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14/07/2015

Ronaldo Cagiano: reflexões agudas de um escritor sintonizado com seu tempo (por Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos)

Nascido na cidade mineira de Cataguases, Ronaldo Cagiano viveu quase três décadas e Brasília, onde teve intensa atuação nos meios literários, alcançando repercussão nacional com sua obra, por diversas vezes premiada. No início dos anos 2000, mudou-se para São Paulo. Poeta, ficcionista e crítico literário, é dotado de aguda visão crítica das mazelas sociais de nosso país, aliada ao raro destemor em apontar com firmeza os responsáveis pelo empobrecimento cultural que hoje vivemos.  Seu livro mais recente é O Sol nas feridas e tem inédito o romance Diolindas, escrito em parceria com a escritora Eltânia André, sua esposa.

Ter nascido e vivido até o início da fase adulta em Cataguases, terra de importantes figuras de nossas letras, contribuiu de algum modo para que se tornasse escritor? Que figuras de Cataguases exerceram influência que considera decisivas em sua formação como escritor?
A tradição cultural e artística de Cataguases, principalmente no que diz respeito à vanguarda literária representada pela revista Verde (1927-1929), vertente mineira do Modernismo que eclodiu na Semana de 22, sempre foi um referencial importante para mim. Ressalto que desde cedo os ciclos culturais que a cidade experimentou, que tiveram início com o pioneirismo do cinema de Humberto Mauro, passando por outras vertentes estéticas não só na literatura, mas também na arquitetura e nas artes plásticas, sempre me intrigaram, no sentido de buscar compreender o por quê de uma cidade encravada e entravada nos contrafortes da zona da Mata Mineira conseguiu saltar à frente do tempo e da história com o surgimento de uma atmosfera intelectual jamais vista em outra parte. Tal aspecto, com certeza, despertou em mim o interesse pelas artes, particularmente pela literatura. O contato, ainda jovem, com alguns escritores e intelectuais da cidade despertou ainda mais esse interesse e detonou uma grande motivação, considerando que, desde criança, ávido por leituras, também alimentei um projeto pessoal de escrever. Chamou-me a atenção o fenômeno local, da mesma forma que impressionou Ribeiro Couto, que naquela época proclamou, com admiração: “Todo o Brasil está perplexo: existe Cataguases!” Quanto a influências propriamente ditas, creio que não as assimilei tão prontamente em relação ao meu processo criativo. No entanto, a leitura das obras dos autores que despontaram a partir desse surto criativo, que foros de ruptura e reação à arte convencional e elitista que se fazia até então, como verdadeiros gurus de minha geração, foram imprescindíveis referenciais na minha vida, na consolidação do leitor assíduo em que eu me tornaria mais tarde,  muito antes de nascer o escritor. Desses nomes, eu destacaria Rosário Fusco, Francisco Inácio Peixoto, Guilhermino Cesar e Ascânio Lopes, seguido de uma geração intermediária, representada por Francisco Marcelo Cabral e Lina Tamega del Peloso. E outra, mais contemporânea, com a qual convivi mais pessoalmente, constituída por Joaquim Branco, Ronaldo Werneck, Fernando Cesário, Luiz Ruffato e Márcia Carrano.
Lembra-se de como despertou para o universo dos livros e das primeiras leituras? Alguma influência familiar importante?
Desde os primeiros anos, ainda no grupo escolar, a leitura cruzou meu caminho, entrou definitivamente em minha vida. Primeiro, pela facilidade em escrever redações e pequenos textos pedidos em sala, que evidenciaram minha propensão à escrita, o que foi de pronto estimulado pelos professores. Foi o insight primordial, o despertar para a leitura e sua importância na formação do indivíduo. E, subsidiariamente, a leitura de jornais foi um ponto culminante nesse processo, já que eu não tinha nenhum estímulo próximo, seja da família ou de amigos de infância. Eu sempre detestei futebol, música “sertanojo” conversa fiada e religião.  Ela foi definitiva na construção de meu arcabouço intelectual, já que pelas páginas do Jornal do Brasil, O Dia, Última Hora e O Globo, que meu pai comprava diariamente para a leitura dos fregueses de sua barbearia, eu tomei contato com o mundo, principalmente o universo literário, pois em suas páginas, sobretudo nos cadernos e suplementos culturais de fim de semana, descortinou-se para mim esse ambiente sem fronteiras e instigante de livros e autores. Aos quinze anos, comecei a colaborar com o jornal Cataguases, um hebdomadário oficial da Prefeitura, quase centenário, escrevendo pequenas crônicas e artigos de opinião.

Seu percurso nas letras foi da poesia para a prosa. Qual dessas linguagens lhe permite expressar-se com mais liberdade?
Quando comecei a engatinhar na leitura – também percebi isso quando escrevi meus primeiros trabalhos – o que mais me chamava a atenção era a inflexão poética na própria prosa. Dos primeiros textos, o encanto veio com as crônicas de Rubem Braga, que descobri num livro chamado Programa de Admissão, que era utilizado para estudos para a prova de ingresso no ginasial. Era um estágio intermediário que se fazia depois do quarto ano do grupo escolar, antes de nos matricularmos no ginásio, na quinta série. Esse período de preparação foi extinto pela famigerada reforma do ensino feita pelo Jarbas Passarinho, aquele ministro tacanho, de infausta memória, que mandou jogar às favas os escrúpulos de consciência, quando da decretação do AI-5. Pois bem, voltando ao assunto, os textos do autor capixaba (e hoje não consigo ver um cronista à sua altura, que escreva com a mesma envergadura poética) me impressionavam pela doçura, pelo lirismo, pela sensibilidade e poesia na captação dos instantes, do banal, nos flagrantes da vida. Mesmo ao falar de situações trágicas, de dramas domésticos, pessoais e urbanos, ele o fazia com cristalinidade, e essa escritura diáfana é que justamente suavizava os conflitos. Percebi que a poesia seria meu caminho, então comecei a escrever os primeiros poemas de forma fixa, entre os quais os sonetos, em cadernos que eu comprava e guardava a sete chaves. Nessa época, caiu-me nas mãos um exemplar de Eu e outras poesias, de Augusto dos Anjos. Foi uma leitura impactante e reveladora aqueles versos de sombra e obscurantismo, aquela linguagem inusitada e metacientífica, pois, ao mesmo tempo que nos impunha um desafio de interpretação, nos remetia a um mergulho profundo nas questões existenciais. Quando descobri que Augusto dos Anjos, que havia morrido em 1914, estava enterrado em Leopoldina, cidade situada a cerca de vinte quilômetros da minha, foi outro susto. Então eu vi que ele estava ali, bem perto, ainda que enfurnado em uma lápide. Algumas vezes, em minha adolescência fui, à socapa, até a vizinha cidade, em minha bicicleta, apenas para ter a emoção de visitar o seu túmulo e compartilhar, ainda que metafisicamente, de seu universo Essa sensação também pude experimentar quando, há poucos anos, visitei a sepultura de Proust, no Père Lachaise, em Paris. Então, posso dizer que a poesia entrou primeiramente em minha vida, tanto como gênero, quanto como linguagem. E ao migrar para a prosa eu o fiz com a perspectiva de poder construir uma prosa poética, na linha do que já disse Baudelaire: “Seja poeta, mesmo em prosa”. No íntimo, eu creio não haver limites muito distintos entre uma coisa e outra, porque o que me importa é o ritmo, a harmonia, a linguagem antes da história a ser contada. Talvez seja até artificial estabelecer confronto entre um gênero e outro, porque estaríamos falando de condições substantivas que dizem respeito à composição formal. Então, nada mais poético que o romance Alegria breve,de Vergílio Ferreira; ou a epopéia roseana de Grande Sertão: veredas. E nada mais prosaico que os versos de “Tabacaria”, de Pessoa; de “Terra Devastada”, de Ezra Pound, ou “O Corvo”, de Edgar Allan Poe. E ainda “José”, do Drummond, para afirmar que em qualquer forma ou gênero, em qualquer vertente ou opção de escrita, o autor pode se sentir à vontade, desde que a sua escritura seja capaz de exprimir suas inquietações existenciais e estéticas, para as quais a expressão poética se presta a incorporar o espírito demiúrgico.

Apesar de ter saído do interior de Minas, sua obra revela um homem bastante urbano, mergulhado nas angústias daqueles que vivem nos grandes centros urbanos, tal qual podemos ver em seu livro mais recente, O Sol nas feridas. Concorda com esta idéia?
Vim de uma cidade do interior, mas com uma estreita conexão com os grandes centros. Cataguases fica a duzentos quilômetros do Rio, a trezentos de Belo Horizonte, a cem de Juiz de Fora, a quatrocentos de Vitória e a quinhentos de São Paulo. Creio que essa proximidade também contribui para estabelecer a relação do povo com uma vida mais urbana e vínculos com sociedades mais civilizadas e evoluídas culturalmente, apesar dos contrastes que também encontramos nesses centros. Recebíamos os refluxos culturais do Rio e o contato com a metrópole permitiu uma assimilação das influências de uma cultura mais cosmopolita. Outro fato que não podemos desconhecer é que Cataguases se industrializou desde os primeiros anos do século passado, tornando-se uma potência têxtil em Minas, o que lhe conferiu ares de renovação na vida e na mentalidade, de certa forma refletindo na própria consciência das pessoas. Mas a característica de prosa urbana que se evidencia na minha obra tem a ver também com a minha formação, pois saí de Minas com dezoito anos para morar numa cidade grande, Brasília, onde vivi por vinte e oito anos. E esse contato com uma vida mais dinâmica e efervescente, de valores, sentimentos e costumes menos ortodoxos, fizeram com que eu assimilasse muito rapidamente esse modus vivendi. A experiência existencial nesses mais de trinta anos vividos fora da vida provinciana, medíocre e alienante do interior, são mais fortes na minha personalidade e isso está impregnado na minha ficção que, em última análise, é espelho desse período, de onde recolho matéria e circunstância para minhas histórias. Então, minha produção literária reflete esse tempo e essa geografia,  vividos e experimentados, do homem urbano, com suas questões, conflitos e confrontos bem distintos do homem do interior do Brasil, gente que sofre as angústias , demandas e exigências da vida veloz das grandes cidades, que nos transforma num ser insularizado, premido por circunstâncias desconfortantes, hostilizado pela competição, pela solidão, pelo individualismo. Eu jamais saberia ambientar um conto no meio rural, porque não tenho experiência histórica, social e humana que me permita retratar esse universo ou qualquer outro ambiente que não seja o que conheço.

Como analisa o mercado editorial brasileiro atual e o acesso do leitor ao livro. Acredita ter havido algum avanço em relação à década passada?
Como todo mercado, visa ao lucro. E o lucro, na maioria das vezes, está diretamente ligado não necessariamente ao cultural, mas ao financeiro. E nessa sociedade massificada pelos fetiches globalizantes da competitividade, o livro transformou-se num produto. Ele precisa mostrar mais a cara que o coração. Então, não é demais observar que o mercado editorial brasileiro, como em qualquer lugar do mundo, só se interessa por títulos e autores que têm apelo comercial: os Paulos Coelhos, os Gabrieis Chalitas, os Augustos Curys e os padres Fábios Melos, enfim, o lixo literário nacional e estrangeiro, os best-sellers de duvidoso gosto e questionável qualidade que aqui chegam com status de novidade. O esoterismo de butique, a auto-ajuda, são  o que vende, porque é aquele tipo de literatura homologatória do bem-estar, que não faz mal a ninguém, que não dá um soco no estômago, que não faz pensar, que, ao contrário, engana o estômago e promete o falso paraíso, com seu carpe diem e suas ladainhas a la Zibia Gasparetto. Talvez, se fôssemos um país de leitores – e melhor: de leitores bem  (in)formados – com espírito de discernimento e postura (auto)crítica, essa vassalagem ao mercado estaria com os dias contados. Mas esse fenômeno parece não ser apenas privilégio do Brasil, um dos países com o menor índice de leitura do mundo, pois em todo o mundo a mediocrização, a banalização e a bestialização cultural, fruto de uma mercantilização indiscriminada e indecente, caminham a passos largos. O avanço, se houve, foi do mercado editorial, não de uma política do livro e da leitura. Ainda estamos na pré-história nesse contexto, porque não há uma visão estratégica de estado, que propugne pelo estimulo à leitura, que crie e mantenha bibliotecas funcionando em todo o país, não depósitos de livros, mas espaços de múltiplos usos, que criem a convivência intelectual capaz de produzir pensamento e ação. E isso não interessa às elites políticas nem econômicas, porque um povo bem informado tem uma arma na mão.

A cultura ainda é propagada de forma bastante desigual no Brasil, quase sempre circunscrita aos grandes centros urbanos, afastando aqueles que vivem em lugares mais distantes do acesso a bons livros, filmes, peças teatrais, música e arte de boa qualidade. Algo a fazer para corrigir tais distorções?
Sim, porque é para onde está concentrado o poder econômico e a melhor distribuição de renda que se destinam as políticas culturais. Nos últimos anos, vem-se tentando preservar e difundir as culturas regionais, que são riquíssimas, incomensuráveis, peculiares. No entanto, ao longo dos anos, principalmente com o advento da televisão e dos monopólios das redes, elas foram negligenciadas, de modo a se criar uma esquizofrenia nacional, com o adultério de usos, costumes, falares, etc. Isto foi introjetado pelas novelas e programas realizados e retransmitidos de norte a sul, de leste a oeste, a partir do Rio e São Paulo, o que, em minha opinião, contribuiu, avassaladoramente, para desaculturar o país, criando uma falsa e estúpida homogeneidade, impondo, goela abaixo, modelos de expressão cultural e artística que nada têm a ver com suas vidas e com suas identidades. Reputo essa política como um crime de lesa-cultura, que vem se perpetrando há décadas, sem a menor oposição, e que está contribuindo, infelizmente, para uma espécie de pulverização do pensamento crítico do povo brasileiro, descaracterizando totalmente o potencial estético que cada região tem e que não deveria ser violado dessa forma. Hoje um acreano está falando, vestindo, comportando-se, reagindo, até mesmo emocionalmente, como um carioca ou um paulista, assim como um matogrossense,  um brasiliense ou um indígena de Roraima, que são repetidores do que Faustões, Anas Marias Bragas, Xuxas, BBBs e o escambau vomitam nas telas. Isso é destruição do nosso patrimônio mais valioso, pois a indústria cultural do grande eixo hegemônico e monopolista passa com seu rolo compressor sem nenhum constrangimento.

Deve ser lançado em breve o romance que escreveu com sua esposa, a escritora Eltânia André. Como foi a experiência de escrever um livro a quatro mãos?
Trata-se da narrativa Diolindas,  que escrevemos a quatro mãos e que foi um desafio muito estimulante. A escrita colaborativa é instigante, porque nos possibilita o compartilhamento de idéias, visões e estilos bem distintos no desenrolar de uma história ou de uma trama. E é no entrechoque das experiências narrativas, na fusão de linguagens e ritmos, que o texto vai nos roubando, nos catapultando para outras direções, outro corpo, outra consistência. Ao final, não se percebe onde está um autor e onde está o outro, porque na formulação híbrida dos capítulos, que contou com mútuas interferências, opiniões e enxertos, emerge um texto distinto, um terceiro que tomou rumo e identidade próprios.

Conte um pouco sobre sua ligação com a literatura latino-americana e da amizade com vários de seus escritores.
Dentro do meu amplo espectro de leituras, o acesso à literatura latino-americana aconteceu à  medida que eu senti a necessidade de conhecer mais profundamente a produção literária do nosso continente. Tornou-se mesmo uma imposição ética tanto quanto estética.  Na formação cultural do leitor brasileiro sempre percebi uma certa tendência  a sacralizar as culturas norte-americana e européia, em detrimento de um grande manancial que é a cultura, e  principalmente, a literatura latino-americana. Do México ao Uruguai, temos entre nós nossos Faulkners, nossos Prousts, nossos Cervantes, nossos Camões, nossos Dantes, nossos Shakspeares,  nossos Manns, nossos Dostoievskis, etc... Mas durante cinco séculos  negligenciamos solenemente e estivemos de costas para os nossos vizinhos e de cerviz  abaixada para Atlântico. Então, sempre me perguntei por que não explorar esse ambiente ficcional e poético, que nos legou um Rulfo, um Borges, um Onetti, um García-Márquez, um Roa Bastos, um Ciro Alegria, um Vargas Llosa, um Benedetti, um Mujica Lainez, um Astúrias, uma Gabriela Mistral, uma Silvina Ocampo, um Arguedas, um Quiroga, um Monterrosso e tantos outros que falam mais diretamente ao nosso mundo e aos nosso corações, porque mergulham na nossa realidade geográfica e psicológica, com suas idiossincrasias, seus valores, seus dramas e dilemas que nos são tão particulares e comuns? Talvez, o que nos tenha afastado e distanciado dessa perspectiva de compreensão e estudo da literatura dos nossos vizinhos, seja o isolacionismo a que nos condenamos por sermos os únicos falantes do português na América. É o momento de redescobrir a América Latina e Central, há um monumento cultural, não apenas na literatura, mas nas diversas linguagens, a ser resgatado e valorizado. Isso me fez interessar-me cada vez mais pelos escritores do continente, principalmente instaurando contatos e intercâmbios com escritores da minha geração, em diversos países, o que tem me proporcionado um prazer e um enriquecimento estético no desvendamento de suas obras e suas vidas.  Um dos projetos que idealizei, ainda quando vivia em Brasília, e que foi interrompido após minha mudança para São Paulo, foi o mapeamento da poesia argentina contemporânea, de modo a oferecer um amplo painel de sua produção poética, que é valiosíssima, numérica e qualitativamente. Nesse sentido, pretendo realizar uma coletânea, incluindo nomes de diversas províncias e faixas etárias e publicá-la em breve. Penso, a respeito dessa valorização da literatura da América Latina, que cabe ao Mercorsul alargar a estratégia diplomática, não apenas voltando-se para a unidade econômica, monetária e política do continente, mas para formar um consenso em que estejam presentes a preservação de nossas raízes e as interrelações de nossos projetos, produtos e agentes culturais. E isso começa por criar obrigatoriedade do estudo do espanhol nas escolas brasileiras e do português ser ensinado aos alunos dos países hispânicos.

