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01/09/2016

A poesia de PadreJosé de Anchieta (profª Dra. Ester Abreu Vieira de Oliveira)

Anchieta nasceu no dia 09 de março de 1534, em Tenerife, nas Ilhas Canárias,  foi para Coimbra estudar a mandado de seu pai, próspero tabelião. Ali adquiriu conhecimentos humanistas e teológicos e lhe despertaram a vocação religiosa e o desejo de participar de um trabalho missionário. Em 1551, fez-se noviço. A formação humanista de Coimbra lhe proporcionou a apreciação do humano, no que ele tem de bom e belo, saindo das mãos do criador, mas a espiritualidade da companhia de Jesus moldou-lhe o caráter.
Em 1553, veio para o Brasil, a Terra de Santa Cruz, na armada do Segundo Governador Geral, na terceira leva de jesuítas e, em 1566, na Bahia, ordenou-se sacerdote.
No Brasil, Anchieta se ordenou e militou na causa da doutrina cristã, segundo a filosofia jesuítica do Renascimento, unida às funções de sacerdote, estava a de administrador, Pacificador, Superior Provincial, professor e escritor pluringuista (espanhol, português, latim e tupi) e de gêneros variados: poeta, filólogo, historiador, dramaturgo. Depois de ter vivido 44 anos atuando na filosofia jesuítica de seu tempo, na missão catequizadora, buscando ensinar a cultura religiosa, viver dentro da moralidade cristã e fundar colégios em (São Paulo e Espírito Santo, principalmente), morreu em 09 de junho de 1597, em Reritiba, hoje Anchieta, no Espírito Santo.
Na manhã do dia 03 de abril deste ano (2014) o papa Francisco (ex cardeal Jorge Mario Bergoglio) assinou o documento que garantiu, junto a Frei Galvão e Madre Paulina, a santidade ao padre jesuíta José de Anchieta que, por meio da catequização, exerceu um papel primordial na construção da nação brasileira.  O Processo de beatificação iniciou em 1726 e concluiu em 1980 e, neste ano, chegou à categoria de santo.
Anchieta fundou a arte poética no Brasil, mas até o século passado suas poesias permaneceram inéditas. Só em 1814, após a restauração da Companhia conseguiram-se cópias manuscritas de algumas poesias de Anchieta que se guardam no Instituto Histórico e Geográfico do Brasil.
O maior interesse de Anchieta no Brasil foi sempre para com o homem indígena. Para com ele manifestava uma grande compaixão, dentro dos padrões filosóficos da época. Assim o atraso da civilização silvícola brasileira, no conceito humanista, e a sua falta de fé cristã, no rigor da idéia jesuítica, atraíram-no menos que o sentimento de simpatia e, às vezes, de admiração pelas qualidades naturais, manifestadas pelo selvagem. Com arrebatamento descreveu do homem nativo: o hábitat, os costumes, a música harmoniosa, o trajar, as festas, a política e o exercício bélico. Para atender os objetivos de pedagogo e alcançar o entrosamento com os índios, aprendeu o tupi, a língua geral que contava com maior número de falantes e, para facilitar os trabalhos dos outros jesuítas, organizou uma gramática do português e tupi: Arte da gramática da língua mais usada na Costa do Brasil, publicada em Coimbra em 1595.
A expansão marítima motiva os escritores a escreverem seus livros históricos sobre esse acontecimento, trazendo João de Barros, na sua obra Década da Ásia a novidade do sentido ecumênico da história. É uma época de produção literária, da reabilitação da língua e da literatura. Como exemplo, citamos Sá de Miranda que, influenciado pela lírica italiana, introduz canzone e, por outro lado,  Gil Vicente que faz autos (dramas religiosos e teatro satírico). O movimento humanista alastrou-se no reinado de D. João III, devido à sua inclinação para as letras e os letrados. Coimbra, mesmo antes da transferência da Universidade (1537), era o grande centro cultural humanista. Era um opróbrio, em determinados colégios, deixar de falar em latim ou grego. Assim, em Portugal, as influências humanistas, com a expansão das literaturas clássicas (latina e grega), que chegam da Itália, compartilham com a exaltação dos valores nacionais, graças aos grandes descobrimentos dos portugueses e às várias manifestações artísticas.
