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06/06/2016

Solares: poema em dez atos (Renata Bomfim)

I
Fui atriz.
Lembro ainda:
Noites de estreia,
Luzes, cenários.
Podiam ver que eu era
Quem fingia ser.

Atuei nos palcos da ilha mundo
Sendo eu e sendo outras de mim.

Quando as luzes se apagavam
Bebia o sol que trazia escondido
Em um frasco dentro da bolsa.
Bebia a luz densa e flexível sentindo raiar o dia.
Pensava: - hoje o inédito está vulnerável.

Naquele mundo
Mãos ávidas agarravam o resto de brilho
Que se esvaia do sol que se tornara dia.
Sedutor, o astro balançava na minha direção
A ruiva cabeleira.
−Te quero aqui! Te quero!
As palavras brotavam límpidas de minha boca 
Como se um veio d'água nascesse em pleno deserto.
Te quero!

Entre os dedos gotejava, viscoso, o desejo.
Eu era noiva então e seguia
Vestida de luz.
As núpcias.
Nossos corpos serpentearam enroscados
como raios.

II
Sentamos à mesa.

O garçom serviu, quente, a carne de um anjo.
Você, que me prometera o paraíso, me obrigava a comer carne de anjo.
Eu sentia o horror de ter entre os dentes aquele pequeno mimo,
Delicia, transgressão macia e...
Minha língua analisava a textura do santo,
O meu sangue tornou-se vinho. 
Salivei mel e excretei delícias sem nome: 
Ainda éramos inocentes!
O anjo fora preparado com ingredientes frescos
Colhidos no que se tornaria a eternidade.

III
Elevo os olhos para além 
Do conhecido.
O céu fictício, com o sol que carrego penitente,
Existe inexistido.
A fabulação é ofício (árduo e fatídico)
Fabulo para não morrer e canto
Cantiga antiga, de amiga, de amor.

Quero apalpar o amanhã,
O dia é o prolongamento do sonho.
Canto o amor que trouxe desde a célula duplicada
Amor que continua dentro e que grita a minha boca aberta, 
Quentura, ansiedade e desejo por outra boca quente.
O meu ser convulsiona dentro do sistema,
Não me encaixo!
Caixa, coxa, convulsiono!

Estou nua das certezas,
O amor me habita,
Convulsiono!

IV
A vida anda curta.
Os dias não cabem no teu momento de contentamento.
Eu canto como quem grita no escuro e não escuta a própria vida.
O sonho que prolonga a vida e o viver não acorda.
Cegueira.
Levo a mão ao seio, sinto a carne quente que vibra
Sinto o céu como se voasse no vazio.
O céu é um buraco, não há nada além de nuvens.
Desenho no céu com as nuvens!
Imagino e não vejo possibilidade de voltar a cantar.

V
Estava cansada de levar comigo
O sol.
Guardava o astro entre as mãos como se
dele dependesse a vida.
As trevas eram pesadas como pétalas de rosas.
O sol pesava e queimada a palma ressentida de minha mão.

Precisava plantar o astro antes que ele explodisse:
O sol é uma bomba!

Caminho cantarolando a música do pássaro e da aranha.
O sol está rubro como um tudo,
Plantar o sol é a minha maior responsabilidades.
Útero sol.
Razão do amanhã.
Razão do meu ventre parindo alvoradas,
Razões do meu corpo retalhado pelos sonhos.

Cai a noite.
O sol não se arrepende da luz que perdeu.

Sombra amiga, qual a medida do meu ser dia?
Qual o tempo da colheita das rosas?
A estrela gira suas pontas,
Há desespero nos dedos dos meus pés.

VI
Cortei a cebola.
Os olhos percorriam a cozinha.
Cada objeto guarda um segredo.
Há momentos em que o tilintar das colheres
Evoca espíritos.
Cortei a cebola e coloquei na panela quente
Óleo e alho.

O fogo aquecido evocava o frio de uma ausência.
Lembrei da hortelã e da pimenta.
O verde e o vermelho enviaram um tempo
De cores e aromas felizes para a mesa.
A felicidade estava de volta
Como um morto revivido enviado pela memória.

VII
Já fui princesa no devaneio de uma saudade.
Já fui princesa.

Toquei a poesia
Vislumbrei o invejável de uma presença.
As sombras não deixam esquecer a minha filiação.

Caiu a máscara.
Sob o verniz outra máscara e outra e outra.
A solidão desafia, sob o não-rosto, o teu rosto frio.
A luz fraca se projeta no chão que se abre
Sinto o mundo dentro de mim,
Vejo as entranhas da terra.

Fui mulher quando as mulheres não sabiam
Que era preciso carregar o sol.
Fui mulher quando não existiam mulheres e nem homem,
Apenas seres.
A noite possui uma razão desprovida de verdade,
As sombras brincam de volúpia e potência.
Fui mulher ensaiando a delícia de ser esse não ser.
Não sabia que as sombras eram filhas do dia adormecido.

Lembro ainda, fui princesa nos meus sonhos!

Caminhei por lugares distantes repetindo o teu nome,
Desejando pertencer a tua família.
Queria o teu nome junto ao meu.
Assim, garantiria que nossos corpos estariam unidos pela eternidade.
Sonhei, sonhei, sonhei.
A realidade revelou que o dia dura um tempo colossal.

VIII
A casa continua vazia.
O sol está sobre a mesa, ilumina o ambiente,
Um anjo se revira no meu dentro.
Falta algo.
Falta o sol no auge do esplendor,
O sol perdeu a potência.

As ruas estão vazias.
As pessoas desapareceram no labirinto de suas
Solidões particulares.
As paredes das casas guardam as últimas palavra pronunciadas.
Os homens entraram na espiral do esquecimento.

−Te amo!
Ouço uma ruína gemer como se fosse de carne e sangue.
−Te amo!
Vivi o vazio da casa eterna-eternamente vazia,
Necessito do teu estar aqui,
Necessito que o teu corpo etéreo se torne realidade.

IX
O sol é uma saudade dentro de um tempo.
Lutei para ser alguém,
Enchi a cabeça de teorias,
As paredes plenas diplomas mostram
Que fracassei

Sou alguém quando teu corpo raspa as camadas do meu dentro,
Penetrando o meu uno,
Fertilizando o meu simples, 
Pluralizando esse isso que hoje brilha dentro de mim.

X
Saiu da minha boca uma palavra
E voou para o inefável como uma pomba em busca
de outra palavra.
Meus joelhos se dobraram
Rezei sem fé palavras encantadas,
Crente no poder do dizer:
Femeamente celebrei e dancei ao redor
Das palavras: inomináveis!


**Renata Bomfim

Vitória, 06-06-2016

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