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29/02/2020

A MILITÂNCIA FEMININA CAPIXABA E O PIONEIROISMO DE JUDITH LEÃO CASTELLO RIBEIRO NA POLÍTICA (Prof. Drª. Renata Bomfim)



RE - REVISTA ELETRÔNICA                                                              

                             DA ALES-ES Seção 01 artigos

Renata Bomfim é mestre e doutora em letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. Professora, escritora e ativista ambiental é gestora e proprietária da Reserva Natural Reluz, RPPN localizada em Marechal Floriano. Presidente da Academia Feminina Espírito-santense de Letras, ocupando a cadeira de nº 16; Membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do ES e Diretora técnica da Associação Capixaba do Patrimônio Natural (ACPN). Representou o Brasil em Festivais de poesia no exterior e presidiu a 6ª Feira Literária Capixaba, em maio de 2019. Possui artigos e ensaios publicados, é autora da Revista Literária Letra e fel (www.letraefel.com) e dos livros de poemas Mina (2010); Arcano dezenove (2012), Colóquio das árvores (2015) e O Coração da Medusa (no prelo). 


Falar acerca da força e da coragem das mulheres espírito-santense é algo que nos comove, mas também nos desconforta, pois, infelizmente é uma história ainda pouco conhecida pela sociedade capixaba e marcada pelo silenciamento. A pesquisadora Maria Stella de Novaes, personalidade importantíssima da historiografia do Espírito Santo e autora da obra A mulher na História do Espírito Santo (História e folclore), escrita entre 1957 e 1959, chamou a atenção para essa “omissão de referências às mulheres”. Dona Stelinha, como carinhosamente era chamada, denunciou que esse silêncio sobre a produção intelectual feminina e suas ações de resistência remontam os registros da colonização. Segundo registros, o donatário Vasco Fernandes Coutinho, quando veio tomar posse da Capitania no dia 23 de maio de 1535, não trouxe mulheres na sua comitiva e a epistolografia dos padres Jesuítas atesta que os portugueses se casavam com as índias. 

As mulheres indígenas das tribos que habitavam o Espírito Santo na época da colonização exerciam autoridade na tribo, tanto que nos chegam relatos como o da esposa do índio Maracaiaguaçu (Gato grande), batizada como Branca Coutinho, em homenagem à mãe do donatário, e da viúva de Guajaraba (Cabelo de Cão), que guiou o seu povo na descida do Sertão para a aldeia dos Reis Magos. As índias foram as primeiras mães dos cidadãos nascidos na terra recém-batizada e o papel fundamental e marcante da mulher indígena na indústria caseira e na arte manual, deu forma a uma das tradições mais destacadas do ES, ¾ a tradição da panela e das paneleiras¾. Não ficou de fora do relato de Dona Stelinha a importância histórica de Luísa Grimaldi, que governou o Espírito Santo com êxito entre os anos de 1589 e 1593.

A literatura produzida por mulheres no Espírito Santo tem preenchido muitas lacunas deixadas pela história, exemplo disso é a obra A Capitoa, da escritora barrense Bernadette Lyra, que fala da coragem dessa mulher que foi uma das primeiras da comandar um estado brasileiro no século XVI. Outra personalidade feminina de grande relevo para o Brasil é Maria Ortiz, heroína capixaba filha de espanhóis que defendeu a Catania da invasão holandesa, em 1625. Em um artigo intitulado “Cadê a Maria Ortiz?”, Francisco Aurélio Ribeiro relata que visitou a exposição “Brasil feminino”, no Rio de Janeiro, e pode ver entre as personalidades cronologicamente destacadas, Dora Vivacqua, mais conhecida como Luz Del Fuego; a cantora Nara Leão e a escritora Marly de Oliveira, mas, aponta para a ausência de referência a Maria Ortiz que é, inclusive, alguns séculos anterior a revolucionária Maria Quitéria e a Ana Néri, pioneira da enfermagem no Brasil. Dona Stelinha destacou que os séculos passaram e “humildes e ignoradas, alheias, mesmo aos resultados sociais e econômicos dos seus esforços”, as mulheres capixabas chegaram ao século XVIII ainda condicionadas por conceitos patriarcais religiosos, sociais e legais que as caracterizavam como inferiores ao homem: “fadas incógnitas que salvaguardavam as bases da sociedade”, as capixabas eram consideradas “máquina de trabalho doméstico”.

A mulher oitocentista teve a sua liberdade fortemente cerceada e as jovens eram criadas e educadas para o casamento, mas, a escolarização foi essencial para que esse cenário começasse a mudar. Em 1827, Dom Pedro I outorgou a lei que criou escolas nas vilas e cidades mais populosas do império, entretanto, as escolas para meninas seriam permitidas apenas se aprovadas pelo conselho, e caso fossem aprovadas, a elas não se ensinaria aritmética e nem geometria, apenas as quatro operações básicas, ficando o programa restrito às prendas da economia doméstica. Essa realidade estendeu-se até meados do século XIX, quando as mulheres começaram a conquistar espaços sociais fora de casa e as senhoras do Espírito Santo se organizavam em torno de novos interesses, como o jornal de moda parisiense A Estação. Em Vitória e Vila Velha as rendas, parte do aprendizado de trabalhos manuais das moças, eram famosas.

No Espírito Santo, a primeira escola pública primária para meninas, foi fundada em Vitória, em 1835, mas ficou dez anos sem funcionar por falta de professora, até que em 1845 a primeira professora foi contratada, o seu nome é Maria Carolina Ibrense. A escolarização feminina associada à emergência de ações coletivas abriu horizontes para as mulheres no século XX. Maria Stela de Novaes afirmou que o século XIX poderia ser chamado de “O século das mulheres”. A partir de então as mulheres passaram a ser professoras e diretoras de escolas primárias e normais, bem como escritoras, mas, o direito ao voto e a elegibilidade ainda lhe eram negados. Nesse sentido, podemos perceber a relevância da vida e da obra de Judith Leão Castello Ribeiro, professora, escritora e primeira deputada estadual no Espírito Santo. Judith Leão Castello Ribeiro nasceu na Serra, no dia 31-08-1898, seu pai João Dalmácio Castello e sua mãe Maria Grata Leão Castello, primaram pela educação dos filhos e da fizeram questão que a filha também estudasse. Judith Leão se insere no contexto de luta e resistência das primeiras sufragistas capixabas. Vale recordar a importância do feminismo emergente na luta pelos direitos das mulheres e que a exclusão dessas da categoria de cidadãs, na constituição inglesa de 1791, levou a escritora Mary Wollstonecraft a escrever Reivindicação dos direitos da mulher e essa obra, que denunciava a opressão no tempo do iluminismo, ecoou no Brasil e, insuflado por Nísia Floresta com o seu Direito das mulheres e injustiça dos homens, de 1832, floresceu o movimento feminista brasileiro. Berta Lutz, na década de 1920, liderou a criação da FEDERAÇÃO BRASILEIRA PELO PROGRESSO FEMININO e esse feminismo de primeira hora, que tinha como foco a melhoria das condições da mulher na sociedade e a conquista do direito ao voto feminino, só alcançou o pleito em 1932. Segundo Maria Stella de Novaes, o movimento feminista capixaba delineou-se paralelamente ao movimento nacional, liderados pela Sra. Silvia Meireles da Silva Santos, em Vitória. Nessa época, a organização das mulheres em entidades organizadas fomentou importantes debates políticos e, em vários estados da federação, o feminismo se fortaleceu. No Espírito Santo não foi diferente, as intelectuais capixabas já chamavam a atenção pela atuação destacada no cenário cultural local, mesmo assim, alguns espaços ainda lhe eram negados, e um desses espaços era o político.
O interesse de Judith pela política possui raízes profundas, pois, nascida em uma família tradicional da Serra, o seu bisavô, Manoel Cardoso Castello, avô dos educadores Kosciuszko e Aristóbulo Barbosa Leão, foi vereador na época que a localidade era conhecida como freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Serra, antes de ser elevada à condição de Vila, em 1822. Ela foi, também, casada com Talma Rodrigues Ribeiro, que foi prefeito da Serra entre 1945 e 1946 e que a apoiava incondicionalmente.  