Em 1540, foi introduzida a ordem dos Jesuítas ou Companhia de Jesus, mais militante que contemplativa, fundada por Santo Inácio de Loyola em 1534 com o objetivo de converter os heréticos e servir a religião. Em 1759 foi expulsa pelo marquês de Pombal. O seu lema era: "Para maior glória de Deus” [...]. No seu livro Exercícios espirituais instrui que, para alcançar a glória, se deve em algum lugar predicar, confessar e ler, ensinando os jovens, dando-lhes exercícios, visitando pobres em hospitais, exortando as pessoas a confessar-se, comungar e celebrar ofícios divinos. Os jesuítas tiveram um papel importante no Concílio de Trento. No Brasil sua ação foi militante, atraindo os indígenas para o cristianismo e para a civilização, nos moldes europeus. Criaram e mantiveram escolas, pregaram a moral evangélica, disciplinando a sociedade em formação. O papel dos jesuítas na formação da nacionalidade brasileira é relevante, pois prepararam e educaram os colonos para as futuras lutas contra os piratas de diferentes procedências, propiciaram o fortalecimento político e econômico da colônia. Com os seus trabalhos de catequese, eles deram início à civilização brasileira. Entre os jesuítas não podemos deixar de destacar nessa última atribuição o mister de padre José de Anchieta.
Os jesuítas tinham uma vida de andarilho e dura. José de Anchieta, nos versos épicos de Di Gesti Mendi de Saad, exalta a hostilidade por que passam os jesuítas no seu trabalho de catequese: “Aí os raios ardentes do sol a estiolar sem piedade, / as chuvas, as sedes, a fome a atormentar de contínuo/ esses heróis irmãos unidos num só coração, / ufanos do nome de 'companheiros de Cristo Jesus'”. (1986, p. 147)
Padre José de Anchieta era enérgico. Esse caráter condizia com a descendência de pessoas decididas: o pai de origem basca emigrou para as Canárias durante a sublevação das Comunidades castelhanas (1522), a mãe, canarina, de origem judia convertida, vinha de família de conquistadores da ilha e parente de Santo Inácio de Loyola, um dos chefes do movimento religioso da Contra Reforma, o fundador da Ordem dos Jesuítas. O seu físico frágil e enfermiço não condizia com a fortaleza de espírito.
Anchieta era um jesuíta humanista: amante das letras e das armas. Como humanista, exaltava as qualidades próprias da natureza humana. Como homem das armas, defendia a doutrina cristã com a palavra religiosa e a ação – arte bélica combativa dos jesuítas. Como homem das artes, ele escrevia em prosa e em verso em latim, em espanhol, em português e em tupi, autos, canções, diálogos e orações e cartas, verdadeiros documentos históricos.
A modernidade de Anchieta é ambivalente. Pois ainda que fosse um renascentista que tomava como mestres os clássicos gregos e latinos, como faz na sua obra épica Mem de Sá, em muitas canções segue a simplicidade dos poetas medievais, (os dos cancioneiros). Nos poemas que ele escreve em latim eclesiástico, para transmitir um amor singelo à Virgem, ele bebe nas fontes, desde Virgílio ou Ovídio, como humanista, mas também nas singelas fontes dos hinos eclesiásticos de são Tomás de Aquino ou são Bernardo.
Anchieta funde em sua obra poética, duas culturas, a clássica e a medieval, pois quando escreve em latim utiliza não a métrica clássica, mas a singeleza do ritmo medieval. Assim acreditamos, porque sentimos nele a necessidade de adaptar-se ao povo do Brasil em seu afã de comunicação. No contato com os habitantes da colônia  desejava falar-lhe mais intimamente, tocar-lhe o coração, procurando ser um homem de sua época e de seu ambiente. Ao escrever, evitava os termos e as expressões literárias, procurando um vocabulário próprio da conversa quotidiana, de léxico reduzido para fazer-se compreender. Utilizava poucos recursos retóricos, mas com propriedade emprega rimas comuns, da mesma categoria gramatical – uma difícil arte - estrofes de cinco versos (quintilha), o terceto, a nona, a sétima, a sextilha, a undécima e o verso da redondilha maior, a metrificação mais popular na Península, os quebrados, os decassílabos, etc.
Um exemplo de seu afã de comunicação com o povo simples da colônia é o seu auto Pregação Universal, para ser representado em festas de Natal. Nele sete crianças fazem a sua oração ao menino Jesus em português, dois em espanhol e três em tupi.
A última canção, em espanhol, ele a escreveu um mês antes de morrer, ela se encontra no Auto da Visitação: “Quién te visitó, Isabel, / que Dios en tu vientre tiene? / hazle fiesta muy solemne, pues que viene Dios en él [...]”.
Em seus versos, o poeta jesuíta procurava estimular os cristãos, elogiando-os, exaltando a civilização em ebulição. Um exemplo são os versos, no auto de Santa Úrsula, nos quais manifesta o seu carinho pela Capitania do Espírito Santo: 

Ditosa Capitania,
que o Sumo Pai e Senhor
abraça com tanto amor,
aumentando cada dia
suas graças e favor.

Anchieta possuía uma grande capacidade de versejar. Com extrema musicalidade e candura escrevia os poemas e canções em português, espanhol latim e tupi com a finalidade de doutrinar. Um exemplo desse objetivo é o poema Canção à Santa Inês, onde quer mostrar como são recebidos por Deus aqueles que o amam. O poema nos lembra os hinos sacros ou os poemas dos cancioneiros à maneira de Gil Vicente ou de Jorge Manrique. Dividido em três partes, na primeira mostra a entrada da santa em nove quartetos “Cordeirinha linda/  como folga o povo" [...] na segunda parte fala do martírio da Santa. Destaca o trabalho de padeira, “Nao é de Alentejo/ Esse vosso trigo, mas Jesus amigo/ é vosso desejo [..]” (1984, v. 1, p. 112, para poder falar metaforicamente da eucaristia utilizando as palavras: trigo, pão, farinha, bolo.
 A lírica de Anchieta, presa muito mais à tradição ibérica, ou mais precisamente ao cancioneiro popular, que ao quinhentismo italiano, foge ao individualismo, próprio dos clássicos e, ao expressar o seu universo interior, com simplicidade, isto é, o seu sentimento pessoal e íntimo, ao sentido cristão, faz-se coletivo. Um exemplo é o “villancico”, canções próprias do Natal, poesia delicada em estilo popular onde se empregam os artifícios de pergunta do pecador e resposta do menino Jesus, desde o mais inicial: Seguem as perguntas e respostas em sextilha, terminando com um termo chave: pecado.

- Que fazeis, minino Deus,
Nestas palhas encostado?
- Jazo aqui por teu pecado.

-  Ó minino mui fermoso,
pois que sois uma riqueza,
como estais em tal pobreza?

- Por fazer-te glorioso
 e de graça mui colmado,
jazo aqui por teu pecado (1984, v. 21 p. 91-92).

Exemplo da arte poética, variada, de Anchieta podem oferecer os versos do Auto de Santa Úrsula, onde a personagem Vila de Vitória fala a essa Santa de sua felicidade em recebê-la. A fala da Vila de Vitória, em um "villancico",  uma composição poética de "arte menor", derivada da estrutura morisca do século X, o "Zejel", inicia-se com um mote, quatro versos em redondilha, seguindo-o versos em quintilha, sempre com um acréscimo de um dos versos do mote inicial, transformando a quintilha em sextilha. Outro exemplo de transformação do ritmo estrófico se encontra no canto ao Santíssimo Sacramento. A redondilha se quebra para acentuar, num ritmo forte, como um golpe de um bastão, a idéia mais relevante que o poeta quer informar na estrofe. O ritmo desses versos em redondilhas e tetrassílabo nos lembra o do poema medieval, elegíaco, de Jorge Manrique, Coplas por la muerte de su padre, organizado em estrofes de "pie quebrado" (octossílabos e pentassilabo). Comparemos uma estrofe desses poetas:

Anchieta

Ó que pão, ó que comida,
ó que divino manjar
se nos dá no santo altar,
         cada día!
Manrique

Nuestras vidas son los ríos
que van a dar en la mar,
qu'es el morir;

Em seu poema místico, em espanhol, "Desterrose el rey del cielo", em que semelhante a São Juan de la Cruz,  apresenta a alma como esposa de Cristo,  organizada em estrofes de  heptassílabos e endecassílabos, com rimas a, B, a, b, B, - estrofes a que se chama "lira", Anchieta  explora a imagem da Igreja esposa de Cristo:

No sientas mi partida,
mas antes, si me tienes en tu pecho,
y estás conmigo unida
con amor muy estrecho,
alégrate, que al Padre voy derecho. (1984, v. 2, p.. 61)

