* Hello, my friends! welcome to letra e fel! If you like this space, please share it with your friends.
* Dzień dobry, drogi czytelniku, witaj w blogu Letra e Fel! Dziękujemy za wizytę. Jeśli nasz blog ci sie spodobał, poleć go swoim znajomym.
*!Hola! , amigo lector. Sea bienvenido y si le gustó mi blog, recoméndelo a sus amigos!
*Cher lecteur, soyez le bienvenu! Veuillez conseiller notre blog à vos amis si vous l'avez aimé. Merci beaucoup!

08/01/2014

"Ouvir sereias": ensaio crítico de Renata Bomfim sobre a novela Estela y Lázaro, vertiginosamente, do escritor espanhol Pedro Sevylla de Juana

Site do autor PSdeJ
Ouvir sereias...

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo/ Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,/ Que para ouvi-las, muita vez desperto/ E abro as janelas, pálido de espanto...”. 

Estes versos do poema “Ouvir estrelas”, do brasileiro Olavo Bilac, há décadas encantam os leitores. A obra Lázaro e Estela Vertiginosamente, escrita por Pedro Sevylla de Juana, é feita desta mesma matéria: beleza e assombro, mas, apenas o leitor desperto poderá escutar o canto que vem das profundezas do texto e ouvir as sereias. Esta obra é fruto de uma tentativa de reparação, ela traz a luz e-mails que desvelam a relação amorosa entre Lázaro Céspedes Arjona, escritor, tradutor e professor de literatura, e sua aluna Estela Boinder Sintes, publicitária. 
Esta história envolve de forma irremediável, outras histórias de amor e amizade, como por exemplo, as vividas pelas personagens Sabrina Baccio e Amanda Meire. Essa “correspondencia-río” a cada dia se tornará mais íntima e acabará por desembocar “en un océano de erotismo y entrega”. A obra põe em xeque o status do sujeito contemporâneo, esvaziado das verdades absolutas, de caráter teatral, sempre em busca, sempre em via, Ulisses vencido buscando a única verdade possível e capaz de salvá-lo, o amor, risco no qual estão empenhados tanto quem ama, quanto o objeto de amor, ou seja, o ser amado. O amor é de todos os mitos o mais belo e, de todas, talvez, a realidade mais verdadeira. Estela e Lázaro vertiginosamente oferece ao leitor a possibilidade conhecer detalhes dessa relação que se revela deveras real, embora seja virtual, e mostra também o poder abrasivo da palavra, como bem destacou Lázaro: Ahí destaca el poder de la palabra, el poder del deseo sobre la palabra. El efecto es real, demasiado real”. 
Conhecer a intimidade alheia é um fetiche contemporâneo, basta observarmos a profusão de diários íntimos e epistolografias publicadas. Entretanto, penetrar na intimidade dos personagens da obra em questão, sondar seus sonhos e fantasias, bem como, ter ciência de suas fraquezas e potencialidades, é a possibilidade de termos uma aula sobre a autenticidade do amor, esse “não querer mais que bem querer”, “contentamento descontente” como cantou Camões. 
O leitor deve se colocar num “para além”, tanto dos julgamentos morais, quanto das convenções sociais, pois, para penetrar os arcanos da paixão, do desejo, da sedução e do amor, senda da qual ninguém sai igual, ou incólume, é preciso vulnerabilidade, é preciso transgredir normas, regras e interditos. Lázaro sabe que a divisão entre os sexos é algo cultural e pernicioso, e se orgulha por pertencer a um pequeno grupo de pessoas no mundo que arrisca viver valentemente o cadinho de felicidade que lhe é devido: “Vuelvo de un viaje muy largo. Soy Ulises, y regreso a Ítaca buscando el amor de Penélope, mi enamorada esposa Estela, que espera mi regreso con esperanza inextinguible”. Estela Boinder Sintes é Penelope e também é “la sirena que dirigía el coro, cuando, atado al palo mayor de mi barco, escuché su canto irresistible”. Metamorfoseada pelo desejo do amado, torna-se também, "Estrella marina, estrellamar, estrella en el cielo sobre el mar, [...] Estrella polar, guía de los marineros en su derrotero nocturno”,“hetaira virgen”, a única mulher capaz de capaz de transformar Lázaro nos heróis admiráveis das obras que ele traduziu. 
Foi o desejo de aprender que levou Estela a se aproximar do poeta e novelista, Lázaro era duro e não admitia qualquer pessoa na sua aula, mas a fluidez verbal de Estela, o seu otimismo e firmeza o seduziram. Para Estela Lázaro, além de “Maestro del placer”, era uma escuta amorosa, o apoio que ela necessitava, um porto no vasto oceano da solidão: “Me gusta oírte y contarte mis cosas, me gusta que me digas las palabras más obscenas mientras nos acariciamos desnudos. [...] mi amor, mi vida, mi hombre...”. 
O erotismo na obra é premente, e vale destacar aspiração de realização no aqui e agora que é próprio do desejo: “No hay futuro, y lo sabemos. Lo importante es que existe presente, un presente continuo”, destacou Lázaro. E foi o desejo de liberdade no instante levou o casal virtual a criar um mundo particular: "No te parece maravilloso, cervatilla? […] tenemos una casa virtual, formamos una pareja virtual”, destaca Lázaro, e Estela confirma: “Lo siento tan vivo que no lo cambiaría por la realidad”. União fértil e imaginitiva que gerou uma criança virtual, uma menina chamada Aurora. EstelaLibre é a residência do casal, “un terreno de libertad” onde cada um pode se expresar da sua maneira, tanto como é, como quanto deseja ser. Livres da “autocensura, sin prejuicios ni reproches”. Neste espaço privilegiado, onde “palpita un sentimiento común de admiración, respeto, deseo, estima, amor, amistad, atracción”, que os “esposos eternos de una eternidad que ha de durar mientras el amor y el deseo duren”, podem ficar juntos: “mi novia virtual, la luz de mi vida; ya estoy en casa. Entro anhelante de hablar contigo, cargado de deseo”. 
O desejo é a relação entre seres humanos carentes. Os amantes são enredados em um jogo de afetos que denuncia uma falta que demanda satisfação. Observem a forma desejosa como Lázaro descreve Amanda Meira, sua esposa, a “entrañable Maga: “heredera de indígenas tupiniquim brasileños y continuidad de la vida. Es animal, vegetal y mineral; es fuego y es aire. Es la naturaleza, lo palpable y lo etéreo. […] cuatro años menos que yo y con rasgos indelebles de mulata”. Amanda é uma personagem intrigante, o seu silêncio na obra é ruidoso, especialmente quando sabemos acerca dos traumas de seu passado. A amizade de Amanda com Sabrina Baccio indica a potência da obra, capaz de abarcar variadas formas de afeto, amizade e companheirismo.  
A bissexualidade de personagens como Estela e Sabrina é insinuada, tanto no âmbito do real, quanto da fantasia, enquanto a de Sônia e Sara é explícita. Lázaro encontra em Estela o desejo e a aceitação que já não encontra mais em Amanda: “Ignoro cómo será mi sexualidad futura, pero sin ti va a decaer, sin tu estímulo perderá empuje y vigor”. Sabrina põe fim à correspondência amorosa entre Lázaro e Estela motivada por “sentimientos fuertes: amor, amistad, celos, rabia”. Foi também Sabrina que levou ao narrador, parte importante da trama, os e-mails para que fossem publicado. Observamos que no jogo amoroso o ser humano veste múltiplas máscaras e, mais que ocultar, ele revela o seu status: precário, marcado pela finitude, ser que não possui atributos divinos, e que para ascender e tocar o infinito precisa de outro ser: “Anoche en mi soledad habitual me abrazaste y mimaste, besaste mi cuello y mi pelo y después de gozar me dormí en tus brazos”. 
Pedro Sevylla de Juana nos possibilita conhecer mundos que apenas os poetas são capazes de criar, mundos multidimensionais, vinculados a humanidade, no qual a fraqueza se transforma em força, e valores como a amizade e a generosidade superam as mesquinharias da vida cotidiana, enfim, vem mostrar que a linguagem, para além da vida prática, pode responder as necessidades da vida afetiva. Muitos outros personagens integram este imbricado texto: filhos, netos, primos, sobrinhos, políticos, cantores, cada um deles atuando estrategicamente na trama, os lugares também são importantes. 
Há ainda Carme Esther Miravet, “artista de nervio y estirpe”, criadora da capa do livro, eu, Renata Bomfim, autora destes apontamentos e admiradora da escrita do autor Pedro Sevylla de Juana, e o autor, o que não é simplesmente um elemento em um discurso, e que além de desempenhar um importante lugar enunciativo na obra, nos convida para embarcar no seu veleiro de papel para ouvir as sereias.

Renata Bomfim
poeta brasileira


Fonte: Este texto foi primeiramente publicado na Revista de Cultura PROTEXTO

Nenhum comentário: