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24/09/2007

Tempo e Realidade em Ficções de Jorge Luis Borges

Renata Bomfim - UFES

Jorge Luis Borges (1899- 1986) inovou a narrativa contemporânea pela singularidade de sua escrita ficcional, que influenciou significativamente o movimento vanguardista argentino, como também grandes escritores, cineastas e críticos de todo mundo. Inscrita na primeira etapa do século XX, tempo de problematização e negação de todos os conceitos. Bella Josef, estudiosa da obra borgiana, no Livro Jorge Luiz Borges, nos esclarece que: “A formulação estética de Borges desconstrói o modernismo: transforma a realidade e fragmenta o tempo relativisando a forma em sua crítica do sujeito. Com isso, anuncia a pós-modernidade” (JOSEF, 1996, p. 47).

A obra borgeana tem como característica intrigante à criação outros mundos regidos por leis próprias, sua escrita busca abalar as realidades objetivas, concretas e fixa, presas às leis do tempo, e para tal utiliza elementos variados como o labirinto, vastos espaços que se desdobram infinitamente, caminhos sem fim, rodas e labirinto linear e cíclico.

Tais características podem ser observadas no seu livro de contos intitulado Ficções, editado em 1944. Nesta obra são desfeitos os limites entre o real e o fantástico e, tempo e realidade comparecem conferindo aos contos uma multiplicidade de sentidos que possibilita ao leitor inúmeras interpretações.

Certa vez Borges afirmou: “Durante toda a minha vida cheguei às coisas depois de havê-las transitado nos livros” (JOSEF, 1996, p. 30). Para Borges o livro é uma metáfora do universo. O Conto intitulado A Biblioteca de Babel, apresenta-nos uma biblioteca labiríntica infinita, de galerias que se repetem. Borges aplica a metáfora do labirinto à trajetória do homem, devido sua imprevisibilidade, mostra o homem preso ao labirinto do tempo, peregrino, o labirinto é também uma metáfora da tessitura textual que é inesgotável:

Afirmo que a biblioteca é interminável. Os idealistas argúem que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto ou, pelo menos, de nossa intuição do espaço. Alegam que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (BORGES, 2001, p. 92).

[...] A Biblioteca existe ab aeterno. [...] Atrevo-me a insinuar esta solução do antigo problema: A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um viajante atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que reiterada seria uma ordem: a Ordem). (BORGES, 2001, p. 93 -100 ).

Ainda no mesmo conto, percebe-se o ser humano buscando respostas para problemas que não tem solução, pois são questões impossíveis de se responder: “[...] também se esperou, então, o esclarecimento dos mistérios básicos da humanidade: a origem da biblioteca e do tempo”. (BORGES, 2001, p. 100).


A narrativa de Tlön , Uqbar, Orbis e Tertius, nos apresenta a descoberta, ao acaso, de um mundo paralelo e desconhecido construído por meio da linguagem, chamado Uqbar, a partis da conjunção de um espelho e de uma enciclopédia. Este mundo é a imagem inversa do mundo real, é uma imagem em um espelho imaginário, onde as coisas se projetam e duplicam. Acerca desse planeta imaginário criado pelo conhecimento humano, o texto nos diz:

[...] quem são os inventores de Tlön? O plural é inevitável, pois a hipótese de um único inventor [...] fora descartada unanimemente. [...] Esse plano é tão vasto que a contribuição de cada escritor é infinitesimal. [...] Conjectura-se que este breve new Word é obra de uma sociedade secreta de astrônomos, de biólogos, de engenheiros, de metafísicos, de poetas, de químicos, de algebristas, de moralistas, de pintores, de geômatras, dirigidos por um absoluto homem de gênio. (BORGES, 2001. p. 37).

Em Tlön , Uqbar, Orbis e Tertius, Borges cria uma nova realidade que nega o tempo e nos mostra a visão do autor acerca da angústia do homem que pretendem encontrar uma explicação racional para o universo, e a realidade vê-se ameaçada de ser tragada pela fantasia “O mundo será Tlön”.

O conto As ruínas circelares, aborda variados temas recorrentes obra de Borges entre os quais a circularidade captada nos níveis do tempo e do espaço. O conto narra a história de um homem velho, um “mago”, que se refugia nas ruínas circulares de um templo que foi consumido pelo fogo. Seu intento era criar outro homem: “O propósito que o guiava não era impossível, ainda que sobrenatural. Queria sonhar um homem: queria sonhá-lo com integridade minuciosa e impô-lo à realidade”. (BORGES, 2001, p. 66).

O homem percebeu que moldar a matéria de que é feita o sonho é tarefa árdua, e reviu seu fracasso e buscou outra tática para realizar seu intento, “abandonou toda premeditação de sonhar” e para retornar a tarefa executa um ritual de purificação, [...] e quase de imediato sonhou com um coração que pulsava, [...] cada noite percebia-o com maior evidencia” (BORGES, 2001, p. 68)

A ambição de criar um homem tão perfeito que se impusesse à própria realidade, mostra a busca de Borges de vencer o tempo e a sucessão a que estamos imersos, é alcançar a eternidade. Para Pommer “a eternidade seria uma invenção humana capaz de dar sentido às nossas vidas fugazes, já que o tempo, é algo que nos escapa por completo à compreensão”. (POMMER, 1991, p. 149).

Ao final do conto o mago descobre que também ele é criação do um sonho de um outro. Segundo Bella Josef, Borges recorre ao tempo cíclico em suas narrativas para justificar a permanência de um mesmo fato ou objeto em muitos lugares. Deseja a intemporalidade do tempo, anulado em sua unicidade. [...] a simultaneidade ou repetição cíclica, que leva ao tema da criação e ao tema do labirinto. [...] A fantasia é mais real que a própria realidade e nela tudo se repete. [...] Se o tempo é cíclico deixa de existir o tempo cronológico. (JOSEF, 1996, p. 140).

O filho sonhado vai gradualmente acostumando-se a realidade, mas não sabe que é um simulacro, um fantasma. O mago consegue realizar o intuito de sua vida, e numa espécie de êxtase entrega-se ao fogo para ser consumido. As ruínas circulares mistura planos: “Não ser homem, ser a projeção do sonho de outro homem, que humilhação incomparável, que vertigem. [mas o mago] com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era a aparência, que outro o estava sonhando. (BORGES, 2001, p. 72).

O mago ao descobrir-se também uma projeção, um simulacro sonhado por um terceiro, sente um alívio, pois há uma desconstrução da individualidade, o sujeito tendo sua individualidade diluída, torna-se parte de algo maior que ele, de um tempo fora do tempo, de um tempo mítico.

Nos conto A forma da espada, o protagonista dirá: “O que faz um homem é como se todos o fizessem”. (BORGES, 2001, p. 133). Ao serem abolidos passado e futuro, resta ao homem o tempo presente. Santos nos diz que “a destruição do tempo, anula conseqüentemente o individuo e dá ao universo um caráter eterno” (SANTOS, 1996, p. 72). Este conto mostra a busca do homem borgiano pela imortalidade, lutando incessantemente contra o tempo.

Enquanto a realidade for regida pelo tempo, e este for o limitador da realidade humana, não haverá nunca uma possibilidade do homem retirar a máscara e descobrir seu verdadeiro rosto. A possibilidade de encontrar-se só pode ser vislumbrada num mundo atemporal, em um mundo não limitado pelo tempo sucessivo e temporal. (SANTOS, 1996, p. 81)

Segundo Cerqueira, na obra de Borges, o tempo é um eterno retorno, e por isso não se pode afirmar que este mundo é real, mas um simulacro, uma máscara. [...] por isso não podemos decifrá-lo. Sendo assim, o homem que o habita é também um simulacro, pois repete os mesmos atos mecanicamente há séculos. Por ser prisioneiro do tempo, o eu, que é Borges, só se pode experimentar no fluir deste, que devora toda a realidade (CERQUEIRA, acesso em 30 nov. 2006).

Fruto de uma imaginação privilegiada, o livro Ficções é uma aventura imaginativa que busca discutir a pretensão da linguagem em ser a expressão fiel da realidade. Nele Borges constrói um caleidoscópio, cujos espelhos, a cada momento, surpreende-nos com novas possibilidades de desdobramento de imagens.

Referências:

- CERQUEIRA, Dorine. Joege Luis Borges e a narrativa fantástica. Disponível em: < http://www.hispanista.com.br/>. Acesso em: 30 nov.2006.
- JOSEF, Bella. Jorge Luis Borges. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S. A., 1996.
- JOSEF, Bella. Uma estética da inteligência. In: Jornal do Brasil, 1999.
- POMMER, Mauro Eduardo. O Tempo Mágico em Jorge Luiz Borges. Florianópolis: Editora da UFSC, 1991.
- PINTO, Júlio Pimental. Uma memória do mundo: Ficcção, memória e história em Jorge Luis Borges. São Paulo: FAPESP, 1998. p. 167- 175.
- SANTOS, Ana Cristina. Algumas reflexões sobre o infinito na obra borgiana. In: anuário brasileiro de estudos hispânicos, n. 6, 1996. p. 71 – 81.
- SANTOS, Ana Cristina. O Tempo e a Morte em Borges: “As Ruínas Circulares”. In: América Hispânica. Ano V, n. 7. 1992.

9 comentários:

Anônimo disse...

Você sabe me dizer se um texto que rola por aí pela internet com o título "Instantes" é do Jorge Luiz Borges, como está sendo atribuído?
Não gosto de passar textos adiante sem ter certeza da autoria.
Agradecida.

renata disse...

Cara, infelizmente não sei te dizer, fiz este artigo estudando para o mestrado...
mas busca no google acadêmico se não encontras referencias dele em algum livro.
abraços
re

Fabiano Venturotti disse...

Eu também me preparei para o mestrado da UFES, estudei Borges e não vi nenhuma menção sobre algum título denominado "Instantes". O nome é bem propício para Borges ou para os borgianos...

Ei Renata, tenho também um artigo que escrevi sobre Borges, vc poderia postá-lo para mim no seu blog?

renata disse...

Manda fabiano, será uma prazer publicar seu texto!!!
abraços
re

Cacau disse...

Quero ler com calma esse post... conheço pouco de Borges, mas ele muito me interessa!

A defesa foi excelente, a dissertação do Rafael foi indicada para publicação. Valeu a pena assistir. Dá vontade de ler a dissertação dele!

Quais são seus outros dois blogs?

Bjs.

Cacau disse...

Eu te empresto o livro sim, ok?

Anônimo disse...

Renata, o texto ao qual me referi, no post do dia 27/09 é esse:

INSTANTES

Se eu pudesse viver novamente minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido, na verdade bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida; claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feito a vida, só de momentos, não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda chuva e um pára-quedas; se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.

renata disse...

Olá cara, que bom trocar idéias!!!
Olha, aos meus olhos pouco treinados em borges, de tampa digo que não me cheira ser do borgeano... andei buscando na net e muitos criticos concordam que não é de Borges, inclusive o Feitosa do Jornal de poesias...
Internet é uma faca de dois legumes, eheheheheh...
Muitos textos circulam como sendo de Jabour, de Drummond, etc... acho que não deves citá-lo, ou repassa´lo como sendo de Borges, mas achei um poeminha gostosinho de ler...

Anônimo disse...

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