedida de trabalhar com o próprio nome. Com um pouco mais de liberdade, asescritoras capixabas foram se agregando e, em 1949, foi fundada a Academia Feminina Espírito-Santense de Letras (AFESL), entretanto, o passado esquerdista das escritoras Haydée Nicolissi e Lígia Besouchet fez com que ambas fossem excluídas do núcleo inicial da AFESL. Alguns anos depois, Carmélia Maria de Sousa teria a sua candidatura rejeitada na mesma Academia de Letras. Agostinho Lázaro considerou Carmélia Maria de Sousa uma das melhores cronistas do Espírito Santo e Francisco Aurélio Ribeiro declarou que ela foi a responsável por popularizar a crônica escrita por mulheres no Estado. A obra de Carmélia é permeada pela poesia, fala de amor, solidão, esperança e de outros temas que evocam vivencias que nos irmanam independente do tempo. Outro aspecto relevante nos seus escritos é a ironia, direcionada, especialmente, a alta sociedade capixaba, que ela “espinafrava” sem rodeios, e também às pessoas que ousavam falar mal da “Ilha”.
No ensaio intitulado “Muito além do Milk Shake” (2002, p. 183), Reinaldo Santos Neves perguntou: “Quem foi Carmélia Maria de Souza?” hoje, nós fazemos a mesma pergunta.
Chega-nos um retrato de mulher, “com jeito de homem”, com mania de usar sempre calça comprida e de viver sempre acompanhada por homens (2002, p. 184). Afastada de “joias, adereços, maquiagem”, Carmélia tinha como companheira dos últimos anos “a famosa bengala” e, pontual, usava um relógio de pulso para não se atrasar nos compromissos.“Ambição? Nenhuma”, afirma Santos Neves, que logo conclui ser “difícil, talvez impossível definir Carmélia”. Sabemos que o retrato é uma imagem que busca representar alguém, ele não é a pessoa, mas, guarda desta, traços fundamentais, imaginários e, muitas vezes delirantes. Assim compreendemos que tudo o que se falar sobre Carmélia, será um desdobramento dessas imagens, e que esses retratos vão se modificando de acordo com o tempo. Tanto os olhares se modificam com o tempo que, hoje, Carmélia Maria de Sousa é patrona de uma cadeira na AFESL. Compartilho com os senhores(as) a imagem que faço dessa mulher singular ansiando que outros pesquisadores lhe dê os devidos cortes ou retoques. 
         Amylton de Almeida, foi amigo da cronista das redações dos jornais[1] e da “boemia caseira, feita com pureza e humildade”, para ele Carmélia foi a “Miss Stein” da Geração fim de álcool de Vitória e o seu trabalho sempre guardava “o necessário senso de humor para enfrentar as asperezas e a grosseria de uma cidade que às vezes, não entendia [essa geração] a quem nada fora prometido e cuja única opção era utilizar a ironia e o sarcasmo para sobreviver às confusões” (2002, p. 25).
Agora, uma descrição de Carmélia, segundo ela mesma: “grossíssima, péssima companhia noturna, diurna ou vespertina; devemos a Deus e ao mundo,mau-caráter, desgraçada, temperamental, neurótica, falsa, inconstante, cínica e debochada. Favor não ficar sentado em nossa mesa quando não for convidado, não. Nós somos o fim da picada, se você quer saber”.
         Possivelmente, esse jeito carmeliano de ser, que a colocava na contramão do ideário feminino da época, tenha lhe impossibilitado ingressar na AFESL, e possivelmente, também, tenha imprimido à sua escrita, uma marca de solidão. Quixotesca, Joana D’Arc inspiradora de um “exército de bem intencionados”, Carmélia escandalizou a TSC (a Tradicional Família Capixaba) com a sua vida boêmia regada a uísque, vinho, conhaque e pinga, devidamente acompanhados pelo cigarro e por palavras e palavrões (2002, p. 184). Mas, na sua simplicidade, a escritora tinha consciência do que realmente era importante, ela afirma que trazia consigo, desde a infância, um ideal na alma, e valores herdados de seu pai que possuía “mãos honestas” e “olhos limpos”, mãos e olhos que a ensinaram a “amar a liberdade e a repartir a Verdade, o Amor e o Pão” (2002, p. 133). Apesar da incompreensão, Carmélia afirmou o seu compromisso de continuar “misturando palavras”. As vezes, segundo ela, tinha a necessidade de silenciar, mas as vezes sentia o desejo de gritar, especialmente quando o “medo” arranjava um jeito de entrar na sua vida. O grito de Carmélia é produto do assombro da escritora pela falta de amor. Na crônica “E me vieram perguntar” a escritora declara que “o maior problema que existe no Estado do Espírito Santo [...] é a falta de amor”, e que tinha encarado como “filosofia de vida”: “botar o amor acima de qualquer outra coisa que exista” (2002, p. 132). Há ainda nos seus escritos, a expressão de uma a saudade, ora indefinida, ora descrita como nostalgia do não vivido, esse sentimento possui raízes nas decepções que marcaram a vida da escritora desde a infância, vivências como a perda da mãe aos dois anos de idade, a doença que a obrigou a deixar o convívio familiar, de forma que Carmélia afirme ser impossível visitar a casa onde nasceu. Há uma crônica sem titulo na qual a escritora fala sobre a experiência da internação em uma clínica em Barbacena, Minas Gerias, quando tinha dezesseis anos: “Me mataram numa tarde [...], num quarto de hospital”:

