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29/10/2013

"Melancolia" (poemas de Renata Bomfim)

I.
Eu preciso dizer
Antes que os pássaros
Se calem.

II.
Perdoa-me por pensar em morte,
Quando a vida urge ao nosso redor.
Por despertar o fantasma da finitude,
Enquanto ainda estamos embriagados
Pelo gozo.
Perdoa por essa escuridão intraduzível
Que habita o meu peito:
Poço sem fundo,
Labirinto de Minotauros anões.
Perdoa-me por ser poeta,
E por não ser uma apenas.
Por este nó na tua garganta,
Esfinge a te devorar.
Perdoa-me...

III.
Quando estou feliz
Da vida,
Logo fico triste.
Ah, consciência!
A felicidade não existe,
É pura ficção.

IV.
Passei por Portugal,
Espanha e África
Como uma borboleta...
Posei aqui, ali,
Bebi néctares, 
(anonimamente)
Mas, estou satisfeita!
Trouxe para a poesia
Aromas e pólen.

V.
Não quero falar de mim,
Quero esquecer que existo,
Quero esquecer de falar,
Não quero falar esqueci.

VI.
Sou um herói derrotado,
A caricatura de Dom Quixote,
Uma farsa!
Os castelos que defendo são de areia,
São feitos de palavras os meus combates,
O espólio da minha derrota:
A dignidade!
O castigo a mim infligido:
Banimento para os campos
Da realidade.

VII.
Não posso estar aqui,
Não permitem.
Não posso sentar á mesa e
Nem rir da piada ridícula.
Não posso levantar a cabeça
Nem antes e nem depois.

Vivo o interstício da noite fria.

VIII.
Silêncio,
Deixa eu ouvir
O som da noite,
Ser o orvalho da flor
Ressequida.
O tempo logo trará o sol
Na carruagem de ouro,
E com ele o momento
Propício para a tua voz.

IX.
Ah! Se eu pudesse me desfazer,
Ser este nada que ocupa o universo,
Essa coisa sem nome, endereço,
Sem haveres...
Eu seria um lampejo de devir.

X.
Meus olhos vêem o que
Nenhum outro vê.
Escuto os sussurros do silêncio,
Tateio o infinito.

O escuro abissal é meu espelho.

XI.
O meu homem
Escuta versos,
Põe fé na minha filosofia,
Traz café na cama e
Afaga os meus cabelos.
O meu homem diz:
Bom dia!
Mas, se irrita quando
Falo de morte...
Ele cuida do meu gato
Rega a laranjeira.
E para mudar o tempo
Faz amor com todas
As mulheres que eu sou.


XII.
Os campos de Évora
Parecem salões de baile,
Onde as oliveiras rodopiam
Leves e brejeiras
Ao som do vento.


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