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08/04/2016

COLÓQUIO DAS ÁRVORES (Prefácio do livro de poemas da escritora Renata Bomfim por Ana Luisa Vilela)


1.      Se você, amigo leitor, ainda não conhece a poesia de Renata Bomfim, este é
talvez o livro certo. Na verdade, a autora publicou já Mina (2010) e Arcano Dezenove (2011). Mas a presente obra, Colóquio das Árvores, é provavelmente a mais indicada para quem quiser encetar o seu conhecimento e a sua fruição desta fresquíssima voz poética.
Esta é uma poesia sem pose, verdadeiramente coloquial, íntima na sua dignidade e na sua hilaridade. E é uma poesia de quem sente de muito perto os seres e as coisas, e está apta a colher-lhes intuitivamente a ressonância íntima, transmutando-a na substância vital do seu lirismo. Lê-la vai fazer-lhe bem, caro leitor; terapêutica, o seu sedimento é o da alegria tónica, da pureza da festa, e do desvario meigo.
Aceite, pois, este livro, como quem aceita um “Convite para um chá” – o nascimento ou o renascimento de uma amizade, uma vida a expandir, um antídoto à dor: “Eu digo Não,/ e inauguro um novo livro da vida/ cheio de páginas em branco”. Colóquio das Árvores transpira realismo sensorial, energia e equilíbrio. É um livro de síntese. De facto, sob uma epígrafe de Ruben Darío, e consagrado ao signo vegetal desde o seu título, ele harmoniza a raiz com o voo, a origem com o devir, o destino com o eros, a eternidade com a dança. Tal é a vocação das árvores e do seu “colóquio” ancestral.
Os cerca de cem poemas que constituem esta obra são, portanto, autênticos rebentos falantes: irrompem verticais, altivos mas requebrados, como ramos floridos adejando ao vento. O que os agita é um impulso enigmático, que toda a obra artística anseia capturar: a “profunda emanação” da vida sagrada, uma espécie de prodigioso elixir poético. Mas não espere apenas a sisuda erudição hermética, amigo leitor: aqui pode também deliciar-se com textos divertidos, como a (ainda inacabada) “Enciclopédia das plantas”, cujo abecedário ervanário se quedou, por enquanto, na letra “b”; ou na picante “Experiência gastroveganogozosa”, que lhe promete a descoberta de prazeres inauditos…
Este livro é, também, um hino ao natural: contém a exaltação épica e mística das árvores – pau-brasil, anil, jacarandá – e das aves que as habitam (como em “Terra de Santa Cruz”), e a perturbante coincidentia oppositorum de “Bífida”, na sua recriação de um mundo atemporal, na sua busca redentora, na sua apologia do presente, na inversão antifrástica, que magicamente transmuta a dor em beleza.
Desconcertante, Renata está do lado da vida, com o seu gáudio feroz, com o seu apelo à brincadeira de viver, com a sua incitação à festa do momento presente. É uma Renata ‘resolvida’, cantante. Uma indefinida jovialidade irónica, terna sempre, às vezes escarninha, libertária como um saracoteio verbal e risonho, desconstruirá por vezes a gravidade da sua leitura, meu amigo. Prometo-lhe solenemente, caro leitor, aqui lhe dar notícia de todos os poemas (ou quase), meninos esquivos e indisciplinados que sejam. Mas também aqui, nesse prefácio tão sério, eu sinto perigar, a todo o momento, a respeitabilidade desta análise irregular de um roteiro imaginário, desmanchada por esse mesmo sopro vulcânico de alegria…

2. Se, manifestamente, é difícil manter um judicioso espírito de sistema, ao ler esta poesia, é possível, ainda assim, apontar-lhe globalmente o seu carácter dialéctico e contrastante, a sua unidade na diversidade, a profunda congruência do diálogo que ele encerra. Trata-se, em Colóquio das Árvores, de uma energia móvel, questão de ritmo, de acordo e de cadência (“Melodia ritmada, amena”), que concilia a vivacidade e a transcendência, e encara a noite como o prelúdio do dia. A epígrafe de Ruben Darío formula o desígnio fundamental do acto estético: vencer a morte.
A vocação irreprimivelmente feminina do resgate parece consignar a este livro a magna tarefa de administrar a coexistência harmoniosa dos contrários - positivo e negativo, alto e baixo, luminoso e obscuro. Que esse desígnio seja também vegetal, explicitamente o da “selva sagrada”, não pode admirar-nos: a selva é bem o símbolo da temporalidade sazonal e cíclica, e da proliferação vibrante da vida.
A partitura deste “colóquio” integra cinco vozes, cinco andamentos. No primeiro, “O Grito da Rosa”, as epígrafes de Sylvia Plath e de S. Lucas reforçam a assunção, entre a fúria, o grito e o riso, da identidade pulsional do poeta, arauto e fazedor da beleza, contra um destino humano de degradação e perecimento. Na verdade, esse é um movimento simbólico já contido na imagem da árvore, que sempre induz uma pulsão redentora, um aceno libertário de superação e utopia. Como diz Durand, “toda a evolução progressiva se figura sob os traços da árvore ramosa.”[1] (235).
Na segunda parte, “Colóquio das Árvores”, parece predominar a valência incorporadora e unitiva das qualidades humana e vegetal, atributos essenciais da árvore. É esse o programa intuído pela epígrafe de Florbela.
À terceira parte, “O Cisne a Flor”, as epígrafes de Ruben Darío e de Florbela consagram o ideal da beleza e a referencialidade terrestre.
Em “Cantos de Vida e de Esperança”, a quarta parte, sob a tutela conjunta de Sophia e Van Gogh, parece imperar de novo o dialogismo e a intensidade erótica da vida plena e perfeitamente vivida.
E, na última parte, “Hortinha Poética”, criação jocosa duma poética e duma mitologia especificamente ‘vegana’, as epígrafes de Bachelard e Lao-Tsé, alusivas às “virtudes secretas das substâncias”, podem fazer o elogio da simplicidade, a mais humilde e a mais eficaz estratégia para “herdar o Eterno”.

3. Uma das estruturas que pode ordenar esta horda poética insubmissa parece consistir numa particularíssima disposição antitética, luminosa, com tonalidades algo polémicas, quase guerreiras. Certos poemas aliam a afirmação de um desígnio individual, a um desejo excepcional de infinito e de transcendência. O poeta é um ser luminoso, de grito desafiante, que um fôlego messiânico agita, anunciando a beleza e os seus valores resplandecentes. Possuído pelo fulgor da utopia, o seu destino é o de “Imaginar o mundo”, reinventá-lo pela “energia serpentina” que o queima.
Por isso também, no poema “O Grito da Rosa” a poeta lacra o seu compromisso com o real e com a matéria de que são feitos a vida e o mundo. E com a organicidade matricial da Dor. Em “C’est la vie”, faz uma apologia eufemizada dessa “ferida” ontológica, motor e alimento do poético – como uma incorporação lírica e resignada da eterna presença indizível da Dor, “esse isso”. Em “Questões poéticas”, essa dor do real resiste e circula através do tempo e da matéria, que Renata não pode compreender, mas que redime pela compaixão universal. A salvação, que inverte e resgata a queda, é o desígnio do eu lírico em “Terra de Santa Cruz”: aqui, os gestos simétricos da poeta – o voo e o mergulho – sintetizam uma cosmogonia que renova um espírito ancestral, materializado na redenção eterna da terra brasileira.
Outro veio figurativo pode agrupar “Vozes natalinas” (enunciando a amargura pelas vítimas animais inocentes, convivendo com a mordacidade lúdica e a vitória final da vida); “É Carnaval”, traçando a oposição rancorosa entre a “beleza bruta” das aves e os fátuos enfeites carnavalescos; “A igreja militante”, em que uma logopeia ironicamente melodiosa, anafórica, ainda sarcástica, traça a caricatura de todas as igrejas e se resolve, como em poema anterior, pela invocação de um Cristo cósmico, maior que todos os rituais e todas as mortes; e ”Fantasmas da Esperança”, em que a atenção magoada às desgraças do mundo se funde no final com a instigação épica, o incitamento ao “exército de vencidos”.
Em “Frankenstein”, qual afável Mary Shelley, a voz poética assimila um bestiário fabuloso, pluralizando e comicamente convocando uma série terna de totens pessoais; entre todos os animais, avulta o gato (santo, profeta, sacerdote, arquitecto, malabarista, zen…); é um objecto carnal e simbólico espontaneamente incorporado na fantasia poética, aquele que Renata amima em “Todo gato”, em “Elvis”, em “Os olhos de Joaninha”, em “Joaninha”. Para lá de aspectos biográficos, a inclusão, pela poeta, desses bichanos na sua comunidade de amigos parece outorgar-lhes uma terníssima identificação com o humano (“desenhando arabescos/ multicoloridos/ no espaço dos meus sonhos”), constituindo quiçá uma espécie de anti-metáfora da poesia, uma sua abstracção viva: uma alma felinamente corporizada. Esses poemas podem pois compor outro grupo temático, mais autoral e genealógico, que também integra “A neta de Mary Wollstonecraft”, magnífico poema diurno, gesto de conquista identitária e expressiva, cantando o prazer indomável da dor, desencabrestado e altivo. E, evidentemente, “Identidade X”, arrebatadora reivindicação da jubilosa autenticidade feminina, que cumpre a proeza de afirmar, provocadoramente, uma identidade ao mesmo tempo individual e sintética, carnal e transcendente, capaz de incorporar e resgatar todos os rótulos e todas as conjecturas.
Falando de auto-identificação, valerá a pena ler e reler “Eu”, glorificação explícita da mistura e da aglutinação, estruturas maiores – pois claro! - de um imaginário tipicamente feminino e nocturno. E, já agora, “Vénus de Ébano”, a quem é concedida a gigantesca voz do feminino essencial e da obscura, feroz natureza da arte, petrificação esfíngica e perscrutadora do Tempo nocturno. Ao apelo do encontro do ‘outro’, à elegia de um olhar atento que esse poema materializa, pode responder o poema seguinte, o solar “Anticanto, antitudo”, percorrido pela energia da festa da vida e fazendo o elogio da soberania proscrita, renegando adereços, narrativas e estigmas e assumindo festivamente as insígnias de uma feminilidade até certo ponto heróica, porém transgressora. Do mesmo modo, em “Joana d’Arc” se faz um apelo urgente a essa espécie de messias feminino, dissolvido, sem laivos de falicismo, na tonalidade épica da resistência e do renascimento. Com ele dialoga “Fogo”, ainda sob o signo do renascimento do dia prodigioso.
É que, mesmo nesses poemas de assomo heróico, sempre Renata, na sua exortação à poesia, convoca as “vozes viscerais” da noite humana, valoriza as suas trevas, que escuta e redime por um parto de amor (“Amo, amas”). O mesmo se dá em “Maternidade”, em que se confundem e interpenetram as entranhas uterinas e oníricas, num parto infinito que é também uma aurora cósmica. E, num meneio trocista, carnavalesco, a fantasia poética da autora compraz-se por vezes numa exultação anti-carnívora, simultaneamente luminosa e depurada: é o caso do hilariante “Vampiro vegano”.

4. Assim, quando em “O retrato de Blanchot” censura o auto-apagamento físico do famoso (e enigmático) ensaísta francês, Renata apela ainda ao corpo: a leitura fruitiva convoca a incorporação digestiva/intelectual. Em contrapeso ao regime que anteriormente descrevemos, parece predominar em Colóquio das Árvores um gosto pela intimidade secreta, uma estrutura decididamente aglutinante, anulando as separações, recusando o isolamento e a dissociação e privilegiando a comunhão, a dissolução, ou a transubstanciação mística. Nesta poesia, tudo se liga, ata, aproxima e abraça.
Aqui, Renata sempre promove a união e a continuidade elementares. “Vitória é uma delícia!” é um exemplo alegre desse tropismo fusional, pela identificação radiante com a terra; “Memórias do corpo” é outro exemplo, entre o sério e o faceto, de uma apologia do corpo, do seu movimento regressivo e da sua nobre missão de “ser Terra”. Já em “Inquietações”, a tonalidade perplexa denuncia a natureza a-lógica da vida e, portanto, do poético, feito de rudes obscuridades: sentimentos, demónios destruidores, “turbilhão assombroso das entranhas”. Assim se exorcizam os símbolos mortíferos, transmutados em talismãs estéticos, forjados na intimidade quente e benfazeja da matéria e dos seus ritmos.
Mas Renata desce mais fundo, na sua reviravolta dos valores imaginários. Sereia, harpia, aranha, Salomé, serpente: é todo um itinerário de revisitação erótica e de resgate sistemático dos monstros femininos nobilitados. No esplêndido “Viúva Negra”, todos os valores maléficos da aranha, tecedeira nocturna e predadora, são ferozmente exaltados, num vigoroso sobressalto sanguinário que só encontrará alívio no “beijo fresco” da morte amorosa. Em “O canto da harpia”, são os adereços acutilantes – unhas, crista, asas – que se transmutam em mergulho, renascimento e saudação à vida. “Covil das palavras” traz ao discurso a fala da serpente, parente da volúpia, e as suas promessas de amor e perigo. Com “O prazer de Salomé” (outra digna réptil), a decapitação viril tem o seu contraponto no eros, em cenário sumptuoso e mortal. Finalmente, “O filho” é uma prodigiosa síntese dos dois regimes, o biológico e o espiritual; nesse poema se glorifica a descida (preâmbulo da ascensão) à matéria pastosa e úbere do inconsciente, donde surgirá o filho devorador, “fruto da minha meia-noite”, nascido dolorosamente do sangue, da violência e da utopia: a obra poética.
Na verdade, de uma forma ou de outra, tal como na aventura alquímica, sempre nesta obra se caminha para uma sublimidade substancial, que transcende a matéria e a prolonga no cósmico e no religioso. É assim com “Florbela em canto”, com as suas belíssimas “imagens que insistem em se tornar sangue e carne, / e ir para além de mim”. É assim ainda em “Campo comum”, em que a incorporação totalizante e fusional no colectivo não omite a angústia, individual e irremediável, da transcendência. Em “A transubstanciação do vegetal”, são os legumes que, “Elementos orgânicos ricos em Vida”, pela intimidade digestiva se reincorporam misticamente no sujeito: “Deixo de ser eu mesma para me tornar outras coisas. / Coisas com aura e prenhes de inéditos”.
Do mesmo modo, em “A beleza pode ser mortal”, a elegia à efemeridade da beleza mortal confunde-se com a vã crueldade dos estetas. E, ainda com o motivo arquetípico da rosa, “Sonho da poeta” vai ensinar-lhe “como cantar a beleza bruta”, confundindo, quiasticamente, a corporalidade do poético e a poeticidade do corpóreo. Já em “Sede e fome”, o orgânico é o caminho do divino, e a apologia do vazio, do abstracto e do incognoscível faz-se por via da incorporação e da abolição paradoxal (algo pessoana) das distinções: “O vazio me invade:/ Resto plena de tudo o que não sou eu”. A esconjura do ódio condena o poeta à vertigem do vazio, entre a torre de marfim e a terra rasa (“Ser poeta”). Habitado por uma energia que o transcende, resta-lhe o seu canto desolado: o canto do não-ser (“Louvação”); e, nessa perda, busca a unidade, no silêncio e no indizível - um movimento de antífrase que “O Uno é Deus” consuma.
É que, em Colóquio das Árvores, o próprio espaço é especial: os sonhos de viagens são premissas involutivas, confundem-se com o regresso a microcosmos íntimos. É que, como em “Vitória e Lisboa”, as cores do mar, projecção típica do inconsciente e do caos prenhe de possibilidades, unem sinteticamente o passado e o futuro, a saudade e o sonho. “Dentro de mim há paisagens”, diz Renata em “Campos desconhecidos”; a amplidão, o esvoaçamento e a vertigem animam essas paisagens interiores, liliputianas, demandando a síntese - “a falácia da unidade”. Num poema central, “A Tupiniquim que me habita”, a noite arcaica, a imensidão da floresta e o rumor da sua palestra testemunham da persistência, no sujeito, do tempo e da matéria colectivos, atestam a sobrevivência larvar e protectora de um destino capixaba que, entre a protecção e o combate, resiste à usura do tempo e da opressão.
Assim, neste Colóquio as moradas são sonhos de intimidade aventurosa, fantasias minuciosas (e ternas) da quietude sábia, onde o próprio tempo, governado por ciclos eternos, participa do nirvana (“A sesta do monge”). Não se espante, pois, amigo leitor, se, ao topar com o assombroso poema “Réquiem para um vivo”, for levado a reconciliar-se com os rituais mágicos da morte e do enterramento. Nessas exéquias virtuais, como em todos os devaneios do repouso e da interioridade protectora, o túmulo, o berço, o peito, a morada e a memória fundem-se, numa espécie de claustrofilia carinhosa e secreta, com a promessa da latência e da eternidade.