A febre queimava meu rosto, minhas mãos, minhas esperanças destroçadas. O meu pulmão e a minha alma mutilados. Os pedaços de minha juventude e do meu coração. A minha vida partida pela metade [...]. E eu morria todas as manhãs, sem nunca ter vestido um vestido cor de rosa (SOUSA, 2002, p. 102-103).

A partir desse texto, podemos vislumbrar que esse episódio significou uma ruptura na vida de Carmélia, privando-a de um afeto essencial: “E amei errado, sem medir a quantidade” (SOUSA, 2002, p. 103).
Será a partir da segunda parte de Vento Sul que a tópica amorosa se fará mais presente na obra de Carmélia. A desmedida, ¾hybris¾, se reproduziu em outras instâncias da vida da escritora, inclusive com relação à bebida que lhe legou uma cirrose fatal.
Carmélia é conhecida como “a rainha da fossa”, ou seja, alguém que conhece de perto o sofrimento: “Não me envergonho de confessar que a vida me tem maltratado, e que vou aprendendo a sofrer quando é preciso” (SOUSA, 2002, p. 34). Mas as fossas “financeira”, “íntima”,  “jornalística”, entre outras, não abalaram o seu amor pela vida e, especialmente, o seu humor, como observamos na crônica “É tempo de otimismo, acho eu”: “Descobri que sou bárbara, dona de um estilo verdadeiramente universal, preciso urgentemente me mandar para Guanabara, pois Vitória já não está a altura de receber a minha genialidade, nem por aqui existiriam horizontes dignos e devidamente alargados onde eu pudesse caber. A mim me cabe, portanto, dar uma banana para vocês e me mandar de mala e cuia para o Rio de Janeiro” (SOUSA, 2002, p. 55).
Como observamos, Carmélia brinca com o seu leitor, mas, por traz dessa singela brincadeira, códigos que apenas os capixabas entenderão.
No decorrer da leitura da obra de Carmélia, observamos que a escritora empreende uma busca pelo sentido na vida “entre pedaços de noite e de saudade, fumando cigarros e ouvindo Bach em surdina”, nessa “vigília”, ela afirma esconder-se dos outros e fugir de si: “crucificada sobre todas as saudades” (2002, p. 66).  Observamos, também, o tom confessional com que a escritora afirma a sua incapacidade de escrever Vento Sul: “Não adianta insistir para eu escrever o meu livro, porque jamais conseguirei escrever livro algum” (SOUSA, 2002, p. 64). É com um sinal de menos, Carmélia vai se construindo ficcionalmente frente ao leitor, acabando por se tornar uma espécie de anti-heroína:

Há muito desisti de tudo, há muito que não sou capaz de acreditar em coisa nenhuma. Tenho até pensado em apelar, ir procurar uma cartomante bem doida, que faça o milagre de me devolver a fé nos outros e em mim (SOUSA, 2002, p. 65).

Em meio a uma “crise existencial-política-espinafrativa-avulsa” que a deixou “atacadíssima”, Carmélia colocará para tocar na “eletrola” a música “Guantanamera” e, nesse momento, compreenderá que o que realmente deseja é conversar com alguém pelo telefone, assim poderia “pedir socorro”, falaria então “o diabo, xingaria os homens, amaldiçoaria o Flamengo e a humanidade”, mas, ao final da crônica reconhece ser impossível o intento, pois: “não tenho telefone” (2002, p. 106). “Sob a longa noite” da sua vida, acompanhada da saudade do primeiro amor e dos amigos a quem confiou “a sua dor de cotovelo” e a “fossa de amor”, Carmélia caminha convicta de que é impossível esquecer “o tempo e o riso”.
         Retomamos a questão da hybris amorosa carmeliana, que parte do ímpeto do eu lírico de amar sem medidas e sem restrições. A parte segunda de Vento Sul apresenta uma série de poemas em prosa que mostram a potencia desse sentimento que, para a escritora dá significado à vida:

Amo você. Seu sorriso. Seu pranto. Sua ternura. Amo você. Seu passado. Seu presente. Seu sucesso. Seu fracasso. Amo você. Suas tardes. Suas noites. Suas manhãs de sol. Seus domingos sem sino batendo. Amo seus filhos, que não foram nascidos de mim. Amo o bar que você não frequenta. Amo o nome que você não aprendeu a chamar. Amo suas crises de solidão, suas lembranças, suas fugas. [...] Amo suas mãos, seu nariz, sua cor, seus cabelos. Amo tudo que você deixou de dizer e que por isso mesmo escutei. Amo o mundo que é feito de você. (SOUSA, 2002, p. 103).

O derramamento amoroso observado nesse poema poderá ser visto em outros textos, assim como o se “despedaçar de amor”, que fará com que emerja o Outro na escrita: Carmélia convidará “Félia” para que “seja testemunha desse amor” (SOUSA, 2002, p. 86).
Após um percurso de sofrimento e de dor, com relatos permeados pela ironia e pelo humor, nos deparamos com uma Carmélia bastante vulnerável, mas será a partir dessa falta fundamental e da abertura para o Outro que residirá a potência da sua escrita, pois, segundo a escritora, ela  é “o amor que não teve” (SOUSA, 2002, p. 102).
         Carmélia ama seus amigos, considera-os irmãos por escolha. Além dos amigos Carmélia elegerá outro objeto de amor: a cidade de Vitória. Delícia para Carmélia são os lugares onde nascem, vivem e morrem os amores que as pessoas possuem, assim, podemos compreender melhor o porquê da frase: “Essa Ilha é uma delícia”. O escritor e dramaturgo Milson Henriques, destacou em uma reportagem que uma boa dose de ironia fez nascer a famosa declaração, mas, que Vitória, para Carmélia, é um lugar único, destacado de todos os outros do mundo, inclusive Paris, centro de tudo o que é chique no mundo. A cidade de Vitória é elevada ao patamar de personagem nos escritos carmelianos. Na crônica intitulada “O deletério do povo Capixaba”, Carmélia “espinafra” as pessoas que falam mal da cidade por não compreenderem as suas peculiaridades. Essa Ilha (“ô Ilha”) será defendida por Carmélia em variados textos:

 O diabo é que vocês não aprendem a enxergar a coisa como ela é. E estão sempre prontos a me chamar de doida todas as vezes em que eu escrevo que a rua Duque de Caxias é linda, bárbara, importantíssima, [...] é uma rua com alma é coração, capaz de comover a gente por causa de seu lirismo, de sua beleza antiga, de sua poesia. Vocês não alcançam a importância de uma cidadezinha como Santa Tereza [...] o turista é capaz de sair daqui completamente gamado, [...] é capaz até de sentir inveja da gente. Enquanto vocês seus bobocas, não sabem valorizar as coisas que têm. Só querem mesmo é bagunçar o coreto, ficam aí reclamando e se esquecem de que nosso Estado, especialmente Vitória- possui coisas lindíssimas. Se esquecem de que a Ilha, também é uma cidade maravilhosa, à sua maneira.
(SOUZA, 2002, p. 76- 79).

Assim, Carmélia torna-se porta-voz da Ilha de Vitória: “A Ilha está pedindo para que vocês a deixem crescer”, “a Ilha quer saber se lá fora o seu nome é pronunciado com admiração e respeito” (SOUSA, 2002, p. 78). Como observamos, Carmélia ama sem limites, e essa desmesura, num crescente, a levará a fazer de si cidade, ou de fundir-se a ela: “Eu sou a Rua Duque de Caxias” (SOUSA, 2002, p. 78).
O ímpeto que levou Carmélia a chamar “Félia” para o diálogo dará forma a Dindí, símbolo romântico a quem a escritora recorrerá nos momentos de angústia e solidão. Carmélia se inspirou na personagem homônima da música criada por Tom Jobim e interpretada por Silvinha Teles. A Dindí carmeliana é depositária de grande confiança por parte da escritora, ela é a herdeira dos livros de Carmélia, a incumbida de cuidar do espólio e, especialmente, de fazer vir a lume o livro Vento Sul. No diálogo poético, com tom de despedida, intitulado “testamento”, Carmélia diz: “Deixo as minhas crônicas (publicadas ou inéditas) para você. Deixo também para você os personagens de um livro que jamais terminarei de escrever. Termine-o por mim, Dindi! Escreva o Vento Sul” (SOUZA, 2002, p. 173, grifo nosso). Os diálogos entre Carmélia e Dindí são de grande lirismo e intimidade, observemos no fragmento da “Crônica com endereço certo”:

Além do mais Dindi [...] Eu nunca soube falar as coisas que deveria falar, você me conhece bem, você sabe como sou imbecil, tímida, completamente desajeitada [...]. Sou, enfim, sou uma pessoa distraída e tresloucada, um caso perdido, uma pobre diaba. Viver, para a pessoa que sou hoje em dia, é esta aflição imutável, é este desespero de perder tudo, de repente descobrir que tudo voltou aos devidos lugares. Este viver de abrir os braços e dar a impressão muito falsa de que estou sempre preparada para o que der e vier. No fundo, você sabe, sou medrosa e covarde como o diabo. E, embora não pareça, tenho a alma atormentada e não me conformo com nada (SOUZA, 2002, p. 134)

Na crônica “testamento” (SOUZA, 2002, p. 173) Carmélia se despede, ela externa o desejo de que seus sapatos calcem “os pés descalços dos pobres”, e aos amigos declara: “parti feliz”, afinal, a esperam os braços de seu pai e a ternura de sua mãe, e aos que a condenaram fica a declaração de que foi “uma pessoa simples e bem intencionada”. A escritora finaliza a crônica declarando aos seus amigos: “O seu amor justificou o meu amor e a ternura dos meus gestos [...]. É assim que os espero nas esquinas dos astros, em alguma nuvenzinha azul” (SOUSA, 2002, p. 174).
A imersão na escrita de Carmélia Maria de Souza permite que vislumbremos um pouco espírito criativo dessa escritora irreverente, ousada, corajosa e que soube, como poucos, se comunicar com o público capixaba. Vento Sul é uma obra hibrida que abriga crônicas e poemas em prosa, além de acolher um rico repertório de temas ainda pouco estudados dentro da obra de Carmélia. Essa obra foi publicada postumamente em 1974, após dois anos da morte da escritora. A primeira edição veio a lume pela Fundação Cultural do Espírito Santo, com notas e introdução escritas pelo jornalista Amylton de Almeida. O livro teve ainda duas reedições, uma em 1994[2] e outra em 2002[3].

REFERÊNCIAS:
¾   SOUSA, Carmélia Maria de. Vento Sul. Conselho editorial da Gráfica Espírito Santo: Vitória, 2002.
¾   RIBEIRO, Francisco Aurélio. Aspectos do feminino na crônica das escritoras capixabas : Haydée Nicolussi (1905-1970), Guilly Furtado Bandeira (1890-?), Zeny Santos (1930-1986), Carmélia Maria de Souza (l936-1974) e Marzia Figueira (l938-2000).



[1] Carmélia Maria de Souza foi Funcionária Pública Federal, trabalhou no Museu de Arte Histórica de Vitória, situado no Solar Monjardim, na Biblioteca da FAVI, e durante dezessete anos de vida jornalística, colaborou com jornais e revistas estudantis, trabalhando nos principais jornais da capital: Sete Dias, O Diário, Vida Capixaba, A Tribuna, A Gazeta, O Debate e Jornal da Cidade (acesso em 23 de fev. 2008). Parte do acervo que continha seus escritos foi destruído em um incêndio na década de oitenta, eram crônicas publicadas em A Tribuna e O Diário

[2] Em 1994, fruto da parceria entre a Rede Gazeta de Comunicações e a Universidade Federal do Espírito, a obra chegou ao público leitor como encarte de jornal e, em 2002, após ter sofrido algumas supressões no texto, foi publicada completa, permanecendo na íntegra a introdução feita por Amylton, além de toda a matéria em homenagem à Carmélia publicada na revista Você, n. 24, de junho de 1994.
[3] Texto retirado do folder da exposição intitulada “Carmélia, Félia, Magnólia”, de fotos escritos de Carmélia Maria de Souza. Divisão de Memória do DEC. 