Judith foi uma defensora ardorosa dos direitos políticos das mulheres, mas, o ambiente conservador da época exigiu uma sensibilização das capixabas para a luta política. Maria Stella de Novaes expõe as dificuldades das mulheres que ousavam desafiar a ordem patriarcal adentrando espaços públicos, relata que ela mesma sofreu para ingressar como catedrática no corpo doente do Ginásio do Espírito Santo e na escola normal do Estado, e que “as escritoras e as poetisas amargaram” da mesma forma, “bebendo o cálice da crítica ferina e da oposição implacável”. Em 1933 um grupo de senhoras vitorienses fundou a FEDERAÇÃO ESPÍRITO-SANTENSE PELO PROGRESSO FEMININO, buscando incentivar o alistamento de mulheres e, sem compromisso partidário, a CRUZADA CÍVICA DO ALISTAMENTO, cuja presidente foi Silvia Meireles da Silva Santos, vice-presidente, Judith Castello Leão Ribeiro, e tesoureira Maria Stella de Novaes. Judith Leão já era professora desde o ano anterior, quando tinha sido aprovada, em concurso público, e ingressado como docente no Grupo Escolar Gomes Cardim. Segundo João Luiz Castello, sobrinho de Judith, são vários os exemplos de que Judith mostrava interesse em trabalhar em prol do coletivo, tanto que desejando estimular o aprimoramento cultural de seus alunos fundou o Museu Pedagógico (1930-1946), na Escola Normal Pedro II, e iniciou  o jornal “Folha escolar”, de circulação interna na mesma instituição.
A arte e a cultura sempre foram considerados, por Judith Leão, um instrumento de transformação social, de forma que, enquanto professora, estabeleceu um tempo para os seus alunos terem iniciação literária e musical. Foi como professora que Judith, em 1934, candidatou-se a deputada estadual pela primeira vez, mas como não estava filiada a nenhum partido, acabou não se elegendo. Judith Leão optou por disputar sem legenda por apoiar o Movimento Revolucionário Constitucionalista de São Paulo, de 1932, e por discordar da política estadual em vigor na época. A sessão capixaba da Federação contribuiu para com o movimento no Rio de Janeiro, te esse esforço coletivo fez com que, em 1936, o direito ao voto fosse mantido sem restrições na Constituição Federal.


A movimentação feminista vitoriense repercutiu no interior do estado e uma delegação da UNIÃO CÍVICA FEMININA, de Cachoeiro de Itapemirim, em 1936, enviou uma delegada para participar do Congresso Nacional Feminino. O “esforço titânico”, ¾ como diria Maria Stella de Novaes ¾, de Judith Leão e de muitas outras mulheres capixabas, entre elas Guilly Furtado Bandeira, Ilza Etienne Dessaune, Maria Antonieta Tatagiba, Lidia Besouchet, Virgínia Tamanini, Yponéia de Oliveira, Zeni Santo e Haydée Nicolussi, precisa ser conhecido pela sociedade, precisa ganhar destaque na historiografia. Um grupo de mulheres uniu forças com Judith Leão para a fundação da ACADEMIA FEMININA ESPÍRITO-SANTENSE DE LETRAS (AFESL), no dia 18 de julho de 1949. Francisco Aurélio Riberio, dedicado pesquisador da vida e da obra das escritoras capixabas, nos faz saber que apenas muito recentemente as mulheres foram aceitas nas academias de Letras, e destaca a extemporaneidade e o pioneirismo da capixaba Guilly Furtado Bandeira que, em 1913, ingressou como acadêmica na Academia de Letras do Pará. A escritora é, também, a primeira capixaba a publicar um livro, em 1913, Esmaltes e Camafeus.

A acadêmica da AFESL Ailse Therezinha Cypreste Romanelli salienta que era “um despautério”, na década de quarenta, uma mulher como Judith cumprir quatro  legislaturas como deputada e, ainda, tentar entrar para a Academia Espírito-santense de letras e não ser aceita. Judith se candidatou para uma cadeira da Academia Espírito-santense de Letras (AEL), mas “as academias eram exclusivamente masculinas”, então num movimento de afirmação feminista, Judith, fundou a Academia Feminina Espírito-santense de Letras (AFESL) e foi a sua primeira patrona. Participaram dessa primeira diretoria Arlette Cypreste de Cypreste, como vice-presidente, Zeni Santos e Iamara Soneghetti como secretárias e Virgínia Tamanini como bibliotecária, a elas se juntaram Ida Vervloet Finamore, Hilda Prado e outras escritoras e musicistas, o que fez com que a instituição fosse se firmando no cenário cultural capixaba.
Nos seus setenta anos de existência, a AFESL vem lutando para ser um espaço de livre produção para as intelectuais no Espírito Santo, desde os seus primórdios quando Annette de Castro Mattos, em 1950, organizou a “Vitrine literária”, primeiro registro das escritoras espírito-santenses, passando pelo programa “Mulher e perfume”, dirigido por Arlete Cyprete de Cypreste, na Rádio Capixaba, e que deu voz a muitas escritoras e artistas; a escritora Zeny Santos, que fundou a “Casa do capixaba”, o apoio dado pela AFESL ao Instituto Braile na sua criação, a criação do “Lar da Menina”, por Beatriz Nobre de Almeida e tantas outras ações das intelectuais capixabas.

É preciso criar espaços para que as mulheres do passado e do presente possam ter visibilidade, é fato. O Centro de Memória e Bens Culturais da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, em maio de 2019, realizou uma exposição de fotos e telas sobre a vida de Judith Leão Castello Ribeiro em comemoração aos 120 anos do nascimento da escritora e ex-deputada. Judith Leão foi também, a homenageada da 6ª Feira Literária Capixaba, presidida pela Academia Feminina Espírito-santense de Letras, na UFES, ocasião na qual o seu sobrinho, João Luiz Castello, ofereceu como doação à AFESL e hoje em exposição na ALES, uma estátua em bronze da escritora realizada pelo artista plástico capixaba Hipólito Alves. João Luiz doou para o acervo permanente da ALES todas as fotografias da exposição. A mostra foi uma iniciativa das Deputadas Iriny Lopes (PT), Janete de Sá (PMN) e Raquel Lessa (Pros) e idealizada pelo fotógrafo da Casa Antônio Carlos Sessa, em parceria com a AFESL. Foi graças ao esforço e a luta dessas pioneiras que as mulheres capixabas brilham, hoje, nos mais variados âmbitos da sociedade, no parlamento, nas academias, mas, ainda há muito pelo que lutar contra o preconceito de gênero e a violência. A representatividade das mulheres no espaço político ainda é pequena e o debate sobre questões importantes como a (des)igualdade e a cidadania das mulheres, especialmente das mulheres negras, devem ganhar o cotidiano.


Abraçar o legado deixados por essas mulheres excepcionais é necessário, especialmente em um momento histórico como o atual, no qual o Brasil vive um obscurantismo com relação às questões de gênero, exemplo disso é que o tema vem sendo subtraído das metas da educação nacional, acreditamos que resgatar a história de luta e conquistas de mulheres como Judith Leão Castello Ribeiro inspira os cidadãos e as cidadãs a militarem em prol da educação e pelo direito à livre expressão. 

24/01/2020

Reserva Natural Reluz inaugura em janeiro de 2020, o Ateliê RPPN Reluz, em Vitória/ES



O Espaço Terapêutico Arte (ESTARTE), inaugurado em 2013 em Jardim da Penha, Vitória/ES, a partir de janeiro de 2020 passa a chamar-se Ateliê RPPN Reluz, tornando-se extensão dos trabalhos de educação ambiental e qualidade de vida  realizados pela Reserva Natural Reluz. Estamos muito felizes com essa junção, pois a Reserva possui 12 anos e sempre atuou alinhada com o espaço, com a fusão, os serviços poderão ser amplificados.

Esse Ateliê é destinado àqueles que desejam produzir e produzir-se, criar e compartilhar experiências. Esse espaço funcionou entre os anos de 2013 e 2019 como ESTARTE (Espaço Terapêutico Arte) e agora entra em uma fase na qual assume de forma mais contundente o seu DNA ambiental.

