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24/05/2017

Rapariga de Sacramento MG Brasil (Poema e tradução Pedro Sevylla de Juana)


Dedicado a Renata Bomfim

Ignoro a maior parte das coisas tuas,
quase todas as razões, mas sê
que numa palhota amanheceste descalça:
gritos de parto e vozes de vizinhas
saíam pelo negro buraco
do cano enegrecido,
negro,
com a fumaça do fogo que fervia
as raízes
e esse suco
que iam alimentar tua ousadia.

Choraste ao fim,
amanhecia,
choraste o primeiro de teus prantos
eras menina
e iam te chamar
Bitita.

Depois te pensei menina
e eras menina sem armário
de roupinha
sem enxoval azul ou rosa
sem sapatinhos de fivela linda,
sem futuro de manhã pela tarde
nem do outro dia.

Menina sem amparo
nem caricias.
entretinhas teu tempo
com brinquedos que fazias
da nada e ao momento
a teu capricho e medida.

Sobre o planeta Terra
ia descalça tua puerícia
se alimentando de suco de raízes,
de frutos e de flores
de folhas da rama
de suco de intenções.

Independência,
orgulho
coragem
paciência
e impaciência:
pouco a pouco tua Torre de Babel
se alçava na sucessão dos dias
com o teu desejo de atingir as estrelas
acariciá-las uma a uma
e viver sempre nelas.

Aprendeste a ler, a escrever,
e procurando entre sucata e papelões,
aprendeste a distinguir
e foste te fazendo de música e cores
de pranto interno
e esperança;
mulher que pensava e via ao mesmo tempo
que sentia, elucubrava e escrevia;
e eram relatos de vida e abandono
de receio e fugida
de alento e fogo
os que desses olhos saíam
dessa mente produtora de ideias
dessa mirada profunda posta nas coisas,
com um temor sincero
às pessoas escuras que escondiam
suas negras intenções no grande buraco preto.

Te uniste ao macho a cada vez
que o alarme e o desejo empurravam,
te nascendo três filhos
que tiveram a sorte
propícia e próspera
de ter no barraco
uma mãe generosa.

Formiga
sozinha,
levavas
o grão
de alimento
ao imediato
formigueiro.
Todo o ano
inverno,
inverno.

Esta noite te pensei, e sendo negra
do tudo, toda negra,
te pensei mestiça do sol e da lua
com o melhor de cada raça
indígena, africana e europeia
ninada pelo vento e pela chuva
das quatro estações
que são só uma nessa terra equinocial
efervescente de luz e religiões.

Humanidade tu
encolhida em cócoras à espera,
saiu teu livro desse Quarto de Despejo,
voou alto e longe, pomba mensageira,
choveu o dinheiro em diluvio universal
e te tocou na partilha uma parte pequena.
Chegaste ao alto da Torre
quando teus escritos iam inundando o Planeta
rapariga de sacramento
mulher de favela.

Ao receber sua visita o soubeste:
Fortuna fica pouco tempo na casa do pobre.
A Torre se fez mais Babel ainda
as línguas diferentes não foram miscíveis
e se confundiram te confundindo.
Envelheceste até sentir o mau
recordando àquelas que fugiam
e às que precisavam, para se sentir bem,
escutar os versos que escrevias.

Uma noite escura te sonhaste morta,
no interior fechado do caixão,
nas mãos, livros em vez de flores;
foi um sonho de graves consequências
porque já não despertaram as vidas
que neste mundo rompido, viveste à tua maneira.

PSdeJ El Escorial, a 20 de mayo de 2017


 ***************

Muchacha de Sacramento MG Brasil
Poema de Pedro Sevylla de Juana
Dedicado a Renata Bomfim

Ignoro la mayor parte de tus cosas,
Casi todas las razones, pero sé
que amaneciste descalza en un bohío:
gritos de parto y voces de vecinas
salían por el negro agujero
del tubo renegrido,
negro,
con el humo del fuego que cocía
las raíces
y ese jugo
que iban a alimentar tu osadía.

Lloraste al fin,
amanecía,
lloraste el primero de tus llantos
eras niña
y te iban a llamar
Bitita.

Luego te pensé menina
y eras menina sin armario
de ropita
sin ajuar azul o rosa
sin zapatitos de hebilla,
sin futuro de mañana por la tarde
ni del otro día.

Niña sin amparo
ni caricias.
Entretenías tu tiempo
con juguetes que hacías
de la nada y al momento
a tu capricho y medida.

Sobre el planeta Tierra
iba tu niñez descalza
alimentándose de jugo de raíces,
de frutos y de flores
de hojas y de ramas
de jugo de intenciones.

Independencia,
orgullo
coraje
paciencia
e impaciencia:
escalón a escalón tu Torre de Babel
se alzaba día a día
con tu deseo de alcanzar las estrellas
acariciarlas una a una
y vivir constantemente en ellas.

Aprendiste a leer, a escribir
a buscar entre cartones y chatarra
aprendiste a distinguir
y fuiste haciéndote de música y colores
de llanto interno
y esperanza;
mujer que pensaba y veía al mismo tiempo
que sentía, razonaba y escribía;
y eran relatos de vida y abandono
de recelo y huida
de aliento y fuego
los que de esos ojos salían
de esa mente productora de ideas
de esa mirada profunda de las cosas,
con un temor sincero
a las personas oscuras que escondían
sus negras intenciones en el gran agujero.

Te uniste al macho cada vez
que la alarma y el deseo te empujaban,
naciéndote tres hijos
que tuvieron la suerte
propicia y próspera
de tener en la barraca
una madre generosa.

Hormiga
sola,
llevabas
el grano
de alimento
al cercano
hormiguero.
Todo el año
invierno,
invierno.

Esta noche te pensé, y siendo negra
del todo, toda negra,
te pensé mestiza del sol y de la luna
con lo mejor de cada raza
indígena, africana y europea
acunada por el viento y por la lluvia
de las cuatro estaciones
que son una en esa tierra equinoccial
efervescente de luz y religiones.

Humanidad tú
acurrucada en cuclillas a la espera,
salió tu libro de ese Quarto de Despejo,
voló alto y lejos, paloma mensajera,
llovió el dinero en diluvio universal
y te tocó en el reparto una parte pequeña.
Llegaste a lo alto de la Torre
cuando tus escritos iban inundando el Planeta
muchacha de sacramento
mujer de favela.

Al recibir su visita lo supiste:
Fortuna para poco tiempo en la casa del pobre.
La Torre se hizo más Babel si cabe
las lenguas distintas no fueron miscibles
y se confundieron confundiéndote.
Envejeciste hasta sentir el mal
recordando a aquellas que huían
y a las que necesitaban, para sentirse bien,
escuchar los versos que escribías.

Una noche oscura te soñaste muerta
en el interior cerrado del cajón,
en las manos, libros en lugar de flores;
fue un sueño de graves consecuencias
porque ya no despertaron las vidas,
que en este mundo roto, viviste a tu manera.

PSdeJ El Escorial, 20 de mayo de 2017


11/05/2017

A Guerra entre os Lunares e os Terrenos (Oscar Gama)

Para Alex e Sil
É eterna e inadiável a guerra,
Nunca se encerra nem erra.

Os anos passam e nós aqui ainda,
Tentando encontrar o sentido da vida.
Pelejando para que o sopro da luta árida
forneça corpo e luz para o que se esvazia.

A dúvida de todo o tempo que passamos juntos
fará perguntas belicosas para a lua que a saúda.

Mas a lua navega, pela Proa cega,
Sem o piloto para mudar sua rota errante.
Mesmo errando todas as respostas, segue avante:
O exército astral, que a persegue, incansável,
Obriga-a a tocar sua vida para adiante.

A lua é a retífica
de sua própria vida,
E, cheia de si mesma, se motiva e brilha
em tom de batalha e de piada.


Se a lua também é a retífica
de nossa alma sofrida,
Como tocá-la sem olhá-la nem matá-la,
Tal como fazemos com a paixão consumida?

A lua brilha e sua paz nos retifica
para algo além da humana lida,
Aconselhando-nos a sobreviver e a manter o bom humor.

Respondem, assim, seus raios descendentes, a nós:
Sem o bom humor, não vale a pena viver.
Se não vivermos, como ter algum humor.
Casamar, 7 de maio de 2017


10/05/2017

Plantar rosas (Renata Bomfim)

Pouca coisa faz tanto sentido
quanto plantar rosas...

Penetrar os dedos na terra úmida
Mergulhando numa ancestralidade
Profunda, obscura-luminosa onde 
Tudo é e não é.

Perfume e cor conjugados 
Arrancam  sorrisos 
mesmo quando os olhos
querem regá-la com lágrimas.
                         
Pouca coisa faz tanto sentido
quanto plantar rosas.

Tímidas, pálidas, pétalas sedosas
A roseira arranha as minhas mãos,
desafia as obras no jardim, as podas,
Resistindo à chuva e ao vento. 


Renata Bomfim
Vitória, 10-05-2017

Palestra na FLIC 2017: "Leitura e Escrita Criativa na Educação Socioambiental" (com a prof.ª Dr.ª Renata Bomfim)


Gostaria de convidá-los para a palestra "Leitura e  Escrita Criativa na Educação Socioambiental", que será ministrada por essa amiga de vocês na Feira Literária Capixaba (FLIC/2017) no dia 20/05, ás 10:30 horas/ auditório do CCE/UFES. Nessa palestra falarei sobre experiências vivenciadas com oficinas terapêuticas em serviços de educação informal e sistema básico de saúde.
Será uma alegria a sua presença!
Link para a programação completa.

Um Psicanalista Gramatical (Oscar Gama Filho*)


Os Estudos Sobre o Pronome, de José Augusto Carvalho, lançados em 2016 pela Thesaurus Editora, apresentam inúmeras colaborações para o complexo problema do pronome na língua portuguesa. De fato, é obra sem igual, de ineditismo que me parece absoluto na área. Desconheço similar que ataque e esgote todos os ângulos do pronome, esclarecendo tudo que as gramáticas comuns relegam a um segundo plano.
Em uma seara onde a impressão é de que se trata de um tema esgotado, há surpreendentes novidades a respeito das funções do pronome. Ele tenta, utilizando uma teoria  chamada "das ondas", ou de "conflito de regras", explicar o emprego de ele e de eu como objetos diretos, o emprego de si-consigo não reflexivo e a confusão entre os demonstrativos este e esse,  a mistura de tratamento como recurso de estilo e o emprego da 3ª pessoa do singular em português, francês e alemão como pronome de tratamento.
O início do livro é uma resenha das obras portuguesas e brasileiras que estudaram o pronome pessoal. Também fala, citando exemplos de textos diversos, da sintaxe complicada  do dialeto caipira, que muita gente pensa que é simples demais, que é só conjugar o verbo de maneira igual em todas as pessoas, exceto na primeira. 
 Após a leitura dos Estudos sobre o Pronome, então enxergo a terrível verdade: por séculos os gramáticos da língua copiaram os erros uns dos outros, perpetuando-os.
Deve ser por causa disso que Guimarães Rosa e Monteiro Lobato desenvolveram uma ortografia própria — a oficial é logicamente incompreensível e insatisfatória, como evidenciam os achados de Zé Augusto.
Já tive a oportunidade de assistir, como ouvinte, a aulas de Zé no segundo grau do Colégio Estadual de Vitória, na companhia do então aprendiz de poeta Miguel Marvilla. Seus exemplos inusitados e cômicos, o improviso, a segurança, a fluência gramaticalmente e teatralmente infalível de frases, transformavam assuntos áridos e insossos em algo tão sensacional quanto um poema de Drummond. Geravam a sensação de estranhamento, que, aprendi também com o professor, consiste na sensação do homem diante do novo, segundo os formalistas russos.
Torna-se, assim, um psicanalista gramatical, na medida em que suas interpretações mudam o sistema gramatical inconsciente que é o motor computacional da língua — tal qual a interpretação psicanalítica estabiliza o sistema psíquico humano. A fala é a expressão consciente dessa massa bruta inconsciente de que (o consciente) é pura expressão em variantes dialetais.
Zé não almeja a beleza da verdade. Pois a verdade da perrengue gramática portuguesa é feia de doer. Ele pretende a verdade da beleza, entrevista pelo cristal quintessencial que vibra com a força do sentido do sistema gramatical dentro de nós. Softwares e programas incompreensíveis, cujo sentido desconhecemos, mas de onde emana a língua.
Um dia, ele me disse na lata: “em nossas origens, eu sou um gramático; e você, um poeta. Você quer ser original no desvio da norma e eu o denuncio. Ambos –gramático e poeta – se  complementam no poema da vida e não existe um sem o outro”. E citou Clarice Lispector: ela contava a história de um crítico que sabia todas e regras e truques e, por isso, não conseguia produzir literatura — o que não é o seu caso, genial e renomado ficcionista também.
A língua (langue), segundo Saussure, é um “tesouro depositado pela prática da fala em todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade, um sistema gramatical que existe virtualmente em cada cérebro” (apud Jonathan Culler, As Ideias de Saussure, São Paulo, Cultrix, 1979, p. 23).
Quando José Augusto melhora o sistema gramatical, está, na verdade, eliminando vírus no computador humano, estabilizando o sistema por meio de um upgrade e aumentando o alcance do pensamento em português, pois ninguém pensa além da linguagem, que é o código decodificador do real.
É a seguinte operação: o sistema gramatical gera a língua (langue), que possibilita a melhoria da fala (parole) e o alcance da linguagem, que, por sua vez, amplia a abrangência e a penetração do pensamento brasileiro: as sujeiras no sistema gramatical inconsciente impedem a clareza que o raciocínio pleno demanda e requer para expressar o novo e o real.
Quem de vocês, leitores, conhece alguém que, além de ler dicionários — o que já é raro —, encontra erros incontestáveis neles por 40 anos seguidos? Isso tudo sob os meus olhos insipientes, abismados ante o show maravilhoso empreendido por este virtuose durante os quarenta anos de nossa amizade.
Sim, um amigo que é uma máquina de escrever ambulante sustentada por um corpo-cavalo cuja  missão é apenas carregar a mente privilegiada do escritor José Augusto Carvalho: as suas melhorias  no sistema gramatical o eternizam, por  seu projeto ampliar o alcance do pensamento em português. 
Casamar, 26 de março de 2017
*Psicólogo e escritor