Que impressões teve ao integrar comitivas de escritores em congressos internacionais?
O contato com outras culturas, outras visões de mundo, outros processos criativos, tem sido fundamental para a minha formação não apenas intelectual, mas sobretudo humana, espiritual, íntima. Entre os lugares que visitei, participando ou não de encontros literários, a viagem ao Irã, em 2007, foi a experiência mais fascinante.  Nessas viagens, acabei  por perceber nossa pequenez e miséria, mas também passei a compreender dialeticamente o mundo, porque essas relações e encontros nos fornecem pistas sobre o valor, o poder e a importância de cada cultura, no seu tempo e na sua geografia.  E essa interface e sinergia, essa troca de experiências criativas, afetivas, históricas, sociais e políticas,  nos ajuda a fortalecer o senso crítico e a capacidade de agregar novos valores, tornando-nos mais flexíveis e permeáveis às novidades.

Após  três décadas de vida literária intensa, algum balanço a fazer?
Fica-me a certeza de que não desejo outro caminho, porque a literatura me proporciona estar à vontade e salvo, no único paraíso concebível e confiável: o mundo dos livros. Borges imaginava o céu como uma grande biblioteca. Essa também é minha concepção e também minha utopia. Nem o futebol, nem a política, nem as religiões, nem a família, nem o Silas Malafaia, o Edir Macedo ou o padre Marcelo Rossi. Não serão os pastores eletrônicos e padres midiáticos, nem as duplas sertanejas, os festivais de rodeio ou as rodas bregas de pagode que me proporcionarão tanto prazer,  tanta liberdade, independência e autonomia. Deixo aqui duas reflexões, uma do querido amigo e escritor mineiro Duílio Gomes, falecido há poucos anos: “Escrever não é a coisa mais importante do mundo, mas deixar de fazê-lo, quando se tem vocação para tanto, pode ser a pior coisa do mundo.” Outra, é a lição de Saul Bellow: “A literatura é o refúgio da sinceridade no mundo de poses.”  É pelo farol dos livros que me guio, não pela  fé mecânica, frenética e hipócrita dos religiosos. Nem pelos massificantes, mumificantes e bestializantes reality shows da vida. Não aceito verdades únicas, não aceito ditaduras. E Deus é uma ditadura feroz e anacrônica, à medida  que decreta a onipresença, a onisciência e a onipotência de um líder que não aceita questionamento nem oposição. Tenho nojo das ditaduras e dos ditadores, não lhes curvo a cabeça, nem lhes  bato palmas. Por isso, a literatura é que me guarda, é meu sustentáculo, lição, teto, pulmão e evangelho, pois como diria Northrop Frye, “A literatura continua sendo o único lugar onde se pode ser livre”. Dane-se a Wanessa Camargo e viva o Rafinha Bastos, pois o que me interessa é a liberdade de expressão.


Angelo Mendes Corrêa 
Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista.

 Itamar Santos 
Mestrando em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo(USP), professor, ator e jornalista.
                                        

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