Carl Gustav Jung é um crítico ferrenho da ideia de unicidade do individuo. A criação de sua obra teve como pano de fundo o século XX, tempo de passagem do sujeito iluminista, quando a pessoa humana era concebida como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado de razão e, tinha o eu como centro essencial da identidade, para o sujeito sociológico, que questionava a autonomia do núcleo interior desse sujeito.
Stuart Hall na sua obra A identidade cultural na Pós-modernidade, esclarece que no século XVIII, “ainda era possível imaginar os grandes processos da vida moderna como estando centrados no indivíduo, sujeito-da-razão”, mas, a complexidade que as sociedades modernas foram adquirindo, lhes concedeu formas mais coletivas e sociais e o indivíduo passou a ser visto como “mais definido no interior das grandes estruturas e formações sustentadoras da sociedade moderna”. Na base que fundamentou o surgimento do sujeito moderno estão: a institucionalização do dualismo cartesiano por meio da divisão das ciências sociais, entre elas a psicologia, que tornou os processos mentais, objeto privilegiado de estudos. O segundo fator foi a biologização do indivíduo, influencia da teoria darwiniana da evolução das espécies, que postulou que a razão tinha uma base na natureza e a mente, um “fundamento” no desenvolvimento físico do cérebro humano.
O pensador francês Michel Foucault pesquisou a história das ciências na obra O nascimento da clínica. Foucault defendeu que a psiquiatria abandonou o delírio e a alienação mental e passou servir como instrumento de controle social, no livro A ordem do discurso (1996) ele especificou os três grandes sistemas de exclusão que atingiram o discurso: “a palavra proibida, a segregação da loucura e a vontade de verdade”.
O neojunguiano James Hillman (1984) nos fornece um panorama do pensamento acerca da psique no final do século XX, quando Jung iniciou a construção de suas teorias. Desde o final do século XVIII, norteados pelo espírito do iluminismo tardio e da confiante idade da razão, os acadêmico passaram a sentir um forte fascínio pela cabeça, que adquiriu o simbolismo de “topo” do homem. Conta-nos Hillman que, até meados do século XVIII, a sede das desordens psíquicas era procurada no estômago, nas entranhas e no diafragma.

A filosofia dessa época contribuiu e preparou caminho para tal migração do interesse científico. Voltaire, por exemplo, havia declarado que a loucura “era uma doença dos órgãos do cérebro”, já Kant, considerava a psicose “uma enfermidade da cabeça”, embora ainda se acreditasse que a sua origem estivesse no sistema digestivo. Se a psicologia moderna nasceu comprometida com o espírito secular do iluminismo e sob a égide da filosofia, pode-se dizer que o pai deste movimento foi o filósofo Johann Friedrich Herbart (1776- 1841), sucessor da cátedra deixada por Kant, e responsável pela criação de mapas e guias psicológicos muito difundidos nas universidades da Europa e da América. A ascensão da psicologia nos meios médicos e o duradouro postulado herbartiano fez com que a “alma” fosse despida de toda sua potencialidade, deixado de ser o centro vivo da individualidade e, até mesmo a palavra “alma”, caiu praticamente em desuso. Herbart escreveu que a alma “não possui conhecimento de si mesma nem de outros objetos”. Ele destacou também que esta não possuía “categoria de pensamento e intuição, nem faculdade de desejos e ação” . A alma, em princípio, não quaisquer teria predisposição, e a sua natureza elementar seria totalmente desconhecida, devendo permanecer desconhecida. Desse modo, “a alma não poderia servir como tema nem para a psicologia especulativa, nem para a psicologia empírica” .

De forma marginal e muito criticado pelos acadêmicos, Freud começou a construir, a partir das experiências com seus pacientes, em consultório particular, a psicanálise. Paralelamente, Jung desenvolvia seus estudos e, embora institucionalizado, pois era estagiário de Eugen Bleuler no Hospital universitário de Burghölzli, passou a direcionar o seu olhar para aquilo que julgava ser “uma rica colheita para a psicologia experimental”, ou seja, o estudo Sobre a psicologia e a patologia dos assim chamados fenômenos ocultos, que se tornou tema de sua monografia de especialização. O Dr. Bleuler era conhecido na Alemanha e na Suíça por seus métodos pouco ortodoxos para a época, como por exemplo, obrigar os médicos a aprenderem os dialetos falados pelos pacientes. Em 1902, Jung foi para Paris estudar com Pierre Janet e Charcot. Como professor universitário e ainda trabalhando no Hospital Burghölzli Jung passou a elaborar, a partir de estudos de casos, especialmente o do Dr. Otto Gross, o que chamou num ensaio de “a importância do pai no destino do indivíduo”. Seus trabalhos anteriores já davam indícios das teorias que estavam por vir e, Jung, ao argumentar que “o destino” e não “Deus ou o Demônio” era “o responsável por nossas infelicidades e suas conseqüências”, já citava Shakespeare, apoiava-se em Schopenhauer, utilizava analogias e referências bíblicas e, no decorrer dos anos, com a incorporação de novas idéias, o conceito de “Destino” tornou-se “o arquétipo”.

Com suas pesquisas Jung buscava mostrar que os poderes psíquicos vinham de estados psicológicos da mente e não tinha ligações com forças espirituais, indo desta forma na contramão da doutrina espírita que florescia. Estes dados esclarecem que Jung sempre separou religião de experiência religiosa, sendo a segunda, para ele, uma expressão da psique e uma construção cultural. Embora com vínculos institucionais, a forma como Jung lidou com temas referentes à alma encontrou pouca aceitação nos meios acadêmicos e clínicos. Jung lera A Interpretação dos Sonhos, de Freud, em 1900, mas, foi em 1906, que iniciaram as correspondências entre ambos e uma relação pessoal que duraria até 1914. Freud era persona non grata no meio acadêmico, mas , com o lançamento do livro A interpretação dos sonhos, passou a ser conhecido como o fundador de uma nova teoria. Jung havia assumido abertamente na comunidade científica internacional, sobre como seu trabalho com as associações de palavras estavam em conformidade com a teoria de Freud sobre os mecanismos de repressão, destacando a importância da obra de Freud nos seus estudos. Na relação com Jung, Freud deixou claro quem era o aprendiz, e que estava confiante que, muitas vezes, Jung estaria em posição de lhe “secundar”.

A relação entre Jung e Freud termina quando Jung expressa suas reservas a respeito da primazia da sexualidade na teoria freudiana. No artigo intitulado Sigmund Freud, um fenômeno histórico-cultural, Jung lança uma dura crítica ao “pomo da discórdia”, afirmando que o iluminismo foi “o chão pátrio” que firmava o pensamento psicanalítico freudiano, e interroga sobre todas as complexas manifestações da alma, como arte, filosofia e religião pareciam-lhe suspeitas, ou melhor, “nada mais do que” repressões do instinto sexual. Essa posição essencialmente limitadora e negativa em relação a reconhecidos valores culturais baseiavam-se num condicionamento histórico. Para Jung Freud via como sua época o obriga a ver. Isso aparece melhor na obra Die Zukunft einer Illusion, onde Freud traça uma imagem da religião que corresponde exatamente ao preconceito da época materialista.


autoria: Renata Bomfim

19/06/2017

Ulisses rendido (poema de Renata Bomfim)

Ulisses

deve ao inferno azul
o dom de enxergar.

Na soberba do grande mistério,
abandonou mulher, pai, mãe,
o próprio filho.
Queria poder,
sucesso,
ser deus...

O vento soprava o seu nome
na ilha vazia,
Penélope sonhava vazios.
O nada voou como o pólen
de uma flor e emprenhou
o cavalo de madeira.

Cavalo de homens,
de guerra,
de mentiras.
Ulisses trapaceou:
     venceu a guerra
     perdeu a honra.

O mar foi algoz e
conselheiro.
Mil noites vagando,
mil noites sob as estrelas,
mil noites sonhando reencontrar
alguma alegria verdadeira.

O que havia se perdido?
Onde ficara a ponta do fio de ouro
da colcha de Penélope?
Ulisses viu a morte
sorrindo.



Renata Bomfim