A lírica em tupi de Anchieta pode ser encontrada em alguns autos. Servia para instigar o canto ou a dança a seus alunos. Um exemplo de poemas em tupi é a dança "Pejori xe irú eta" (Achegai-vos, meus amigos) que se encontra no Auto de Guaraparim. As quadrinhas de música são redondilhas, com exceção da oitava que é uma quintilha.
Misturando ritmos latinos, portugueses e espanhóis, o poeta variava o ritmo tupi, recriando um: o da confraternização, antevendo o que será a cultura brasileira, no seu afã de doutrinar e, para o tupi, transportava os ensinamentos judaicos, fundindo cultura e idioma. O poema "O sem ventura", inspirado nas orações da Ave-Maria e Salve Rainha, é  um exemplo:

Tupansý porangeté
oropáb oromanómo!
oré moingopé jepé
nde membýra moñýrómo,
inongatuábo.
oré rarómo,
oré ánga pýsýrómo
Mãe de Tupã toda linda,
eis-nos todos expirando
Tu nos dás a vida infinda,
ao Filho teu aplacando,
tornando-o manso,
a nós guardando
e a nossa alma libertando.
(1984, v. 1  p. 197)

 
As poesias líricas de Anchieta são de cunho religioso, mais precisamente de tradição mística:

- Jesus, bom pastor,
como andais penado!
- Ando maltratado,
por te dar amor!. 
(1984, v, 2, p. 138

No sientas mi partida,
mas antes, si me tienes en tu pecho,
y estás conmigo unida
con amor muy estrecho,                                                                 
alégrate, que al Padre voy derecho.
(1984, v. 2, p. 139)

Assim, as poesias de Anchieta, de objetivo didático-doutrinal, destinavam-se à recitação, ao canto e à representação teatral. Muitas delas passaram a ser cantadas pelo povo. Seus temas eram variados, retirados da Bíblia, da tradição católica (ofícios, litúrgicos – sacramentos -, vida de santos ou devoções marinas). Em seus versos, Anchieta deixa refletir a sua fé e o desejo de propagar o conhecimento cristão junto aos colonos e índios em seu afã de catequizá-los. Em sua obra poética, observa-se a síntese dos elementos que caracterizam o Renascimento, que a arte dos escritores místicos absorveu: o elemento idealista e o realista. O sentimento da beleza terrestre se sublima no desejo de unir-se com Deus, beleza absoluta.
Em sua vida, como na dos dois grandes místicos espanhóis, Santa Teresa de Ávila e San Juan de la Cruz, combinam o espírito místico, manifestado nos poemas e canções, inseridas em seus autos (sua lírica) e o da vida ativa dos batalhadores jesuítas. Fundindo a linguagem viva de expressão cotidiana com a linguagem culta do latinismo renascentista e do poético do estilo bíblico, introduz Anchieta na nova Colônia portuguesa o Barroco.

Referências
-ANCHETA, J . Lírica espanhola. Obras completas. Anotações e introdução por Armando Cardoso. São Paulo: Loyola, 1984.5 v., I, II.
-OLIVEIRA, Ester Abreu Vieira. Ultrapassando fronteiras em metapoemas. Vitória: PPGL/MEL, CCHN, 2004, p.19-26.


ESTER Abreu Vieira de Oliveira, Muqui (1933), Doutora em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Pós-doutora em Filologia Espanhola – UNED, membro do Colegiado do Programa de Pós—Graduação Mestrado e Doutorado em Letras – Estudos Literários – UFES, atua na área de Letras, atualmente, em teatro, poesia e narrativa da Literatura hispânica, literatura brasileira e literatura espanhola. Como pesquisadora - Linha de Pesquisa — POÉTICAS DA ANTIGÜIDADE À PÓS-MODERNIDADE (PAP), é lider do grupo de Pesquisa CNPq: Estudos de literatura hispânica: caminhos e tendências. Tem participado como representante de instituição em comissões e conselhos culturais estaduais e municipais. Possui trabalhos publicados (impressos, on-line e CDs) em revistas especializadas, em jornais e em anais de congressos com temas referentes às línguas e às literaturas espanhola e brasileira e, ainda, livros didáticos e infantis, tradução de obra, livros de poesia, de crônicas e de ensaios.  Pertence à Academia Espírito-santense de Letras, Cadeira 27, à Academia Feminina Espírito-santense de Letras, Cadeira 31, ao Instituto Histórico, Geográfico do Espírito Santo, à Associação de Professores de Espanhol do Espírito Santo, (Membro fundador), à Associação Brasileira de Hispanista (Membro fundador), à Asociación Internacional de Hispanista, à Asociación Internacional del Teatro Español y Novo Hispano - AITENSO

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