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18/07/2007

Os gatos, as bibliotecas e a literatura

Navegando pela internet, encontrei, esta semana, dois sítios curiosos. O primeiro levou-me ao segundo. E, ambos, a este texto.

No blog da jornalista Cora Rónai (www.cora.blogspot.com), num arquivo de 14 de abril deste ano, encontrei uma simpática referência ao Library Cats Map (www.ironfrog.com/catsmap.html), cujo projeto é catalogar os gatos que vivem e "trabalham" em bibliotecas de todo o mundo. Pode parecer surpreendente, mas dezenas de gatos, espalhados pelos países mais diferentes, demonstraram - como sempre! - sabedoria e escolheram viver no melhor dos ambientes: em meio aos livros. Na longa relação, alguns desses maravilhosos felinos têm, além de um breve histórico, uma ou mais fotografias: um, dorme entre os in-fólios; outro, refestela-se sob um naco de sol, ao lado dos arquivos; com a pata delicadamente pousada sobre a página, simulando o gesto de folhear o livro, o terceiro expressa um olhar vago, semelhante ao dos filósofos quando meditam.

Gatos e livros são, realmente, uma combinação perfeita. Nenhum outro animal sabe respeitar o silêncio e a introspecção de quem possui o hábito de ler. Ou, analisando melhor, nenhum outro animal compartilha tão intimamente desse silêncio e desse olhar mudo, com que investigamos o nosso íntimo. Eles guardam o que Cecília Meireles chamou de "soberana melancolia" e, ao olharem para nós, investigando as nossas angústias,

brota nos seus olhos erguidos
o arco-íris, resumo do dia,
ressuscitando dos seus olvidos,
onde apagado cada um jazia,
abstratos lumes sucumbidos. (1)

Charles Baudelaire apreciava mergulhar nesse olhos "de ágata e aço"; olhos que, para Pablo Neruda,

deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite (...). (2)

E se Cecília Meireles afirmava que eles "proclamam a monarquia da renúncia", para o poeta chileno o felino é como um

pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas (...).

Poetas das mais diferentes estirpes inspiraram-se nesses seres que parecem carregar, na elasticidade dos passos e na independência em relação aos homens, um segredo que a Semiótica ainda almeja desvendar.

T. S. Eliot escreveu, inspirado nesses enigmáticos animais, um conjunto de poemas - Os Gatos - que reúne preciosismo de linguagem, rigor estético, muito bom humor e, originalmente escrito para ser lido aos seus afilhados, acabou por se transformar num sucesso da Broadway. Nenhuma outra descrição de um gato pode superar a do seu "gato mago Mefisto-Félix":

Ele sempre te engana que tem gana
De andar à caça apenas de "peixinhos".
Tira tudo do estofo da casaca,
Faz milagres com a caixa-de-surpresa;
Se um garfo lá se foi ou falta a faca,
E achas que te enganaste ao pôr a mesa -
O talher que inda há pouco evaporou-se
Surge num fosso como se osso fosse! (3)

A fleuma felina é carregada de um leve desprezo. Impassíveis, aparentando superioridade e, até, uma certa arrogância, eles nos conquistam e, como julgou alguém, nos domesticam. Byron estava certo: "O gato possui beleza sem vaidade, força sem insolência, coragem sem ferocidade, todas as virtudes do homem sem vícios." E Mark Twain, com desculpável pessimismo, também acerta: "Se fosse possível cruzar o homem com o gato, melhoraria o homem, mas pioraria o gato."

Absolutos, plenos, únicos, independentes e visceralmente higiênicos, eles também sabem ser afáveis, mas sempre com distinção e nobreza. Na literatura brasileira, Manuel Bandeira foi quem melhor sintetizou todas essas qualidades:

Jardim da pensãozinha burguesa.
Gatos espapaçados ao sol.
A tiririca sitia os canteiros chatos.
O sol acaba de crestar os gosmilhos que murcharam.
Os girassóis
amarelo!
resistem.

E as dálias, rechonchudas, plebéias, dominicais.
Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçom de restaurant-Palace
Encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
- É a única criatura fina na pensãozinha burguesa. (4)

Meus dois gatos - o mais velho, sentado sobre o Houaiss, ao meu lado, e o mais jovem esparramado no sofá - olham-me e parecem, além de entender-me, concordar comigo. O primeiro inclina-se na minha direção, com os olhos faiscando num verde ambíguo, e, mostrando que sua intimidade com minha biblioteca não tem sido vã, sugere-me o final deste artigo, sussurrando-me, ao ouvido, uma frase que creio ser de Jean Cocteau: "Prefiro os gatos aos cães, porque não há gatos policiais."

Notas
(1) Os Gatos da Tinturaria, Cecília Meireles.
(2) Ode ao gato, Pablo Neruda.
(3) Tradução de Ivo Barroso.
(4) Pensão familiar, Manuel Bandeira.

Texto de Rodrigo Gurgel
Fonte: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=696

Um comentário:

renata disse...

Ninguém mais suspeita que eu para falar de gatos, comecei com uma, a Lili, e já cheguei a ter cinquenta.

Nunca receci amor maior de um ser humano que o amor que recebi e recebo de meus gatos, loucura? pensem o que quiserem...

Mas, afirmo, ter gato é uma dádiva!!!