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14/03/2014

O caráter transformador da Arte e da Criatividade (Renata Bomfim)

“O homem cria não apenas porque quer, ou porque gosta, e sim porque precisa; ele só pode crescer, enquanto ser humano, coerentemente, ordenando, dando forma, criando.”
Fayga Ostrower

Fayga Ostrower (2007) declarou que o ato de criar só pode ser compreendido em sentido global, pois, a natureza criativa do ser humano se elabora no contexto sociocultural. Criar diz respeito a dar forma a alguma coisa, consequentemente, a ordenar, configurar, e esta ação fundamental humana possui um caráter simbólico.
Estamos sempre em busca de significados, cada ato do ser humano traz em si o gérmen da compreensão, e a projeção de nossa ordem interior. Significar para, então, produzir, eis a alavanca da produção humana. A matéria plasma o desejo! A arte não é ciência e a ciência também não é arte, mas, esses campos espirituais se tocam e complementam como nos faz saber C. G. Jung (1991): “o intelecto não consegue explicar nem muito menos entender a essência do sentimento”. Não podemos esquecer que trazemos dentro de nós a mentalidade mágica de nossos ancestrais que, diferente da forma como lidamos com as angustias e mistérios do existir, dispunham lado a lado, e sem grandes conflitos, a religião, a arte e a ciência. Portanto, evocamos aqui uma atitude de parcimônia ao refletirmos sobre a natureza da arte e da criação artística, é preciso uma espécie de abandono, de despojamento, especialmente dos preconceitos e dos radicalismos.
Será que a arte realmente significa? Já se questionou Jung (1991, p. 66) na década de 1920. Bem, ela pode não significar e nem ter sentido alguma “arte é beleza, e nisso ela se baste a si mesma”, destacou o pai da teoria dos arquétipos. As indagações sobre o sentido da arte, não tem haver com a obra de arte em si, e nem com o que foi produzido, mas, com o indivíduo que a produziu. Para o conhecimento faz-se necessário um deslocamento do processo criativo, este precisa se tornar imagem para que possa ser analisado. A arte não é produto ou derivação, antes, um imbricado processo consciente/inconsciente de reorganização criativa. Jung (1991, p. 63) afirmou que “o anseio criativo vive e cresce dentro do homem como uma árvore no solo do qual extrai seu alimento”. Criar é, portanto, revelar quem somos, é desnudar-se, abrir-se para a alteridade, fazer-se outro a partir do encontro consigo mesmo. Os processos subjetivos se tornam conscientes na medida em que são expressos, eles ganham forma, nome, cor, a partir da imposição de critérios de escolha elaborados pelo criador, eis um fato que não pode ser ignorado.
Nós herdamos características biológicas e qualidades comportamentais inatas que moldam as nossas consciências, mas, a estas se relacionam os fatores culturais. A partir de variados influxos buscamos interpretar os fenômenos que nos cercam, a traduzir e a ler o mundo. Os valores culturais funcionam como filtros que fazem com que as nossas escolhas estejam subordinadas a premissas que, de maneira alguma, isentam os valores culturais. Assim, ao falarmos de criação, podemos compreender o porquê é impossível desvinculá-la dos fenômenos culturais. A língua, por exemplo, é um balizador do imaginário e do pensamento, Ao selecionar as palavras e falar, ou escrever, o ser humano lança mão de um acervo cultural próprio que fará a mediação entre a sua consciência e o mundo. Na língua, desencadeado o processo imaginativo, o objeto real e físico se desloca para o real do objeto, ou seja, “a palavra evoca o objeto por intermédio de sua noção”, motivo pelo qual “o ser humano pensa e imagina dentro dos termos de sua língua, ou seja, das propostas de sua cultura” (2007, p. 21).
A criatividade é um bem que ultrapassa a esfera coletiva e alcança a social. Ela fomenta não apenas a realização pessoal, como afirmou Torre (2005), mas também o desenvolvimento social. Criar tem haver com desenvolver potencialidades, gerar e alimentar idéias, enriquecer a cultura.
Todo construir é um destruir, afirmou Fayga Ostrower (2007), a crise é um fator que estimula a criação. Atuam de forma dialética, durante o ato criativo-criador, valores como a liberdade e o limite. Pessoas criativas são, geralmente, pessoas complexas e possuidoras de um mundo interior plural e multifacetado. Seria um equivoco definir uma pessoa criativa, pois, dentro delas pululam multidões e se expressam múltiplas vozes sociais que, por fim, darão conta de comunicar os conteúdos coletivos do repertório humano.
O potencial criador se realiza na busca do homem por captar a realidade e cristalizá-las em forma de comunicação. A produtividade sendo liberada ao invés de se esgotar, se amplifica e desdobra. Criar não implica um esvaziamento e nem uma substituição da realidade objetiva, antes, é uma intensificação do viver, e um vivenciar-se no fazer.
