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30/09/2015

Alexandre Staut: jornalismo, literatura e gastronomia (Entrevista realizada por Angelo Mendes Corrêa)

                                                                               Angelo Mendes Corrêa*


Escritor e jornalista, Alexandre Staut acaba de lançar seu primeiro livro infantil, A vizinha e a andorinha, após ter publicado dois romances, Jazz band na sala da gente (2010) e Um lugar para se perder (2012).  Após  passar por redações de diversos jornais e revistas, fundou, em 2014, a revista literária São Paulo ReviewEspecialista em gastronomia, é o responsável pelo blog Tudo al Dente e seu primeiro livro na área, Paris-Brest, sairá em 2016. Tem inédito um novo romance, intitulado Avante!, no qual, através da ficção, recria sua infância e as figuras que a povoaram,  na pacata Espírito Santo do Pinhal, no interior de São Paulo.


Pode nos contar um pouco sobre sua relação com os livros e os autores que considera decisivos em sua formação?
Sou antes de tudo um leitor. Gosto de ler todos os dias e, se não o faço, parece que falta alguma coisa. Tudo começou aos onze anos, com o estímulo de uma professora de Português, dona Rosinha. O primeiro romance juvenil que ela passou para a minha turma foi O cachorrinho Samba, de Maria José Dupré. Eu não sabia direito o que era para fazer. Achei que fosse para decorar o texto. Eu andava por algumas ruas mais tranquilas da cidade com o livro na frente da cara, lendo-o. Com algumas leituras seguidas, de fato o decorei. Só depois, soube que ela pedia uma única leitura. Todos na sala de aula riram de mim, quando souberam da história. Uns meses depois, descobri a biblioteca, um oásis numa cidade parada, sem graça. Ali, descobri que ler em silêncio era muito melhor do que pelas ruas. A biblioteca é tema de um romance inédito que escrevi, Avante!. Este livro fecha minha trilogia sobre a infância, da qual fazem parte os romances Jazz band na sala da gente e Um lugar para se perder. Bom, mas falando dos autores que me formaram, poderia citar José Mauro de Vasconcelos, Josué Guimarães, Marques Rebelo, Fernando Sabino, Bandeira e Drummond.  

Tendo passado, nas últimas duas décadas, por alguns de nossos mais importantes veículos de imprensa, quase sempre escrevendo sobre cultura,algum balanço a fazer? A imprensa cultural tem cumprido seu papel ou as leis de mercado têm falado mais alto?
A imprensa cultural, na maior parte das vezes é releasesca. Vive de releases que as assessorias de imprensa mandam para as redações. Ou então só tem olhos para aquilo que já tem prestígio, talvez por medo de apontar novidades e errar, ou falta de tempo dos jornalistas. Para piorar, a grande imprensa nacional passa por uma grande crise e as editorias trabalham, em grande parte, com jornalistas inexperientes. Mas há exceções, claro.

Criar sua própria revista, a São Paulo Review, foi uma resposta ao que se produz, em boa parte, no jornalismo cultural contemporâneo?
A São Paulo Review olha para nomes consagrados, mas concede espaço a escritores em começo de carreira, às editoras pequenas e independentes.  Pelo menos uma vez por mês, abrimos espaço para autores inéditos, gente desconhecida que manda contos, poemas, alguns que nunca publicaram nada antes. Claro que há um trabalho de curadoria e não publicamos absolutamente tudo o que nos enviam.

Seu livro de estreia, o romance Jazz band na sala da gente, busca, a partir da história de sua família, no interior de S.Paulo, a reconstrução de uma época que, embora limitada tecnologicamente, dava espaço a uma vida mais criativa e, talvez, feliz. Concorda com tal ideia?
Não saberia dizer se a vida de antes era melhor ou mais feliz. Na família do meu pai, que está retratada neste livro, talvez fosse. O livro é a biografia inventada do meu avô paterno, e ele era músico, era festeiro. Com sua orquestra de jazz/chorinho tocava em bailes, no cinema da cidade. Talvez, fosse uma época de vida social bastante intensa. Minha avó me contava que ia ao cinema todas as noites, nos anos 40, ver o grupo do meu avô tocar.

Após escrever três romances para o público adulto, o que o motivou a escrever para crianças e a lançar A vizinha e a andorinha?
Este livro infantil caiu no meu colo. Percebi um dia que tinha uma vizinha cantora e isso me motivou a escrever um miniconto. Depois, olhando mais de perto, percebi que a história poderia ser adaptada para o público infantil. Passei-a para minha amiga, Viviane Ka, com quem divido a direção da São Paulo Review, e perguntei se ela tinha sugestão de ilustrador e editor. De imediato, sugeriu a filha, Selene Alge, para a ilustração e Bell Mota, da editora Cuore, para a edição. Entrei em contato com as duas, e em menos de uma semana resolvemos fazer o livro juntos.
Com vê o mercado editorial para o novo autor em nosso país? Lemos pouco os nossos jovens autores por que eles têm pouco a dizer ou por que somos desatentos e preconceituosos com o que produzimos por aqui?
Acho que existe bastante mercado para jovens autores e muitos deles conseguem encontrar leitores, principalmente em plataformas eletrônicas. Por acaso, acabo de ler uma notícia de que a Amazon está estimulando jovens a publicarem na sua plataforma. Há até um concurso no ar. O escritor inscreve a sua obra (thriller, ficção científica ou fantasia). Se selecionado, o texto entra em disputa pelo voto do leitor. Durante cerca de um mês, amostras dos originais selecionados ficam disponíveis para leitura no site do programa e para avaliação. As obras mais votadas são publicadas pela Amazon Press, em edições digitais e o autor assina um contrato. Os jovens costumam nadar de braçada neste tipo de programa. Fico besta em ver como eles têm leitores em plataformas digitais. O bacana é que, como o leitor pode ler trechos da obra, só vai para a frente aquilo que realmente for convincente, o que tiver o mínimo de verossimilhança. 

O excesso de lançamentos editoriais na área infantil não tem subtraído a qualidade do que se publica?
Estou começando a acompanhar o mercado de infantis. Tem um monte de besteiras nas livrarias, obras que o meio chama de ‘livro presente’ e que traz personagens da TV, como Peppa Pig, os caça-níqueis. Meu livro é paradidático e acho que esta área está cada vez melhor, com temas muito bons, alguns deles nunca pensados antes para o mercado infantil, como morte, sexualidade, perdas.

A vizinha e a andorinha  permite que não só as crianças, mas também os adultos se dêem conta do quanto nos escondemos, sobretudo os que habitamos os grandes centros urbanos. Ao escrevê-lo, alguma razão especial o motivou?
Antes de tudo, agradeço a sua leitura. Pois é, pensei sim nesse aspecto, principalmente entre nós, que moramos nas grandes cidades, e que, muitas vezes, passamos a vida sem saber quem são os nossos vizinhos. 
Nem sempre as relações entre autor e ilustrador são pacíficas. Como foi a parceria com Selene Alge? Durante o trabalho dela vocês trocaram muitas figurinhas?
Nós conversamos e pensamos juntos em soluções o tempo inteiro, eu, Selene e Bell, a editora. O trabalho foi realizado de forma bastante respeitosa.

Muitos escritores dizem que escrever para crianças é mais gratificante, pois o retorno, além de mais verdadeiro, é quase imediato. Consegue sentir isso?
Ainda não sei dizer, mas nos dois lançamentos que fiz, um em São Paulo e outro em Pinhal, recebi abraços carinhosos e sinceros de algumas crianças. Foi gostoso.

Outra de suas paixões é a gastronomia. É possível um paralelo entre ela, a literatura e o jornalismo?
A gastronomia chegou até mim através do meu pai. Ele era funcionário público, em Pinhal e, nos tempos vagos, datilografava um caderno de receitas. Isso nos anos 70. Lembro da casa cheirando moqueca, feijoada e dobradinha, aos domingos. Aliás, na época, eu odiava o cheiro, mas ficava sempre perto dele. Acho que de tanto observar, tornei-me pesquisador da gastronomia, principalmente da Idade Média europeia.
Para aprender de perto este tema, fui trabalhar em cozinhas na Inglaterra (por um ano) e na França (três anos e meio). Mais tarde, trabalhava na editoria de cultura da Gazeta Mercantil, em 2006, quando contei para a editora de lifestyle que tinha estudado e cozinhado em restaurantes europeus. Na mesma hora, ela me chamou para assinar uma coluna de gastronomia. Aceitei o convite e achei o mundo do jornalismo gastronômico bastante otimista. Assim, fiquei. Hoje, não cozinho mais profissionalmente, não tenho vontade. Faço algumas matérias na área e escrevo o blog de gastronomia www.tudoaldente.com.br. Quando o mundo da literatura está muito cheio de politicagens, corro para lá, e me distraio com receitas, como meu pai fazia há 40 anos.

Novos projetos?
Além do romance inédito Avante!, escrevi Paris-Brest, que traz minhas memórias gastronômicas da França, e um pequeno estudo sobre a alimentação na Idade Média, nesse país. A agência de autores da qual faço parte, a Villas-Boas & Moss Agência Literária, da Luciana Villas-Boas, acaba de vender o livro para a Companhia Editora Nacional, que publica a obra no ano que vem.




*Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista.

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