Maiores informações pelo tel./Zap: (27) 995747410
ou pelo e-mail: renatabomfim2006@gmail.com 

24/11/2019

Alquimia (Renata Bomfim)

Teu corpo nu,
o primeiro aprendizado
sobre ti.
observo, sondo, cheiro, lambo,
tateio, sorvo, mordo, sonho
com os olhos abertos.

Cores, texturas, reentrâncias.
Marcas encharcadas de memórias.

O teu corpo nu,
rio de palavras que apenas fazem sentido
quando desaguam
nas águas do meu corpo nu.
Crescemos em volume e dizeres.

No fundo de nós o intraduzível.
No âmago, a transmutação.

Eis a matéria bruta
transformada em ouro,
divinamente conjugada.

Respondemos juntos pela vida!


RB/Vix, 24-11-2019


26/09/2019

A hybris na poética florbeliana (prof.ª Dr.ª Renata Bomfim)


A mitologia grega registra variados casos nos quais o ser humano cometeu excessos, exagerou, violando o limite que lhe foi imposto pelos deuses, o metron. Esse pecado, sempre punido exemplarmente pelos deuses ou pelo destino, denomina-se hybris. O destino, representado pela Parcas (Clóto, Laquésis e Átropos) designava o quinhão a que cada homem teria direito, o seu lote de felicidade e/ou de desgraça, de vida e de morte. Entretanto, o orgulho, a arrogância, a paixão desmedida, davam origem a nêmesis, ciúme divino, e sobre o herói recaía a cegueira da razão.
            Acteon incorreu na hybris quando observou, escondido, a deusa Diana banhara-se nua sob o luar. A deusa transformou o ousado caçador num corvo e fez com que ele fosse devorado pelos próprios cães. Aracne, exímia tecelã, desafiou Atena para uma competição acreditando que teceria mais rápido e com maior destreza que a deusa. Vencida, a ninfa foi transformada em aranha e condenada a tecer pelo resto de sua existência. Entre os inúmeros casos de hybris na mitologia destaca-se o de uma jovem que se orgulhava imensamente de sua beleza, seu nome era Medusa. Esta julgou-se mais bela que a deusa Atena e foi severamente castigada, a deusa transformou-a num ser horripilante: fez com que seu maior orgulho, seus cabelos, se transformassem em serpentes, e com que o seu olhar petrificasse aquele que ousasse fitá-la.
            Na mitologia judaico-cristã Deus fez o homem “do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente”[1]. Entretanto, este ser feito de humo[2] (humano), nunca aceitou que a sua existência, por mais breve e efêmera, se resumisse a “pó, cinza e nada”[3], ele ansiou a eternidade,  sentiu fome e sede de infinito: o homem quis ser igual a Deus.
            Orgulho, arrebatamento e desejo de eternidade fazem de Charneca em Flor um caso de hybris poética. A ousadia de Florbela Espanca, assim como a da jovem Medusa, foi punida severamente. A poetisa, pelo seu canto insurreto e prenhe de estados nascentes, foi submetida a um processo disciplinar. As suas cartas nos dão conta do quanto a poeta sofreu com a calúnias e as maledicências durante a sua vida e como, depois de morta, teve o seu nome difamado e sua obra sofreu “estapafúrdias, desencontradas e insidiosas apropriações ideológicas”, como destacou a crítica Maria Lúcia Dal Farra[4]
            O livro Charneca em flor (1919) reúne a quintessência da produção poética de Florbela Espanca. Vale destacar como, desde a nascente desta obra, e os primeiros passos para a sua materialização, Florbela Espanca dedicou-lhe especial atenção, basta observarmos a minúcia com que a poeta pensou em cada detalhe: “a capa”, “o nome depois do título”, a revisão em “absolutamente todas as folhas”, o cuidado de mandar datilografar o manuscrito para guardar o original, com receio de que este se perdesse no correio, e a pressa dos amantes que, “não espera nem mais um dia[5]”, para que o livro fosse publicado. É sabido que Florbela não viu o livro publicado, Charneca em Flor foi a sua primeira obra póstuma.
            Em Charneca em Flor variadas imagens arquetípicas femininas nos arrebatam, dominam, e nos fazem ascender o “mais alto, sim, mais alto, mais além, do sonho, onde mora a dor da vida”[6], por meio delas tocamos, epifanicamente, o sublime. De acordo com Alfredo Bosi (2000) a imagem antecede a palavra e se enraíza no corpo. Amadas ou temidas, elas iemergem nos sonhos e se perpetuam, como ídolo ou como tabu, nos rondando e enredando, pois, está imbuída de algo que lhe transcende: Os símbolos. É no mito que os símbolos emergem desvelando os registros dramáticos das experiências vividas pelo eu lírico, seus encontros e desencontros. Este teatro é encenado como por meio dos ritos. Para Luís Alberto Ayala Blanco[7] o mito cumpre outra função, ele é uma porta pela qual o ser humano passa buscando elevar-se da miséria de ser um resíduo, ou seja, de ser pequenas migalhas que refletem o devastador resplendor do princípio, como observamos expresso neste fragmento do soneto intitulado Mendiga[8]:
[...]
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber para onde vou!

Tinha o manto do sol... quem mo roubou?!Quem pisou minhas rosas desfolhadas?!
Quem foi que sobre as ondas revoltadas
A minha taça de oiro espedaçou?!

Agora vou andando e mendigando,
Sem que um olhar dos mundos infinitos
Veja passar o verme, rastejando...


            Charneca em flor expressa de maneira singular essa busca pela origem, na qual o eu “Judeu Errante”[9], não se fixa e nem  é absoluto, mas, fragmentário, plural, precário, ou seja, detentor de uma humanidade profunda. Florbela Espanca escolheu para si o mundo da multiplicidade e sua poética joga com as formas do mundo: “Visões de mundos novos, de infinitos,/ Cadências de soluços e de gritos,/ Fogueira a esbrasear que me consome!”[10]. Os mundos criados por Florbela são híbridos, incorporam a completude e a incompletude, a fragmentação e a continuidade, o orgânico e inorgânico, e esta característica confere a sua poesia, especialmente as contidas no livro Charneca em Flor, uma sedução própria da alteridade.
            No poema O meu mal [11] observamos o eu lírico examinando a origem da “ânsia estranha” que sente, e da “saudade louca” que faz de si um buscador. Tal reflexão leva-o a desafiar titãs da tradição: dogmas, preconceitos e tabus que comandam o sistema patriarcal e falocrata, depreciador da mulher e dos valores femininos e terrenos. Num ato desafiador o eu lírico florbeliano despe a “mortalha”, num compromisso radical com a vida, e faz de si a própria charneca alentejana em floração, como observamos no poema de abertura do livro, seu homônimo:
[...]
Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim
? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E, já não sou, Amor, Sóror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!
(ESPANCA, 1999, p. 209)