5. É que Renata (e nós com ela) está a caminho da missão mais utópica e redentora de todas: eufemizar a morte, anunciar o triunfo da vida. E assim, em “Erosão”, a fenomenologia da cavidade, do vazio, da ruína e do desgaste dá lugar à memória do dia inicial e novo, que há-de trazer, outra vez, a unidade ressurrecta. Em “Não materialidade”, da  destruição se fará o apelo épico ao brotar universal da poesia, “canto de paz / para uma nova era”. No florbeliano “A vida e a morte”, a carne-terra se adorna de raízes e tesouros, repousando na profundidade antiga de um renascimento telúrico, semelhante àquele que, em “Renascimento”, invoca a alquimia da terra, que sempre ressuscita “amorosamente livre”.
Inaugura-se, desse modo, uma longa e expressiva série de poemas dedicados à representação da temporalidade – uma temporalidade transcendente, sintética, que engloba tanto a repetição cíclica como a linearidade sucessiva, e sempre se projecta num devir eufórico. Cindida, errante (“Esquizofrenia”), sob uma epígrafe de Hilda Hist, Renata canta o seu fundo estranhamento de Ser, adivinhando a reincorporação na terra, a reconciliação, o recomeço: uma alvorada, “Interstício que permitira a (re)integração/ Das minhas partes”.
Essa é a grande missão da poesia: retemporalizar. Em “Era uma vez”, ou em “O conselho”, ou em “A menina”, a pulsão narrativa do fantástico é, também, uma invocação ao futuro: “Pega o fio da história e tece/Uma outra história”. Não se estranhará, portanto, que Renata se confesse “Eterna romântica”, manipulando a bel-prazer a temporalidade histórica, dissolvida na sucessão sem freios da vida. Se o tempo “existe inexistindo”, o eu poético desenvoltamente nele se dilui e universaliza. Em defesa da sua poética (“Ofereço ao meu leitor Pérolas,/ as mais bonitas e espectaculares que/ a minha mente e o meu corpo,/ incendiados pelo desejo, podem produzir./ São envenenadas, sim, mas são também/ BRILHANTES e NACARADAS.”), sempre diremos que ela recupera, a justo título, a imagética colorida e preciosa, típica da feminilidade nocturna, imponente e arquetípica, através da riqueza e diversidade das imagens da substância material, na infinidade abissal dos seus matizes.
Pela própria usura, viu, leitor?, se tece o porvir: “Impermanência” assim o promete, cantando a abertura total do ser à utopia do vir a ser. Presentificada, a “Fração de tempo” grita uma imperiosa fruição do instante: “Parem tudo!”. Porque, apesar dos pesares do tempo, esse é o momento precioso de “O Sol”: momento de expansão criativa, de hino à vida - “Importa, sim, que num átimo, o Sol e eu/ Brilhamos juntos”.
E, com “Diluição” – sim, através da desagregação e do estilhaçamento – se opera a fusão com o mundo, a desmultiplicação prodigiosa de uma “partícula apenas”; se faz o louvor do presente – dádiva do momento, poesia escandida no compasso vibrátil dos dias: “Melodia ritmada, amena”. Sim, a música verbal, matéria do ritmo e da cópula, pode iludir, como por encanto, a deriva do tempo. Sim, “seria lindo ver o tempo parar”! Unicamente, a inexorabilidade do tempo tudo destina à “espoliação” – menos a eternidade esquiva das palavras (“Amar dói”).
Eis, pois, que se ergue outro veio temático maior, nesta poesia da união e da síntese: o veio erótico, misturado por vezes com a gulodice e com a devoração. É o conhecido tropismo oral e digestivo do eros, que “Viva o amor” compara ao verde kiwi… Simetricamente, a gastronómica e lasciva “Ode à batata” (equivalente feminino do robusto pimentão, protagonista da “Experiência gastroveganogozosa”), faz o elogio da beleza sensual desse tubérculo humilde, que no entanto “vibra incendiad[o] pela centelha da vida”. É bem verdade que, como os legumes, há no amor que plantar hoje para colher amanhã – para poder continuar “brincando de viver”.
Todavia, neste Colóquio, os afectos poéticos estendem-se aos lugares geográficos. “Évora”, por exemplo, deixa-se penetrar, em sussurro amorável. Os apegos incluem ainda o amor fraternal (“Encontro”), em que o beijo é o selo silencioso de uma relação entre identidades de natureza diferente, porém complementar, que se reencontra, inteira e preservada. E abrangem, igualmente, uma verdadeira comunidade de amigos, tesouros vivos, numa pletora da agapé: o amado, os gatos… E abarcam mesmo os ensaístas predilectos, compondo uma encantadora erótica da erudição (“Revelação”). Já o breve “Mina” canta a explosividade erótica, sugerindo que o Eros sempre de alguma forma destrói e aniquila. É o que se passará, afinal, no portentoso poema “Dionísio”: na “selva sagrada” de Pã, a ninfa torna-se receptáculo fluido de um Eros divinamente devorador, sofrendo, nessa hierogamia, a inscrição tremenda dos seus signos do êxtase. Ambiguamente, e sugestivamente, se representa aqui a aliança entre a libido e a morte, num despedaçamento metafórico que grava, no corpo feminino, os traços arrebatados de uma escrita alucinada.
Na verdade, a poesia bem parece coisa de mulher, com seus olhos, suas garras, seu sangue periódico, lunar (“Ser poeta III”). Poesia: ser heteróclito, impossível, de cauda, asa, bico, síntese de contrários e de tempos, fascinante e feroz que nem mulher – o uno no fragmento: “Garatuja, esboço, traço: / Risco” (“A poesia” e “Todo poema”). A escrita é uma aventura (“Exílio”); auto-referencial, alma-pena navega, na vaga; no indiferenciado oceano dos signos, demanda o deserto fulgurante: “Busco a folha em branco. /Terra firme onde a palavra,/ Insurrecta, prospera”. Sendo navegação, é-o também no tempo: arqueologia. Assim, num poema cintilante, “Art poétique”, Renata apela à fundadora “palavra fóssil”, “o verbo matriz,/ nosso ancestral unicelular delirante”: o genoma desvairado do lirismo, que concentra, qual ouro ou sal alquímico, a substância íntima do poético.

Na sua requintada, mas elementar organicidade dialéctica, Colóquio das Árvores guarda ainda um repto e um compromisso final, a que só a sua própria leitura, amigo leitor, poderá dar resposta activa. Afinal, poesia é “a palavra viva”. E, por isso, ”paga tanto quem escreve,/ Quanto quem lê.”


Cartaxo, Portugal
Ana Luísa Vilela




[1] Gilbert Durand, As Estruturas Antropológicas do Imaginário. Introdução à Arquetipologia Geral [trad. de Hélder Godinho], Lisboa: Presença, 1989, p. 235.

2 comentários:

Misionero disse...

Cara poeta e amiga Renata Bomfim, fiquei muito grato e impressionado com seu poemario Colóquio das Árvores e seu imenso re-verdesser em palavras que impregnam o coração ...
Essa palvra que um dia de muitos (emhoraboa), chegou ate a minhas mãos e, eu li sem imaginar a vasta perplexidade natural que ía despertar-me, ao emfocar sua diáfana ligação, conivente com a divina divisa inerente aos caminhos místicos da Árvore da Vida...
Ele é, como uma expansão de ressonância que está sendo derramada e é substancial nessa unidade telúrica, no explícito contexto ecológico, que fazem as quatro molas líricas
encarnadas com aquarelas de tan adequados sentimentos.

Na tentativa de compreender a sua motivação é em ela percebida uma paixão enigmática que irrompe do sangramento dessas conversações emanadas dos bálsamos vegetais que suspiram e choram para dar uma nuance especial ao belo conteúdo poético de suas mensagens. Certamente, até agora, muitas árvores, devem estar sonhando com vocé, quebrando o silêncio da floresta, que agora ilumina-se de comjuros, de primaveras e sorrisas libertárias.

Hallo naqueles versos uma trincheira onde sua voz se sente multiplicada. Você coloca as palavras para fazer que existam aquelas coisas que devem ir e vir, em tristezas e alegrias, a nostalgia de um evangelho coincidente com a visão clara da sua retina, que reter esses sonhos dissipados que agora, verso por verso, eles se agarram ate a última sílaba do seus versos abençoados, os Colóquio das Árvores. Vejo claramente como brotam ramos, daquí e la, palavras redentoras de vida, e é como sem a sua pele entra em contacto com a casca das árvores, que povoam seus assombros diante do verde terno de seu coração.

Há esperança na madeira que sustenta para preencher de sementes férteis a tigela de nossas mãos, que ao calor da discussão, procuramos ir depositado sobre a dor do solo sedento de novos brotos e talos, seiva de coração para expandir o espaço das consolações, e aliviar o clima ruin da desumanidade, do indiferença e até amargas securas que, diariamente, crescem e, elas nos ameaçam com afondar no deserto de um cruel desastre eco-ambiental. Abraços, Muito obrigado querida poeta!!!

Misionero disse...

Cara poeta e amiga Renata Bomfim, fiquei muito grato e impressionado com seu poemario Colóquio das Árvores e seu imenso re-verdesser em palavras que impregnam o coração ...
Essa palvra que um dia de muitos (emhoraboa), chegou ate a minhas mãos e, eu li sem imaginar a vasta perplexidade natural que ía despertar-me, ao emfocar sua diáfana ligação, conivente com a divina divisa inerente aos caminhos místicos da Árvore da Vida...
Ele é, como uma expansão de ressonância que está sendo derramada e é substancial nessa unidade telúrica, no explícito contexto ecológico, que fazem as quatro molas líricas
encarnadas com aquarelas de tan adequados sentimentos.

Na tentativa de compreender a sua motivação é em ela percebida uma paixão enigmática que irrompe do sangramento dessas conversações emanadas dos bálsamos vegetais que suspiram e choram para dar uma nuance especial ao belo conteúdo poético de suas mensagens. Certamente, até agora, muitas árvores, devem estar sonhando com vocé, quebrando o silêncio da floresta, que agora ilumina-se de comjuros, de primaveras e sorrisas libertárias.

Hallo naqueles versos uma trincheira onde sua voz se sente multiplicada. Você coloca as palavras para fazer que existam aquelas coisas que devem ir e vir, em tristezas e alegrias, a nostalgia de um evangelho coincidente com a visão clara da sua retina, que reter esses sonhos dissipados que agora, verso por verso, eles se agarram ate a última sílaba do seus versos abençoados, os Colóquio das Árvores. Vejo claramente como brotam ramos, daquí e la, palavras redentoras de vida, e é como sem a sua pele entra em contacto com a casca das árvores, que povoam seus assombros diante do verde terno de seu coração.

Há esperança na madeira que sustenta para preencher de sementes férteis a tigela de nossas mãos, que ao calor da discussão, procuramos ir depositado sobre a dor do solo sedento de novos brotos e talos, seiva de coração para expandir o espaço das consolações, e aliviar o clima ruin da desumanidade, do indiferença e até amargas securas que, diariamente, crescem e, elas nos ameaçam com afondar no deserto de um cruel desastre eco-ambiental. Abraços, Muito obrigado querida poeta!!!