A motivação é um fator relacionado à criatividade e está imbuída de fatores psíquicos que impelem ao fazer. É através do trabalho que o homem elabora o seu potencial criador, ou seja, a criação se desdobra no trabalho. Ostrower (2007) argumenta que “nem na arte existiria criatividade se não pudéssemos encarar o fazer artístico como trabalho, como um fazer intencional produtivo e necessário que amplia em nós a capacidade de viver”. As ações do ser humano, seja nas artes, nas ciências, na tecnologia ou na vida prática e cotidiana, defende Ostrower (2007), derivam de uma mesma sensibilidade, assim, irmanam-se os princípios ordenadores que regem o fazer e o pensar. Esta sensibilidade única parte da individualidade dando forma, por meio da linguagem e da imaginação, a subjetividade. É na matéria que a linguagem se materializa, fornecendo-nos referenciais para a comunicação, possibilitando ordenações e compreensão de sentidos vários.
A matéria orienta a ação criativa, o que reforça a nossa crença no dialogo entre criador e criatura. Ao ser transformada a matéria não perde o seu caráter, antes, ela se ela diferencia, se transforma e ganha significado. Eis um dos mistérios da criação, ao configurar a matéria, o homem configura a si mesmo, se transforma. Criando, o homem se recria, deixa a sua marca, se afirma, simboliza, reflete, indaga, ou seja, a partir da criação modificamos nossa percepção, nosso enfoque vivencial e valores.
Inerente à condição humana, a criatividade provém de áreas ocultas de nosso ser, das quais não temos controle e, muitas vezes, nem mesmo conhecimento, pois são processos inconscientes. Os impulsos inconscientes adentram os processos criativos, bem como o arcabouço de vida do ser criador, suas vivências, seus valores, sonhos, angústias. Os processos conscientes não se desvinculam do processo criativo, ao contrário, é parte importante deste, por ser uma das dimensões humana. Os humanos são seres complexos, e não devem ser considerados em partes, a humanidade é plural e multifacetada, nesse contexto, as unilateralidades são uma forma desequilíbrio expresso por meio da doença. Muito se fala sobre a intuição, na maioria das vezes esta é considerada algo externo, mas ela faz parte deste não saber, que é saber inconsciente, e parte integrante dos processos de criação, assim como a percepção. A intuição é uma forma de conhecimento. No trabalho o homem intui, ele recebe sugestões da matéria e, a partir de conhecimentos já incorporados, faz escolhas e novas perguntas.
Ao nos confrontarmos com novas realidades precisamos ordená-las, pois estas nos chegam inteligíveis, estes conteúdos, aliados ao contexto, ganham sentido e significado. Valores caros às organizações, como a inovação, muitas vezes são identificados como criação, mas esses são, na realidade, uma parte integrante e necessários ao processo de criação. Criar está para além da pura e simples invenção, visto que pressupõe dar forma a um conhecimento novo, que não está desvinculado da globalidade. Assim, inventar e criar são coisas diferentes, a invenção não vem imbuída de etapas que se desdobram, ela é algo novo, original, já a criação é processo.
Na contemporaneidade, muitas vezes, o conceito de valor se confunde com o de preço. Para a experiência de vida não existe preço. A autenticidade de uma pessoa não é algo comprável ou vendável, nem mesmo numa sociedade de consumo voraz como a nossa a experiência de vida pode ser reduzida a uma mercadoria. Eis uma grande falácia, valorar o dinheiro incorretamente. As realizações humanas não devem objetivas trazer lucro financeiro. Hoje, infelizmente, se o produto gerado pela criação não se tornar consumível pelo mercado, ele será tido como dispensável:falácia das falácias.
O esvaziamento existencial provém desse processo de negligência do que é essencial, não podemos nos furtar das escolhas, dos julgamentos de valor, da reflexão constante e das conseqüências. A crise humana pressupõe a crise da criatividade. O excesso de individualismo compromete a criação, que nunca é uma questão, apenas, individual. A individualidade é um valor humano importante, ela é parte do acervo da humanidade, mas mesmo esta, depende de outro ser para estruturar-se. Acredito que o homem, desde os primórdios da civilização, buscou imprimir sua vontade à natureza, processo que culminou em um modelo mental de cunho colonialista, que na contemporaneidade se mostrou insustentável. Emerge a necessidade de uma nova forma de agir e de pensar que esteja pautado no dialogismo.
Há muito o ser humano vive alienado de si mesmo, afirma Ostrower (2007), agora, esse ser esquecido da sua origem (húmus), se depara com múltiplos desafios, é pressionado, convocado a desempenhar variadas funções, bombardeado por uma quantidade astronômica de informações. Adepto desse modo de viver ele extrapola o ritmo orgânico da vida e, contraditoriamente, ao invés de se integrar como ser individual e social ele se fratura e aliena.

Renata Bomfim
Arteterapeuta e educadora socioambiental
(www.sersustentavel.org) 

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