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10/01/2016

Centenário de morte de Rubén Darío é celebrado poetas e pesquisadores (Renata Bomfim)


No dia 06 de fevereiro de 1916, em León, na Nicarágua, morria Rubén Darío (1867-1916), representante máximo do Modernismo hispano-americano. Uma festa cultural com poesia, mesas redondas, apresentações musicais e de dança celebram, em 2016, o centenário de morte do “Cisne da América”, como também é conhecido o poeta.
Despertei para a poesia do nicaraguense Rubén Darío durante as pesquisas de mestrado, enquanto investigava a poesia da portuguesa Florbela Espanca. Observei que, além de Florbela, Darío marcou uma geração de poetas hispanos e lusófonos, o seu nome figura entre os mais importantes da lírica de língua espanhola.
A Vanguarda hispano-americana, de 1925, e os movimentos continentais que buscaram construir uma poesia contemporânea, encontraram em Rubén Darío o seu fundamento. Octávio Paz defendeu o lugar central do poeta no Movimento Modernista, de forma que ele se tornou uma espécie de “ponto de partida ou de chegada, um limite a se alcançar ou ultrapassar”. Jorge Luis Borges chamou-o de “libertador” e Federico Garcia Lorca assinalou: Pablo Neruda, chileno, e eu espanhol, coincidimos no idioma e no grande poeta nicaragüense argentino chileno espanhol: Rubén Darío”.
O Modernismo hispano-americano foi a resposta da América hispânica aos processos de modernização do mundo ocidental e teve características próprias, diferindo do Modernismo brasileiro (1922) e português (1915). Foi com o Modernismo que a poesia hispano-americana revelou o seu primeiro traço, a sua primeira distinção da poesia espanhola. Com a obra Azul... (1888), Darío voltou o olhar para o Simbolismo francês e para o procedimento temático e estilístico dos chamados “poetas decadentes”. Azul... revelou a rebeldia e a inconformidade do  jovem poeta com relação à rigidez linguística que ameaçava engessar a liberdade de seus versos. Essa obra introduziu variações métricas na poesia, de forma que os versos ganharam maior musicalidade, além de trazer á luz temas americanos, como o poema “Caupolicán”, que narra a heroica façanha do índio Toqui que se tornará chefe de sua tribo. Este poema é representativo da evolução da consciência poética dariana, indicando uma transição que se concretizará nas suas obras posteriores, entre elas Prosas profanas y otros poemas (1897) e Cantos de vida y esperanza (1905), quando os valores hispano-americanos emergirão de forma mais contundente. Rubén Darío foi intérprete das inquietações continentais, militando pela renovação da língua e exigindo maior liberdade para o labor poético. O poeta proclamou que os americanos, de idioma castelhano, conquistaram independência mental frente à Espanha, assim, a corrente modernista conseguiu unir destacados grupos que cultuavam a arte cosmopolita e universal.
Ninfas, faunos, bacantes, marquesas, princesas, deusas e deuses criam uma atmosfera mítica na obra dariana, que também é marcada pelo sincretismo religioso e por um erotismo transcendente. Nela, vemos emergir a “selva sagrada” e “suntuosa”, onde o amor sempre triunfa e onde os prazeres da carne e do espírito vencem os desgostos da vida ordinária e cotidiana.  O paganismo sincrético e variadas doutrinas esotéricas como o budismo, tantrismo, platonismo e pitagorismo permeiam a obra de Darío, como mostra o poema “Ama teu ritmo”. Nesse soneto clássico endecassílabo é possível perceber ecos do pitagorismo, que define o número como a lei do universo. A doutrina pitagórica e neo-pitagórica, já descrita por Plotino, foi retomada pelos modernistas, que preconizaram que o ritmo interior deveria estar harmonizado com o ritmo celeste para que a alma pudesse penetrar na harmonia universal: “Ama teu ritmo e ritma suas ações/ sob sua lei, assim como teus versos;/ és um universo de universos/ e tua alma uma fonte de canções.// Escuta a retórica divina/ do pássaro do ar e a noturna/ irradiação geométrica adivinha”. “Moderno, audaz e cosmopolita”, assim se define o eu lírico dariano em Cantos de vida y esperanza.
Darío, que em 1914 esteve no Rio de Janeiro e em São Paulo preferindo palestras, se apresentou como o poeta da América (“Sou um filho da América e um neto da Espanha”), militando pelo destino e identidade hispânicos. O eu lírico dariano aspirou compreender a sua natureza híbrida e fragmentária e, mediante a constatação da fragilidade da vida, tornou-se contemplativo. Autor de uma obra monumental que abarca poesia, contos, crônicas, cartas e romance, Darío chega à contemporaneidade sendo apreciado pelo público leitor e estudado por pesquisadores de todo o mundo. Em 2014 defendi, na UFES, a pesquisa de doutorado intitulada “A flor e o Cisne: diálogos entre as poéticas de Florbela Espanca e Rubén Darío”, na qual pude constatar a riqueza e a relevância da poesia dariana também no campo da lusofonia. No centenário de morte do grande poeta nicaraguense, fica o nosso desejo de que ele seja cada vez mais lido pelo público brasileiro.

Renata Bomfim


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