            O judaísmo, matriz do cristianismo, é um poderoso “protesto contra a natureza”[12] , da qual Florbela se ergue como porta-voz e representante. Esta doutrina fez com que as divindades femininas ligadas a terra fossem consideradas abominações, e com que os seus cultos fossem proibidos. Observemos que a palavra hebraica adam[13] significa “terra”, o que estabelece para a humanidade um pai-terra, Adão, e não da mãe-terra. Esta designação contrasta com as crenças que imperaram na antiguidade. Na Grécia, antes da ascensão dos deuses masculinos, o lugar mais sagrado do antigo mediterrâneo era o oráculo de Delfos, também chamado de Pítias ou Pitonisa, nome que deriva de Píton, gigantesca serpente que foi morta pelo deus masculino, Apolo. Esse rebaixamento das divindades femininas e ascensão das masculinas, fez com que o locus criativo da terra se transferisse para o céu, e com que a magia passasse do ventre para a cabeça. A mulher procriadora, bem como, o conceito de uma mãe-terra, integram a natureza ctônica combatida a milênios pelo patriarcado, e a cultura ocidental nasceu, especificamente, deste desvio da feminilidade. É aí que a poesia de Florbela Espanca, imbuída de um “ encanto mago”, adquire potência política e ideológica, evocando para o feminino, e seu representante máximo, a mulher, o lugar de direito. Florbela poetiza as múltiplas facetas do feminino, ela encarna tanto a Grande-mãe terra (Gaia): “E a erva altiva e dura do Marão/ É o meu corpo transformado em monte!”[14] , quanto a Grande-mãe cósmica (Nut): “Eu sou a manhã: apago estrelas!”[15].
            Natália Correia[16] no prefácio do Diário de último ano (1982) definiu Florbela como modelo de “sacerdotisa do feminino”, atributo venatório que iluminaria o seu ser mitológico, fazendo dela curadora e portadora de encantamentos: “Eu trago-te nas mãos o esquecimento/ Das horas más que tens vivido, Amor!/ E para as tuas chagas o unguento/ Com que sarei a minha própria dor”[17]. Observamos que na poética florbeliana as divindades femininas reprimidas retornam para participar da vida, deixam de ser ídolos fechados sobre si mesmos. A operação mítica, que transcende os espaços históricos e geográfico, possibilita as múltiplas metamorfoses do eu poético que, por meio da experimentação, pode torna-se “a charneca rude a abrir em flor”, “princesa entre plebeus”, “Aquela que tens saudade,/ A Princesa do conto: “era uma vez...”, “menina”, “Infanta do Oriente”, “Essa que nas ruas esmolou/ [...] a que habitou Paços Reais;/[...] Sereia que nasceu de navegantes.../ Essas que fui,/ As que me lembro ter sido ... dantes!” e,  muitas outras,  marcadas pelo desejo de “amar, amar perdidamente”[18].A celebração dos valores terrenos são expressos por meio do desejo do eu poético de adentrar o espaço sagrado da natureza, visto que os sentidos deste estão “postos, absortos / Nas coisas luminosas desse mundo”, o que faz com que se sinta “asa no ar, erva no chão” [19].
            No poema Podre de Cristo[20] observamos o reconhecimento da terra como o lugar gerador de sustento e abrigo: “Minha terra que nunca viste o mar,/ Onde tenho o meu pão e a minha casa”; “Minha terra onde meu irmão nasceu,/ Aonde a mãe que eu tive e que morreu/ Foi moça e loira, amou e foi amada!”. Ao fim do soneto o eu poético pede a terra que lhe alivie do cansaço da errância: “Sou um pobre de longe, é quase noite,/ Terra, quero dormir, dá-me pousada”. A terra guarda mistérios que não podem ser explicados pelo eu, apenas vividos, a “alma da charneca sacrossanta”, que é “Irmã da alma rútila” do eu lírico, encontra expressão. A chuva diz “coisas que ninguém entende”, dela, “Uma alada canção palpita e ascende,/ Frases que a nossa boca não apreende”, ao passar pelo rosto desperta “o lúgubre arrepio/ Das sensações estranhas, dolorosas...”. \o eu poético vivencia a tudo isso reconhecendo-se parte do mistério da vida guardada na morte: “Talvez um dia entenda o teu mistério...,/ Quando, inerte, na paz do cemitério,/ O meu corpo matar a fome às rosas!”[21]

Leia o artigo completo AQUI.

Outros textos sobre Florbela:

O AMOR NAS POÉTICAS DE FLORBELA ESPANCA E RUBÉN DARÍO. / Revista Interdisciplinar/ UFSE

Florbela Espanca e o devir monstro de uma poética fragmentada./ Revista Criola/USP



20/09/2019

Esmaltes e Camafeus: o imaginário nos contos de Guilly Furtado Bandeira (Renata Bomfim)



Guilly Furtado Bandeira entre acadêmicos paraenses


A Academia Espírito-Santense de Letras (AEL), em 2011, publicou a obra fac-similada de Guilly Furtado Bandeira, Esmaltes e Camafeus. Originalmente lançada em 1914, esse foi o primeiro livro de autoria feminina escrito por uma mulher capixaba. Natural de Vitória (ES), Guilhermina Tesch Furtado era filha e neta de militares, e foi acompanhando o pai que a escritora se mudou para a Província do Pará. Na capital, Belém, Guilly participou ativamente da vida intelectual paraense, sendo convidada para integrar a Academia de Letras do Pará. Francisco Aurélio Ribeiro no texto Mulher na academia: histórico e desafios, nos saber que o significado de Academia remonta o tempo de Platão, se chamava “jardim de Academus”, o lugar onde o filósofo grego dava aula a seus discípulos, “todos homens”. O fato de Guilly ser uma das primeiras mulheres admitidas em uma Academia de letras no Brasil abre a possibilidade para que reflitamos sobre questões como a (des)valorização da escrita de autoria feminina e, especialmente, sobre a inserção das mulheres na ordem do discurso. Podemos compreender melhor, hoje, o significado real e simbólico dessa participação de Guilly como acadêmica, se observarmos que, desde os misóginos gregos[1], as academias foram templos do saber destinados apenas aos homens.  Uma breve visada histórica  permite constatar que foi a partir do Barroco que as academias deixaram de ter a acepção de escolas e passaram a ser consideradas locais de culto as letras, as artes e a ciência, onde homens destacados se reuniam, sendo esses espaços vetados às mulheres. Houve a rainha Cristina, da Suécia, mulher culta que “protegeu as letras e as artes, atraindo para sua corte numerosos eruditos, dentre os quais Descartes”. Entretanto, vale destacar que falamos de uma rainha, condição excepcional em relação as outras mulheres. A pesquisadora André Michel, na obra O feminismo (1979) chama a atenção para a ausência de personagens femininas na história, ela afirma que a história delas se esqueceu e que apenas algumas são lembradas, mas isso graças ao fato dessas desempenharem funções aceita pelos homens como “feminina”, e a literatura não é uma delas.  Convém lembrar que “entrar para a história” tem sido um valor disputado. Pertencer a esta “grande narrativa”, que Elizabeth Fox Genovese chamou “história de governantes e de batalhas”, significava, e ainda significa, prestigio.  A autora declara que “neste tipo de história não havia lugar para as mulheres. “Pensemos que, o nome de algumas escritoras chegaram até nós, geralmente, temos acesso a vestígios de suas obras, um exemplo é “Safo, poetisa nascida na ilha de Lesbos, em torno de 625 a. C. A partir do século XVIII Teresa Margarida da Silva e Orta (1711-1793), considerada a primeira romancista em língua portuguesa, é um nome destacado, a escritora nasceu em São Paulo, mas mudou-se para Portugal com a família ainda menina.  Teresa Margarida da Silva e Orta (1711-1793) que é tataravó da escritora portuguesa Maria Tereza Horta, foi presa e encarcerada por sete anos no Mosteiro de Ferreira Alves, onde  escreveu  um poema épico-trágico e centenas de máximas, cujos manuscritos só foram publicados em 1993, em Obra Reunida. A obra mais conhecida dessa escritora é Aventura de Diófanes (1752), que teve a primeira edição brasileira publicada em 1945 (RIBEIRO, 2015). Muitos são os casos de escritoras cujos ecos das vozes chegam até nós, mas, em se tratando de Academia de Letras, a aceitação de uma mulher pressupõe a aceitação do lugar de escritora como igual.  Na Academia Brasileira de Letras (ABL), após muitas discussões, Rachel de Queiroz foi recebida como imortal, em 14-10-1976, no discurso de posse a escritora declarou: "Não entrei para a ABL por ser mulher. Entrei porque, independentemente disso, tenho uma obra”. No Espírito Santo, a recusa da Academia Espírito-Santense de Letras (AEL) em receber mulheres no seu quadro de membros, fez com que as escritoras criassem a sua própria academia, a Academia Feminina Espírito-Santense de Letras (AFESL), em 1949. Foi Judith Leão Castello Ribeiro (1898-1982), professora, primeira deputada Estadual (1947) e primeira Presidente da AFESL, a primeira membro mulher da AEL, e em seu discurso intitulado “Recompensa” a escritora falou da honra em abrir as portas daquela septuagenária instituição para suas companheiras (RIBEIRO, 2010).  O pioneirismo de Guilly Furtado Bandeira, como destacou Josina Drummond (2011, p. 226) está, principalmente, no fato desta “ter enveredado pelo universo das letras numa época em que a educação das moças era voltada exclusivamente para as prendas do lar”. O nome de Guilly encontra-se   citado na Antologia da Cultura Amazônica, organizada pelo escritor paraense Antônio José de Lemos (BANDEIRA, 2011, p. 210).  
Autora de crônicas, contos, ensaios e poemas, Guilly escreveu por mais de trinta anos. Os textos da escritora transitaram entre o Parnasianismo e o Simbolismo, demonstrando preocupação com a linguagem, vocabulário esmerado e erudição. Ribeiro (BANDEIRA, 2011) destaca que as imagens presentes na obra de Guilly “distanciam-se de qualquer temática feminista”, pouco sabemos sobre a vida da escritora, mas no dia 31-07-1925, em uma entrevista concedida a Revista Vida Capichaba, ela falou um pouco sobre si (1,44m, 35 anos, amante do marido e dos filhos, nascida no Espírito Santo, mas, residente no Rio de janeiro). Nessa ocasião, Guilly, nos faz saber sobre o seu posicionamento quanto ao feminismo: “...é um movimento necessário para transmutar a mulher coisa, objeto de uso, no indivíduo livre, consciente e responsável, capaz de ser a companhia do homem moderno e a fatora da geração de amanhã.”(Vida Capichaba. Vitória: Ano II, no. 50, 31/7/l925).
Embora não se defina feminista, a escritora imprime na sua obra um caráter de resistência que coaduna com os valores do movimento, especialmente através da denúncia da condição da mulher e da explicitação do desejo de reconhecimento e igualdade em relação aos homens. Esmaltes e Camafeus foi publicada no Rio de Janeiro, pela prestigiada Editora Garnier, a mesma que publicou obras de Machado de Assis e de Júlia Lopes de Almeida, esse livro formado por trinta contos de temática variada apresenta ao leitor um espaço narrativo diverso onde esse poderá transitar, pelas terras do oriente, Madri, Egito, Índia, Amazonas e por um lugar “de toda felicidade”, espaço ideal, cujo acesso é possível, apenas, por meio do sonho e do devaneio.
            É sabido que as mulheres estão representadas nos discursos e no repertório de imagens de variados tempos, entretanto, essas representações imagéticas e discursivas foram feitas, na sua grande maioria, por homens, e são marcadas por estereótipos e reducionismos. Como bem destacou a escritora Lúcia Castelo Branco (1989, p. 17), “essa imagem construída pelo homem não coincide com a mulher, não é sua réplica fiel, como crê o leitor ingênuo”. É fato que até bem pouco tempo “as mulheres não representavam a si mesmas”, e essa ausência de registro se acentua ainda mais quando, na mistura de gêneros, usa-se o masculino plural (eles), fazendo com que a participação d(elas), em diversas ocasiões e movimentos, seja obliterada (PERROT, 2007, p. 21).  Assim com Castello Branco, Michelle Perrot (2007, p. 25) acredita que “É, sem dúvida, necessário abandonar a ideia de que a imagem nos traz um painel da vida da mulher”, entretanto, Margareth Rago (1992, p. 71) salienta que há “a necessidade de não menosprezarmos as fontes e projeções que embalaram os sonhos de uma época”, antes, devemos nos empenhar na busca do conhecimento de uma determinada sociedade visando compreender “a dimensão do [seu] imaginário nos múltiplos sentidos possíveis e enquanto constituinte do real”.
Esmaltes e Camafeus (2011) faz um inventário de representações da feminilidade que merece apreciação. As múltiplas representações albergadas nessa obra perfilam tanto imagens de mulheres luxuriosas e pecadoras, quanto de outras essencialmente castas e virtuosas, trazendo à tona questões emblemáticas do universo feminino e denunciando variadas formas de violência a que as mulheres estiveram e ainda estão sujeitas. Nesse corolário, alguns modelos femininos são antípodas e se embatem. No conto primeiro da obra, intitulado “Dolores”, nos deparamos com a personagem homônima, uma jovem que fugiu de casa “numa noite de desvario, arrastada pela impetuosidade de um afeto insano, [...] para entregar-se unicamente a paixão que a alucinou”, mas, após um ano, a jovem encontrava-se “emagrecida e andrajosa, [...] envelhecida pelas amarguras e desditas”, a vagar com um filho recém-nascido nos braços pelas ruas de Madri (“Dolores”, 2011, p. 1). Observamos que Guilly atenta para a questão onomástica, o nome Dolores, é, assim como a personagem, de origem de origem espanhola e significa dores, surgindo vinculado a imagem da Virgem Maria, ¾ “Maria de los Dolores” ¾,  também conhecida como Virgem da Amargura, Virgem das Angústias ou simplesmente La Dolorosa. Dolores era nome dado as meninas que nasciam no dia das sete dores de Maria. Em se tratando dessa importante representação feminina, vale destacar que pouco se sabe a seu respeito, chegam-nos sobre a sua vida as informações que estão contidas no Novo Testamento da Bíblia Sagrada, onde esta é descrita como  mãe de Jesus Cristo, o filho de Deus, cuja concepção realizou-se por obra do Espírito Santo e de forma “imaculada”, ou seja, sem a existência de relação sexual (dogma da imaculada conceição). Maria é venerada desde o século XII, considerada Rainha e Mãe da igreja medieval, essa imagem é a afirmação da vitória do espírito contra o corpo. Perrot (2007, p. 64) destacará que “para os pais da igreja, a carne é fraca. O pecado da carne é o protegido e mais terrível dos pecados”. Assim, o sexo das mulheres deveria ser vigiado e a virgindade tornou-se um “valor supremo”.
Dolores, extraordinariamente, vivencia um grande sofrimento,assim como as dores da Virgem Imaculada, entretanto, ela não possui mais o atributo essencial, a virgindade.  Ao entregar-se a um homem antes do casamento e engravidando, ela  acompanhará o sofrimento do filho até que este morra. O conto narrado na terceira pessoa e ambientado na Espanha, a protagonista é natural de Alcalá, região madrilenha descrita como “a vila pitoresca onde nascera Cervantes”. A jovem Dolores, depois de muito penar, já não possui “a beleza de outr’ora” e se recorda da juventude, quando vivia sem preocupações junto aos pais e era “idolatrada”. A beleza, atributo muito valorizado nas mulheres, é um elemento destacado em vários contos de Esmaltes e Camafeus, bem como o seu oposto, exemplo disso é a personagem Marcellita, do conto “Suprema ambição” (2011, p. 95), que mostra a marginalidade e a vergonha de uma jovem pária na sociedade porque é feia e de “espírito enfermiço”, por conta “das constantes leituras de Goethe”. A aparência de Dolores denuncia a sua condição, “o semblante macerado” traduz as “agonias de uma vida miserável de infortúnios e martírios” (BANDEIRA, 2011, p. 5). Ao se entregar aos arroubos da paixão, a personagem é considerada uma pecadora e a dor é a maldição bíblica por excelência: “Tu darás a luz na dor”, diz Deus a Eva ao expulsá-la do paraíso. Ao contrário da Mãe de Jesus, a maternidade para Dolores não será “aureolada” e nem cercada de cuidados e amor. Embora a condição de “mãe” seja valorizada na Sociedade Ocidental, e se apresente como uma identidade aceitável para a mulher, no caso de Dolores representou o banimento de sua terra natal. Nesse sentido, a nossa protagonista se aproxima da feiticeira, de Lilith, mulher/demônio cuja sexualidade não possui freios,  representação considerada perigosa. Essa personagem põe em evidência o destino da mulher que decide dispor livremente do seu corpo. Decaída, a “infeliz pária do destino” vive uma tragédia pessoal e silenciosa.
            Dolores rompe com o estabelecido ao adquirir consciência de sua condição[2]. O martírio e a culpa vivenciados, paulatinamente, vão cedendo ao ódio pelo reconhecimento de que a situação na qual ela vive não é culpa sua, mas de uma sociedade desigual. É durante uma noite de janeiro, na invernosa cidade que parece “morta” com suas ruas desertas, que Dolores sente na carne o frio e a fome. A personagem perambula sem destino sob uma chuva forte que encharca tudo, a sua vulnerabilidade é plena, ela está só e não possui nada, além da frágil criança “de corpito frio” envolta em trapos que ela leva “apertada ao peito”. Nesse momento de desorientação ela ouve soar o sino da Catedral, são sete horas da noite. Até então Dolores não perdera a fé e um fio de esperança ainda resistia a se romper. Em alguns momentos, vinha a sua mente a imagem de uma “casita muito branca alvejando ao luar...”, entretanto, ela escuta o barulho de “risadas argentinas” e “gritos de satisfação”, e percebe que existem pessoas que vivem uma realidade totalmente diversa da sua. As festas nos salões iluminados com “crianças loiras e felizes”, “entezinhos ditosos, que gargalhavam felizes cheios de calor” e “rodeados de calor e luxo, sem fome e sem miséria”. Essa visão levou-a se perguntar por que existia tanta injustiça na terra. A visão da catedral irá reacende no coração chagado da personagem uma “esperança vivificante”, e ela se lembra do tempo em que rezava e era devota.  Em 1927 a escritora concedeu outra entrevista a Revista Vida Capixaba, na qual afirmou que era Perfeitamente” possível se viver sem religião, pois essa é “muita vez um estorvo na vida” e que “dela necessitam os mutilados morais, que não podem caminhar sem muletas”, a escritora declarou, ainda, que compreendia a religião como “um culto máximo da perfeição física, ética e intelectual” que “tem o seu templo na natureza e na própria alma humana”. A visão da escritora pode ser observada na ideologia de algumas personagens.  Ao depara-se com o passado de devota, Dolores entrou na igreja vazia e ajoelhou-se, uma prece levou-a para o passado em Alcalá, “torrão idolatrado”, mas, repentinamente tudo escureceu, pois, o vácuo “da ventura, no coração vazio do afeto que a desvairou”, lembrou-a “das noites sem luz nas trapadeiras infectas, o abandono, a fome...” (BANDEIRA, 2011, p. 8). Foi então que ela sentiu o peso do filho nos braços e não conseguiu mais orar. Esse filho era o “alento supremo” de sua vida, ela sofria ao ver o “pobrezito” choramingando de fome e frio em seus braços, compartilhando com ela a “miséria” das “noites de vigília e os dias de fome que secaram o seu leite” (BANDEIRA, 2011, p. 5). Invadida pelo desespero, Dolores “procurou, ainda, um sentimento bom nos recônditos do peito e só encontrou ódio a tudo, uma raiva latente e despedaçadora a todos, muito fel, muita amargura” (BANDEIRA, 2011, p. 8). Indignada, ela fugiu da igreja, “templo enganador onde a levara uma crença fictícia”, foi assim que “a blasfêmia fugiu-lhe dos lábios num rancor indizível, exalou-se do coração e evolou-se de sua alma: ¾Deus não existe!” (BANDEIRA, 2011, p. 9). O conto termina de forma emocionante, com Dolores caída desfalecida à porta da Catedral, sendo encontrada pela manhã, “estendida numa súplica muda”, “apertando ao seio o cadáver do filho”, essa imagem remeteu-nos imediatamente para a Pietá, uma das mais famosas esculturas feitas por Michelangelo, que retrata a dor da Virgem Maria ao ter nos braços o corpo do filho morto. Dolores entrevia, ainda, “enevoada, na penumbra do sonho, como a miragem falaz, entre folhagens e flores, a casinha muito branca alvejando ao luar” (BANDEIRA, 2011, p. 10).
Michele Perrot (2007, p. 84) ressalta a relação “ambivalente e paradoxal” existente entre as mulheres e a religião, destacando que as religiões monoteístas fizeram da diferença dos sexos e da desigualdade de valor entre eles o seu fundamento: “a hierarquia do masculino e do feminino lhes parece da ordem de uma Natureza criada por Deus”. A igreja oferecia abrigo às mulheres ás custas de sua submissão e os conventos se tornaram lugares de confinamento.
O conto Sóror Martha (“Sóror Martha”, 2011, p. 60), narra a história de uma freira italiana,¾ possuidora de uma “calma, plácida e morna”¾, que teve a sua vida sacrificada no mosteiro, “túmulo” que sepultou para sempre a Giovannina que ela fora um dia”. Nesse conto, deparamo-nos com outra personagem feminina emblemática, que assim como Dolores, se tornou “sombra de si mesma. O conto, agora divide a sua ambientação, a Giovannina vivia em Veneza, na Itália, depois se exila num convento em local não descrito. Certo dia ela viu que “sobre as águas suspirosas do golfo estendia-se o veleiro”, e foi de lá que ecoou a voz “suava de um gondoleiro amoroso” que a prendeu “como a mariposa insensata”. Aos quartoze anos de idade Giovannina se deixou dominar “pela irresistível tentação dos loucos amores”. Abandonada e com o “coração dilacerado”, a jovem abraçou o manto: “sob o hábito negro das freiras também palpitam corações despedaçados, a viver das ruínas de sonhos para o eterno morto...”. A freira, sem saída, se ri, ri, ri, sempre, e todos a julgam “a mais feliz da irmãs” e acreditam que a “vocação fervorosa a fez freira”. Mas a personagem esclarece o horror da vida monástica nessas condições: “achas que a vida monástica é uma delícia? Dizes que há aqui a cobiçada paz, a tranquilidade eterna” que no convento “não viceja o egoísmo da espécie, o desejo da glória, a ambição orgulhosa do poder. Como te enganas!”. Esse conto remeteu-nos para o drama contemporâneo “o rato no muro”, de Hilda Hilst, obra de 1967, na qual um grupo de freiras, entre as rezas, compartilha misérias pessoais e limitações impostas por um muro do qual apenas um rato, tornado personagem, terá a possibilidade de atravessar. A impossibilidade de realização e liberdade é um analisador importante nesse conto que dialoga com outras obras da literatura. Outro exemplo é dado pela freira Sóror Violante do Céu, conhecida como Fênix dos Engenhos Lusitanos, no texto poético  intitulado “Vozes de uma dama desvanecida de dentro de uma sepultura que fala a outra dama que presumida entrou em uma igreja com os cuidados de ser vista e louvada de todos; e se assentou junto a um túmulo que tinha este epitáfio que leu curiosamente”, nesse poema a morta dá conselhos a outra jovem e diz: “Aprende aqui lições de escarmentada, Ostentarás acções de prevenida./ Considera que em terra convertida Jaz aqui a beleza mais louvada, /E que tudo o da vida é pó, é nada, /E que menos que nada a tua vida.”A postura da freira de Esmaltes e Camafeus é parecida, ela conta a sua experiência de vida, a sua dor, para que a jovem narratária não cometa os mesmos erros, garantindo, assim, um destino diferente do seu, pois Sóror Martha se considera “um cadáver que se putrefaz, lento e lento, entre as paredes úmidas” de uma cela escura. Entretanto, ela confessa: “ninguém, jamais, me viu uma lágrima, rio, rio sempre...”.
Entre as representações femininas em Esmaltes e Camafeus (2011) encontramos, a personagem Haïma (“Haïma”, 2011, p. 110), prostituta de luxo que culpa os homens por sua condição e pela condição das mulheres que se tornam “traídas” quando ela exerce a profissão. “Como tudo isso me pesa”, diz a protagonista do conto, “cada brilhante que fulga engastado no oiro d’essas pulseiras” que envolvem o meu braço evoca uma alma de mulher que sofre, “as safiras, os rubis, as esmeraldas e os topázios são talvez as lágrimas das esposas esquecidas e dos filhos abandonados. Dos braços do homem amado, Haïma afirma ter caído “nos braços de todos”, assim, tanto ela quanto as demais heroínas dos contos abordados, narram histórias de traição e abandono, entretanto, com a impossibilidade do casamento e a recusa da vida no convento, sobrou para Haïna o prostíbulo. Denis de Rougemont na obra O amor e o ocidente (1988) faz-nos saber que desde a Idade Média o casamento figura como um sacramento, e que aos olhos da igreja o adultério era um sacrilégio, ou seja, um crime contra a ordem natural e a ordem social, este sacramento santificava os interesses fundamentais da espécie (procriação) e os interesses da cidade. Nesse sentido, a prostituição, atividade ancestral, começou a ser registrada e regulada a partir do século XII, com o avanço das cidades, sendo organizada, delimitada a algumas áreas e controlada pelo governo. A imagem da prostituta é oposta a da redentora, que tem como seu modelo ideal a Virgem Maria. Há entre o modelo feminino ideal, Maria, e o da pecadora, Eva, e o da prostituta arrependida, Maria Madalena que, tocada pela palavra de Cristo arrependeu-se de todo coração. Haïna atribui à culpa que sente e, tanto o seu destino, quanto o destino das esposas e filhos abandonados, ao homem:

Ah! È o homem, é o homem com seus vícios que fingindo endeusar a mulher, chafurda-a na miséria, na lascívia e até no crime para satisfazer seus apetites, perverter-lhe o espírito, [...] é o pior inimigo. Explora-nos a juventude e a nossa fraqueza, [...] trazem nos lábios a peçonha da mentira que intoxica a alma, mata as aspirações e enfeitam-nos de joias... para que brilhemos. Pobres pirilampos! O que brilha é a virtude. [...] Que culpa tenho eu, esposa traída, se teu marido abandona o leito conjugal, teus beijos puros, tua boca imaculada, para desfalecer nos meus braços, embriagar-se nos meus lábios? (BANDEIRA, 2011, p. 113).

A personagem declara: “Eu ainda tenho alma” e, “a vida da pecadora é uma encenação”, “Eu sou a mercadora de amor, o amor em mim é um ofício”. A imagem da prostituta arrependida reforça a tragédia do feminino enquadrado no modelo patriarcal, marcados pela divisão, pelo ilhamento e pela incompreensão mútua, as mulheres que buscaram fugir de qualquer um desses modelos patriarcais foram oprimidas, perseguidas e até mesmo mortas.
A tragédia da vida de Dolores se aproximará da de Cléria, personagem do conto “Uma vingança do destino” (2011, p. 168). Abandonada grávida por Alcimar, um boêmio jogador, “frequentador de cassinos e clubes noturnos”, Cléria se vê desassistida com um filho recém-nascido. Ela é descrita pelo narrador como uma “flor de estufa delicada e frágil”, assim como Dolores, “flor gentil”. Antes de “ser dominada pelas sedutoras promessas de Alcimar”, entregando-se “vitima passiva” ao homem que “soube conquistar-lhe o coração” sua vida era diferente. Emergem na personagem as lembranças e ela busca abrigo no sonho, lugar diverso da realidade, local das utopias, somente nesse domínio será possível um destino diferente. Frente à tamanha incerteza quanto ao futuro e desestruturação, a recordação pode se apresentar como uma forma de reestruturação psíquica. Frederick Mayörcker (apud CIPLIJAUSKAITÉ, 2007, p. 24) defenderá que ao se apertar o “botão para o passado”, emerge no centro da consciência “algo de grande intensidade e com dinamismo própria”, que funcionará como ponto de irradiação para múltiplas possibilidades de associação”. Dessa maneira, uma aparentemente simples recordação pode pressupor um despertar da consciência da personagem rumo a alguma forma de afirmação. Cléria lembra-se de ter experienciando ser “o astro fulgente dos salões de Escól”, agora, ela recorda-se dos pais “a envelhecerem de desgosto” e pensa nas amigas casadas, “mais ou menos felizes”, que encontraram no casamento, se não a felicidade, um porto seguro. Findo o “conto de fadas da mocinha tola”, a personagem constata que esta “só e mãe” (2011, p. 171).
Em discurso direto, Cléria faz um apelo comovido ao pai da criança: “¾ Nem ao menos te compadeces de teu filho, Alcimar. Que será de mim no mundo, só, sem arrimo e sem alento, sem um braço amado para guiar-me, com uma criança no regaço, repudiada, escarnecida, porque quis viver para o teu amor?” (BANDEIRA, 2011, p. 170). Alcimar visitou o menino apenas uma vez, entretanto, voltaria a vê-lo anos mais tarde, quando velho e falido invade uma casa para roubar e acaba assassinando um jovem médico, o próprio filho, em uma reviravolta trágica do destino. Há nesse conto, marcado por mágoas, silêncios e vazios, uma mãe abandonada, com medo, que suplica ajuda ao pai da criança apoio na criação do menino, o final do conto, embora trágico, indica que Cléria, de certa forma, foi exitosa, pois a profissão de médico é valorizada, e demonstra um percurso de trabalho e empenho para ser conseguida.
Aosanita (BENDEIRA, 2011, p. 11), do conto homônimo é uma pianista que “se impusera como artista e dominara como mulher”. Essa personagem não é mãe como as que vimos anteriormente, ela é artista. Essa mulher refinada e culta desdobrava-se para alcançar a perfeição: “era em vão que ela se enlevava em interpretar páginas e mais páginas dos grandes mestres, com a inspiração e o sentimento dos que sabem sentir, em vão o piano gemia dulçuro, em suspiros dolentes [...]. Entretanto, havia alguém ao seu lado, ouvindo-a impassível e com bocejos de tédio, incapaz de acompanhá-la nos seus transportes” (BENDEIRA, 2011, p. 12). A pianista conseguira agradar a todos com a sua arte, menos Elsenor, que assistia ao concerto que lhe consagrara com indiferença e enfado.
Aosanita apresenta uma situação sócio-cultural diferente das outras personagens abordadas, ela é uma artista que alcançou reconhecimento: “trazia ainda a ressoar-lhe nos tímpanos o som uníssono dos aplausos delirantes; [...] era a glória a acenar-lhe dos pórticos da Arte” (BANDEIRA, 2011, p. 11). Entretanto, uma lembrança amarga lhe assombra, embora tenha tocado muitas almas com “a harmonia mágica do som”, Elsenor se mostrava indiferente. A personagem é destacada como “irrepreensivelmente elegante, trajando o leve vestido cor de rosas murchas e tendo entre os seios uma papoula ensanguentada, destacando-lhe a palidez da emoção do instante, da sensação de tocar em público” (BANDEIRA, 2011, p. 14).Entretanto, ela não compreendia porque lsenor, que “suplicara o seu concurso para essa festa caridosa, para pequeninos órfãos e infelizes viúvas” mostrava-se indiferente. Ela acabara o conserto como quem “acorda de um sonho longo, sem a sensação do tempo e do lugar” (BANDEIRA, 2011, p. 15). Com um sorriso triste nos lábios a personagem pergunta: “onde achar a alma desse homem extraordinário?”, O sol nasceu e a manhã encontra Aosanita ainda “no enlevo doloroso de quem vê fanar-se a mais cara ilusão de um grande sonho” (BANDEIRA, 2011, p. 16).
Outras personagens de Esmaltes e Camafeus levantarão questões relevantes a serem observados pela crítica literária.  Há Rosilda, do conto homônimo. Mulher de “espírito culto e investigante”, que “não era o tipo banal da nossa vulgaridade feminina”, era “uma dessas criaturas que deslizam pela vida, sonambulizando, com o epíteto de espíritos degenerados, a que o vulgacho denomina, geralmente, perdidos (BANDEIRA, 2011, p. 27). Rosilda, também, assim como as outras personagens, “se teve crenças e ilusões ¾ matou-as”, pois “sabia reconhecer o seu valor”, sua postura emancipada era vista como loucura por muitos, mas, isso não a abalava. A personagem exporá a sua visão sobre o homem:

É o homem o indivíduo que, por ser a perfeição do reino animal, é o mais imperfeito dos racionaes. Nelle enxergo apenas um elemento de procreação. E o amor, essa luz fulgurante que traz como ofuscada e te queima, é um goso que nos vem do sofrer. O soffrimento enerva; é o veneo das almas, o corruptor da humanidade que se depaupera. [...] Talvez não creias, mas não choro nunca. Aos teus olhos não parecerei mulher. Sei sentir e por isso mesmo não tenho lágrimas (BANDEIRA, 2011, p. 29).

Emancipada, Rosilda é conhecedora do seu valor, mas é uma representação que mostra uma imagem fratura do feminino, ela “nunca chora”. A galeria feminina se amplia e nos deparamos com Sulmar (“Sulmar”, 2011, p. 33), A jovem de “olhos garços e indolentes” tinha dentro de si uma “vida íntima, toda luz e claridade, [...] possuía, como toda criatura, a loucura bendita de um ideal inacessível”. Dividida entre dois amores, a protagonista do conto lida com o dilema de ter que escolher entre dois homens: Rodolpho, poeta cuja alma é cheia de quimeras e que lhe acalenta o espírito, e Amir, que ela amava com loucura e nos braços de quem “fremia numa voluptuosidade lânguida”. O “amor espiritualizado” de Rodolpho alimentava a “alma enferma de Sulmar com arroubos histéricos e delírios de sonhos”, mas ela “vivia, porém, dos beijos de fogo de Amir e amava-o com delírio” (2011, p. 35). O desejo de Sulmar é claro: “queria-os ambos”. A pesonagem Zillah (“Zillah, 2011, p. 38), escrava mestiça que, por amor e por ciúmes, comete dois assassinatos e se suicida; põe em xeque a condição da mulher escravizada, ente privado de direitos básicos e duplamente subalternizado.
Esse breve olhar sobre alguns contos da obra revela a sua amplitude temática associada ao universo feminino, mas, outros contos trazem como protagonistas personagens masculinos como o timoneiro Naoh, um hindu exilado que sofre a pena de ser acusado de um crime que não cometera e que aspira vingança; o conto “O velho piloto” apresenta Franco, um marinheiro leitor de “o navio negreiro”, de Castro Alves e em cujo “peito brazileiro” havia o “orgulho de ser brazileiro!”; no conto “A felicidade”, Claudomir, “visionário da utopia”, que sonha encontrar uma mulher a quem possa amar, mas esse era poeta, epíteto que lhe garantia, apenas, o desprezo: “Que escarneo! E ousa levantar os olhos para uma mulher da sociedade”, quando o “paladino do sonho” enfim se casa com Corina, essa não lhe compreende e, escuta os seus versos com enfado. Carlos, protagonista no conto “Os pórticos do mundo” é um ex-seminarista que se apaixona pela “diva cobiçada das grandes rodas”, “rainha da beleza, deusa da formosura”, uma “Eva terrível”. Considerado um “paspalhão” pelos amigos por ser tímido: “Grande pedaço de asno!”.
Nos deparamos com outros dois poetas, “o lendário Rabbi, o bardo divino da Galiléia longínqua, o poeta das turbas”, Elle..., como era chamado, carregava um embrulho que, ai cair, revelou ser o corpo de uma criança morta, possivelmente seu filho; e Altino, “pobre poeta bohemio” que escreve seu primeiro livro aspirando vendê-lo, ficar conhecido, rico e dar uma vida melhor a sua mãe pobre e doente: “O meu livro é a minha esperança. Que importa que eu escreva com fome, tendo lágrimas nos olhos e desesperos no coração? Ninguém o sabe”. Um “amigo”, um “bonifrate endinheirado”, que se oferece para publicar a obra de Altino. O poeta só saberá acerca da obra quando a vê elogiada no jornal e tendo como autoria o famigerado “amigo”  que era “herdeiro de um dos nomes mais ilustres”, assim ele assiste o impostor ser aclamado como “mestre” e ser transformado em “redator” pelos jornais. Outros contos com temáticas diversa integram Esmaltes e camafeus, inclusive uma tradução do esperanto de H. Sienkiewicz, intitulada “Sê Bemdita” (BANDEIRA, 2011, p. 75).
Observamos que as personagens femininas criados por Guilly Furatado são marcadas pela errância, pelo abandono, pela dor e por amarguras que encenam a via crucis da condição da maioria das mulheres na história. Esmaltes e Camafeus (2011) possui marcas relevantes da escrita de autoria feminina, entre elas a tentativa de recuperar, por meio da escritura, a consciência amputada da mulher, entretanto, nos deparamos com a impossibilidade da escritora do que Jürgen Serke chamou de “visão utópica”, ou seja, a impossibilidade de pensar as suas personagens para além do sofrimento e da dor, assim como, uma identidade não cerceada pelos costumes e nem definida pela relação com o homem. Essa é uma obra que, de certa forma, não rompe com o ideário feminino de sua época, ela cimenta esse rompimento para as escritoras contemporâneas, pois, de grande arrojo para a sua época, se3 volta para questões identitárias femininas, como a liberação/aprisionamento do corpo. Ribeiro nos faz saber que Guilly não fugiu a critica misógena do início do século XX. Michel Foucault, no texto O que o autor? Apontou para a importância da função deste para o controle dos textos. Foucault afirma que: “Os discursos “literários” não podem mais ser aceitos senão quando providos da função autor: a qualquer texto de poesia e de ficção se perguntará de onde ele vem, quem o escreveu, em que data, em que circunstância ou a partir de que projeto”, e isso se deve ao fato de que no primeiro quartel do século XX, o discurso feminino emergia apresentando-se como uma ameaça à ideologia dominante. José Veríssimo, um dos mais respeitados críticos do inicio do século XX, que definiu Esmaltes e Camafeus como “literatura de moça”, ele aponta “uma reminiscência perigosa” despertada pela obra, referindo-se ao Esmaltes e Camafeu, livro de poesia de Théophile Gautie, de 1852. Veríssimo reconhece o “cosmopolitismo” de Guilly, entretanto, adverte que “esse tipo de “imaginação cosmopolita”, em não se tratando de Shakespeare, “é arriscado”. Guilly se casou em 1914, com Raimundo Bandeira, e do Pará mudou-se para o Rio de janeiro, o casal teve dois filhos. A escritora formou-se em Direito em 1928, ¾ única formanda em uma turma de homens ¾, trabalhando no Ministério da Educação e Saúde, entre 1953 e1967, onde se aposentou. Viúva, Guilly voltou a residir no Espírito Santo, em Vila Velha, junto com o filho, quando falece em 1980, aos 90 anos. A edição fac-similada produzida pela Academia Espírito-Santense de Letras (AEL) foi uma importante homenagem à mulher conhecida como sendo a nossa primeira escritora publicada, e aponta mudanças significativas na recepção da escrita de autoria feminina na contemporaneidade.

Referências:

- BONNICI, Thomas. Teoria e crítica literária feminista: conceitos e tendências. Maringá: Eduem, 2007.
- CIPLIJAUSKAITÉ, Biruté. La novela femenina contemporánea: hacia uma tipologia de la narración em primera persona. Barcelona: Santaré de Bogotá, 1994.
- MICHEL, Andrée.  O feminismo: uma abordagem histórica.  Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
- PEDRO, Joana Maria. Traduzindo o debate: o uso da categoria gênero na pesquisa histórica. Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/his/v24n1/a04v24n1.pdf>Acesso em 05 ago 2016.
 - SHOWALTER, Elaine.  A crítica feminina no território selvagem. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque (org.). Tendências e impasses. O feminino como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. pp. 23-57.
- XAVIER, Elódia. Narrativa de autoria feminina na literatura brasileira: as marcas da trajetória. Revista mulheres. Rio de Janeiro, 1999. Disponível em:  Acesso em 20 fev. 2013.
- ZOLIN, Lucia Osana. Literatura de autoria feminina. In ZOLIN, Lúcia Osana & BONNICI, Thomas (orgs.). Teoria literária: abordagens e tendências contemporâneas. 3 ed. rev. e ampl. Maringá: Eduem, 2009.


[1] O preconceito dos gregos contras as mulheres pode ser revelado em citações literárias como estas, de Eurípides (c. 485-406 a. C), por exemplo, diz que “Que a mulher é um flagelo desmedido [...], perniciosa criatura”,  e declara o seu ódio, especialmente, a (mulher) “inteligente”, pois é antes nas espertas que Afrodite inocula o pecado; para finalizar Eurípedes, na obra Medéia, põe na boca de Jasão a fala: “Se fosse possível ter filhos de outro modo, não mais seriam necessárias as mulheres e homens estariam livres dessa praga!” (RIBEIRO, Trad. Mário da Gama Kury).

[2] Béatrice Didier (apud, CIPLIJAUSKAITÉ 1994, p. 39) estabelece uma diferença entre o funcionamento da memória na mulher e no homem, ente ambos a diferença dependerá da percepção do tempo, para a mulher a concepção de tempo atuará de forma bergsoniana, num contínum e não deixará de existir, já no homem, é sempre “um retorno ao Outro, enquanto a mulher volta ao mesmo.