* Hello, my friends! welcome to letra e fel! If you like this space, please share it with your friends.
* Dzień dobry, drogi czytelniku, witaj w blogu Letra e Fel! Dziękujemy za wizytę. Jeśli nasz blog ci sie spodobał, poleć go swoim znajomym.
*!Hola! , amigo lector. Sea bienvenido y si le gustó mi blog, recoméndelo a sus amigos!
*Cher lecteur, soyez le bienvenu! Veuillez conseiller notre blog à vos amis si vous l'avez aimé. Merci beaucoup!

25/11/2015

Fluidez e versatilidade na série “Nova Riqueza”, de Sandra Resende (por Renata Bomfim)




Nas primeiras décadas do século XX a arte passou a apresentar como marca uma indeterminação sem precedentes na história: nada mais seria como antes! A liberdade radical a qual os artistas modernos foram expostos resultou em estranhamento e angústia. Segundo Ronaldo Brito[1] essa “crise na Arte”, para além de refletir um mundo submerso em processos de transformação e desfiguração, mostrou que a arte é um “isso problemático e reflexivo” em constante interrogação.  A vanguarda modernista criou inúmeros novos esquemas e procedimentos artísticos que, ironicamente, abriram caminhos reflexivos para artistas, críticos e publico, e de repente, o antes era “inaceitável”, passou a ser incorporado pela à tradição.

 Os artistas contemporâneos são herdeiros dessa geração que fez da experimentação e da exploração o seu lema.  É como se o “Anjo da história”, pintado por Paul Klee, tocasse a trombeta e nos convocasse a juntar os destroços do tempo. Walter Benjamim, argutamente, percebeu que um amontoado de ruínas crescia em direção ao céu, e que uma tempestade chamada “progresso” se aproximava.
Olhamos para trás saudosos e melancólicos, e para o futuro sem saber que caminho tomar; resta-nos os destroços e, frente aos fragmentos de nossa própria identidade, o que fazer?  Na obra Tudo o que é sólido desmancha no ar, Marchall Berman[2] alertou que o único jeito de o individuo sobreviver na sociedade, seria assumindo uma personalidade fluida. A identidade desse sujeito maleável, posto entre os estados líquido e gasoso, não é fixa, mas muda constantemente. As existências fluidas e as mudanças ininterruptas marcam a vida desse ente, e a arte o companha na sua errância. O caráter liquefeito da sociedade contemporânea não permite que nos voltemos para os mestres do passado em busca de respostas que nos garantam segurança. Os arroubos revolucionários e ideológicos migraram para os objetos descartáveis, são revolucionários os cremes anti-idade, o detergente líquido, a ação do desinfetante, o aparelho eletrônico que promete facilidades inimagináveis e felicidade. 
Sandra Resende é uma artista contemporânea que não se fixa e nem se permite enrijecer. Nesse sentido a sua produção se alinha com a de artistas como Beatriz Milhazes, Vik Muniz e Adriana Varejão. Destaquei, em outro ensaio, que a obra de Sandra Resende transita entre o acadêmico/ figurativo e o abstrato, bem como, na representatividade da expressão sacra no seu percurso como artista. Dentro do universo multifacetado dessa poética as cores desempenham um papel essencial, elemento que encontra complementariedade no desenho e na gestualidade.
A série “Nova riqueza”, de certa forma, é uma antinomia, uma tentativa de reconciliar o que aparentemente é irreconciliável. Ele busca inspiração nos escombros do garimpo de Serra pelada, trazendo à luz importantes reflexões sobre os modos de ser e estar no mundo do homem contemporâneo. É possível revertermos a grave crise ambiental na qual estamos submersos, por sua vez, não é a crise ecológica, a face de um caleidoscópio que envolve outras dimensões humanas, não menos importantes?
Sandra Resende possui uma obra versátil, pois a sua plasticidade lhe garante a possibilidade de ocupar variados lugares no desejo do espectador. A fluidez dessa poética é radical, nela a mancha de tinta é trabalhada tendo como inspiração o mineral, a pedra bruta e os metais extraídos da terra, elemento imanente por excelência. A série é formada por dez telas, de média e grande proporção, pintadas sobre linho ou canvas que sustentadas por chassis de mogno, ou pinus, tratados com pigmentos naturais e óxidos sintéticos.
O despertamento para esse trabalho veio da observação da mutabilidade da natureza. O garimpo de Serra pelada, situado no Pará, já foi considerado o maior a céu aberto do planeta. A cratera de onde os homens extraiam ouro a poucos metros atraiu pessoas de todo o Brasil na década de 1980. Os sonhos de riqueza dos homens simples, logo, cederam lugar à realidade: uma vida insalubre e marcada pela guerra de forças e tensões entre poderes. Serra pelada é uma alegoria do estado da arte na série “Nova riqueza”, nela dialogam o sensível e o bruto/violento, marcados por movimentos de descoberta, por sonhos, explosões, degradação, ruína e reconstrução.
Nas telas encontramos a força do amarelo e de uma profusão de ocres e marrons que convidam à garimpagem. É preciso ir mais fundo, cavoucar novos sentidos, dialogar com as camadas da terra, penetrar nos mistérios o elemento feminino, Gaia , fonte alimentadora da vida. Há muito o que observar na série de pinturas: a violência de algumas pinceladas cinza vão, gradativamente, se diluindo e, de repente, revela-se um veio d’água.

A arte contemporânea abre caminho entre os escombros do passado e, a despeito da incerteza constante, do consumo desenfreado e da corrosão dos valores tradicionais, há a renovação e a gestação do novo. Embora Sandra Resende seja uma artista nascida século passado, e tenha experimentado a si mesma nos diferentes sistemas acadêmicos propostos pela arte, ela se abre para o novo e convida o expectador para que aventure nesse universo de reconstrução paisagística, plantando nas áreas degradadas e criando devires.

Renata Bomfim



[2] MARSHALL, Berman. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Ed. Schwarcz, 1986. P. 93. 

Nenhum comentário: