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11/01/2017

[artigo] Incursões em torno ao indigenismo na Literatura Latino-Americana, no palimpsesto da História

Profª Drª Ester Abreu Vieira de Oliveira

Objetivamos mostrar a presença do indigenismo na Literatura Latino-americana, repassando a sua presença desde a época colonizadora até a Pós-Modernidade, destacando a obra argentina de Ema, la cautiva,  de César Aire, apresentando as rupturas de cânones e continuidade que ela traz em si e fazendo uma paralelo entre esta obra e Iracema,  de José de Alencar.



            Com a chegada dos espanhóis e portugueses à América, os portugueses e os habitantes da terra com sua cultura: costumes, língua e mitos começaram a ser um dos principais motivos das crônicas e cartas. O exotismo, que o Novo Mundo apresentava aos homens renascentistas europeus, aliado ao desejo desses homens de encontrar o “ Paraíso Perdido”, naquele “Século de Ouro da humanidade”, podem ser decodificados na leitura desses primeiros documentos que falam da América para a Europa. A vida dos nativos representava para os europeus um mundo de inocência idílica que se contrapunha a um mundo de crueldade trazido por eles. Por essa razão, os habitantes da terra passam a ter defensores, principalmente entre os missionários. Destacam-se Bartolomeu de las Casas, na América Hispânica e José de Anchieta e Pe Manuel da Nóbrega, no Brasil.
            A figura do índio passa a pertencer à obra literária na crônica de Garcilaso de la Vega, el Inca (Peru: 1539-1616). Citamos Los comentarios reales, onde esse escritor narrou, poeticamente, o esplendor do Império Incaico e falou dos costumes daquele povo reproduzindo as suas recordações e as narrações de seus antepassados.
Contudo, o motivo indígena surgiu com preocupação de arte em si no século XVI, quando escreveram poemas épicos José de Anchieta, Mem de Sá (1563 ), e Alonso de Ercilia, La Araucana (Madrid: 1669, 1ª parte).
Anchieta, objetivando salientar a aculturação religiosa, em Dei Gesti Mem de Sá (1986), no Libro I, expõe o objetivo de seu canto de louvar a Deus, de cantar o seu prodígio e de converter os índios do Brasil ao cristianismo. Destaca o papel do herói, “o piedoso Mem de Sá” (v. 902) que em uma terra conquistada pelo “trabalho esforçado dos lusos” (v. 2398), deseja “ver adorado o Senhor do Céu, do mar e da terra/ e venerado nas plagas do sul o nome de Cristo” (v. 904-905). Para isso impõe as “[...] leis aos índios que vivem quais feras/ e (deseja)  refrear seus bárbaros costumes. [...] y não permitir que “movidos... de gula infrene bebam o sangue fraterno,/ nem mais se violem os santos direitos da mãe natureza/ e as leis do Criador.[...]” (v. 909-911).
Anchieta (1986), tomando como modelo os clássicos gregos e latinos, escreve em latim a primeira epopéia em terras brasileiras, e com ela antecipa a “Prosopopéia” do pernambucano Bento Teixeira Pinto.
A obra está dividida em quatro partes, ou livros, nas quais o autor se limita a cantar louvores ao Governador e aos soldados europeus. Anchieta, de acordo com uma percepção do mundo jesuíta, ao mesmo tempo renascentista, tem uma intuição, acentuadamente, maniqueísta do mundo. De um lado os cristãos europeus, Mem de Sá, os portugueses, os civilizados, e do outro os idólatras e antropófagos nativos, rendidos ao jugo do tirano infernal, levando uma vida vazia de luz divina, enganados, como "nuestros primeiros padres", pelo rei dos infernos. Para estes, Deus onipotente, misericordioso, destina um herói vingador que, como o arcanjo Miguel, expulsaria as discórdias, acabando com as horrendas guerras., pois traz “[...] Arraigado no seio [...] um amor de Deus, santo, filial, verdadeiro/ e a fé de Cristo desmentida. No peito,/ incendiado pelo sopro divino, ferve-lhe o zelo/ de arrancar as almas brasílicas às cadeias do inferno" [v.173-147]. Se bem que Anchieta sobreleva os valores cristãos europeus em detrimento dos costumes dos povos de, como diz o poeta, “las regiones brasílicas", há passagens em  que assinala a força guerreira dos Tamoios. Mas para engrandecer a vitória dos portugueses, mostra-a conquistada com sacrifício devido à valentia do inimigo, "fera tribu", que "[...] Inúmeros danos/ causa por toda parte, talando as culturas em fruto/ e arrebatando os homens[...]."(207-209) Todavia reprova os costumes tamoios da antropofagia: "[...] Afastam-se altivos com a presa/ e fartam de sangue humano os ávidos ventres. /Eis que se ajuntam, vindos de várias paragens,/ em mangotes cerrados, para arruinar para sempre/ as aldeias cristãs, ferve-lhes nas veias a raiva/ a louca paixão da guerra e o apetite da carne/ humana, batem os corações em fúrias amentes." (v.209-215)  
            Ercilia (1945), em 37 cantos de oitava real, narrou a sua própria experiência na guerra contra os indígenas chilenos, os araucanos: “[...] fiero pueblo no domado/ que tuvo a Chile en tal estrecho puesta,/ y aquel que por valor y pura guerra/ hace en torno temblar toda la tierra. Em sua obra cantou o heroísmo dos soldados espanhóis e dos caciques araucanos, exaltando, principalmente, a figura de Caupolicán. Apresentou costumes guerreiros daquele povo, sem deixar de assinalar uma certa sensibilidade pelo ambiente americano.
            No Canto I, por exemplo, descrevendo a província do Chile e o estado do Arauco “con las costumbres y modos de guerra que los naturales tienen” (p. 37), Ercilla falou dos caciques, do governo, da educação militar que davam, desde cedo, aos meninos e do tipo de armas que usavam: “Las armas dellos más ejercitadas/ son picas alabardas y lanzones,/ con otras punta largas enastadas/ de la fación y forma de punzones/ hachas, martillos, mazas baarreadas,/ dardos, sargentas, flchas y bastones,/ lazos de fuertes mimbres y besucos,/ tiros arrojadizos y trabucos” (p. 42).
No Brasil, em 1769, Basílio da Gama escreveu o poema épico Uruguai (1769) e Santa Rita Durão, Caramuru, ambos com o objetivo doutrinal.
Na Argentina do século XIX, no romantismo, no gênero gauchesco, encontramos o motivo dos índios no poema Martín Fierro (ida: 1872; volta : 1879), obra de José  Hernández. Nessa obra os índios foram apresentados com uma grande força selvagem. Igualmente violentos são os índios que nos mostrou Estévan Echeverría em La Cautiva. Há nestas obras “malones” (assaltos de índios), nos quais são aprisionadas mulheres brancas. Enquanto no Equador, em Cumandá, (1871), Juan León Mera retratou os seus personagens indígenas como figuras abstratas. E os pintou ingênuos diante da brutalidade dos fazendeiros. Há um caráter de protesto social contra a opressão indígena. Contudo, pode-se dizer que é o romance indianista, deste período, que introduziu, em verdade, este gênero e está vinculado ao Romantismo.
A primeira obra indianista, brasileira, Los Machakalis, foi publicada em Paris, em 1824. O êxito das novelas indianistas brasileiras românticas reside na visão idealista dos índios. Em um ambiente paradisíaco, há uma volta ao Paraíso Perdido.
Em 1857, surge O Guarani de José de Alencar, em cuja obra se inspirou Carlos Gomes para a ópera Il Guarani, no personagem Peri. Nessa obra percebe-se o forte, o belo, o leal e o puro de um homem da raça guarani.
O índio dos romances indianistas dessa época surge como um mito do “Bom selvagem” na filosofia de Rousseau e símbolo do brasileiro em oposição ao lusitano e, por tanto, representante do anseio da liberdade política, social, espiritual e artística, enfim da identidade brasileira. É um tema que se une à volta da fonte da inocência. A narrativa desses romances tinha um aspecto de história por sua centralização em uma época pretérita. Além de O Guarani (1857), José de Alencar escreveu mais duas obras indianistas, Iracema (1865) e Ubirajara (1874).
Em Iracema os personagens indígenas são um recurso para o escritor denunciar a destruição de uma civilização e o esquecimento sofrido durante a sua aculturação.  A função do lapso de memória é fornecida pela jandaia, que, enquanto viva Iracema,  repetia o seu nome, mas depois de morta a índia, com o tempo decorrido, a ave deixou de pronunciá-lo. A narrativa se concentra na história do amor de uma índia da tribo Tabajara, Iracema, por um europeu, Martim. Esse laço amoroso tem a função de assinalar a origem do povo cearense, no filho dessa união, e apresentar um povo bárbaro em estado de pureza e autenticidade (Alencar, 1972).
Desse povo o narrador destaca os rituais de guerra, a laboriosa e significativa pintura no corpo, os banhos no rio e lagoas, a ruptura de tabus tribal e filial pela entrega a um amor total de Iracema ao forasteiro branco, sendo ela a filha de um Pagé, o feiticeiro da tribo, porque pretende mostrar a autenticidade de um povo que se contrapõe em sua ética de lealdade e amor à dos homens civilizados. Desde as suas primeiras linhas, o romance toma a direção de ressaltar o elemento pátrio, destacando o mar, a fauna e flora cearense, num discurso poético e ritmado:

Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba.
Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, prolongando as alvas praias ensombradas de coqueiros;
Serenai, verdes mares e alisai docemente a vaga impetuosa para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas...(ALENCAR, 1971, p.8)

Os recursos formais - o lírico unido ao ritmo e as metáforas - aparecem na descrição da praia cearense e estão presentes em toda a narrativa. A símile adorna os diálogos entre os índios e Martim. Como exemplo, reproduzimos um fragmento de um diálogo entre Poti, o filho do chefe dos Pitiguaras, referindo-se a Martim: “Assim como a seta traspassa o duro tronco, assim o olhar do guerreiro penetra n’alma dos povos” (Alencar, 1972, p. 34). Com esse recurso, Alencar objetiva nos dar a ilusão de pobreza vocabular por parte do nativo e introduzir elementos da natureza e a vida social do índio.
O relato do romance O Guarani (1857) se desenrola no século XVII, às margens do Paraíba. O protagonista é Peri. Nessa obra se concentra a simbologia da fundação da nacionalidade brasileira no cruzamento das raças branca e indígena, claramente manifestada no final da narrativa, quando, num encontro entre brancos e índios Aimorés, há a destruição da Casa de D. Antonio de Mariz, uma espécie de fortaleza, e a morte de seus ocupantes, com exceção de Cecília, a filha deste, e de Peri que se salvam, navegando na copa de uma palmeira. Esta situação dá oportunidade a que apareça como elemento mítico indígena, a lenda de Tamandaré, o Noé indígena, que traz a idéia do repovoamento da terra.
 Ainda no século XIX, no Brasil, o índio aparece como tema em algumas obras. Citamos: O ermitão de Muquém (1869) e O índio Afonso (1873) de Bernardo Guimarães, Gauesa Errante (1866) de Sousandrade.
 Em Aves sin nido (1889), obra da peruana Clorinda Matto de Tuner, observa-se uma visão revolucionária do problema indígena. Neste romance denuncia-se a má condição em que viviam os índios quichuas. Podemos dizer que ele introduz o tema indianista regional com o objetivo de melhorar a condição de vida dos aldeãos peruanos, denunciando a exploração dos compradores de lã de alpaca, cuja injusta atitude a igreja e as leis fecham os olhos. Contudo, no princípio do século XX, o tema dos indígenas, nos romances, voltou em quase todos os países da América de fala espanhola, com um realismo violento e com um caráter de crítica social e política. Os escritores se propuseram a proteger os índios, denunciando a exploração, a falta de justiça, o abandono por eles sofrido, a hipocrisia dos governantes e a dominação estrangeira (MATTO DE TURNER, C. 1994).
No Equador, o representante de romance com o tema do índio é Jorge Icaza com sua obra Huasipungo (1934). Ele retoma o problema social do camponês índio, ocasionado pela ignorância, ingenuidade e primitivismo, num ambiente “feudal” andino, criticando os poderes estabelecidos que exploram os índios: os latifundiários, os comerciantes e a igreja.
No Peru, Ciro Alegria tomou a mesma posição do escritor equatoriano, como podemos comprovar nas obras Los perros hambrientos (1939) e El mundo es ancho y ajeno (1941), onde  há uma denúncia moral e um testemunho social da região andina, com  um certo ar de idealização. Em Los perros hambrientos, que tem como fundo a vida do índio peruano da região andina, “el cholo”, junto do seu cão pastor e o enfrentamento que terão durante uma grande estiagem, o escritor destaca a natureza hostil que desestabiliza a vida do homem e a injusta e anacrônica estrutura social que o massacra. Ciro Alegria, em El mundo es ancho y ajeno, pretende mostrar que o mundo exterior pouco significa para o índio, já que começa e termina na sua comunidade, e que o problema índio, quando existe, continua sendo econômico e social. Ele descreve a ingênua crendice da força mágica das palavras, dominante no folclore regional e/ou universal. Citamos, em Los perros hambrientos, a passagem em que a pequena pastora índia Antuca pretende fazer o vento soprar, trazendo as nuvens, falando-lhe bem alto do cume da montanha: “viento, vientooo” e, por conseguinte, as chuvas das quais os camponeses tanto necessitavam para sobreviverem, diante de uma causticante época. Em El mundo es ancho y ajeno, Nasha acredita que somente com a força de sua oração e com maldições poderia atrair o mal a dom Álvaro Amenábar, o mal fazendeiro. Alegria mostra que o mundo do índio continua sendo mágico e o coloca como intérprete dos acontecimentos. Seguem as primeiras linhas desta última obra:

¡Desgracia!
Una culebra ágil y oscura cruzó el camino, dejando en el fino polvo removido por los viandantes la canaleta leve de su huella. Pasó muy rápidamente, sin dar tiempo para que el indio Rosendo Maqui empleara su machete. Cuando la hoja de acero fulguró en el aire, ya el largo y bruñido cuerpo de la serpiente ondulaba perdiéndose entre los arbustos de la vera (ALEGRIA, 1991, 5).

Na Bolívia, Alcides Argüedas, em Raza de Bronce (1919), descreveu diferentes paisagens da Bolívia onde havia pessoas que vegetavam, viviam em casas miseráveis e eram subjugadas a superstições. Assinalou a cultura dos índios da margem do Titicaca, em dois momentos vitais: o da cerimônia do casamento e o da morte. Com esses rituais, além de destacar que tinham poucas festas, pôs em relevância a vida que levavam e as opressões que sofriam e a falta de leis que os protegessem, mas deixou uma mensagem de luta. Um exemplo está no discurso de Choquehuanka:

...he dicho ya lo que tenía que decir, y ahora a ustedes les corresponde obrar. Unicamente repito: si quieren que mañana vivan libres sus hijos, no cierren nunca los ojos a las injusticias y repriman con inexorables castigos la maldad y los abusos; si anhelan la esclavitud, acuérdense entonces en el momento de la prueba que tienen bienes y son padres de familia... Ahora, elijan ustedes... (ARGÜEDAS, 1957, p. 244)

Argüedas (1957) descreve a paisagem andina, nas imediações do lago Titicaca, adequada à situação do relato. Assim, depois de um funeral, a paisagem se apresenta triste como no fragmento que segue:

            Masas de nubes se levantaban por detrás de la cordillera, o emergían del fondo del lago, y cerraban el horizonte por el poniente, en tanto que en el otro extremo lucía el cielo azul y el sol caía gloriosamente sobre las lejanías azuladas de la llanura y los picos albos del Illimaní.
Pero, en la tarde de ese mismo día, todo cambió de aspecto.
Las nubes, bajas, informes, pesadas, se extendieron por todo el ancho horizonte, y parecían aplastar la llanura silenciosa bajo el peso de su color pardusco o negro, cual si estuviesen cargadas de hollín. El lago yacía inmóvil, sin la menor ondulación, y parecía una placa pullida de estaño, hecha de una sola pieza; y así el paisaje hízose doloroso con tanta sombra densa, del cielo y de la tierra.
Amaneció nevando
Ahora el cielo tenía un color transparente, y el paisaje fulgía lleno de una hermosa claridad blanca.
La nieve caía en copos menudos y silenciosos e iba cubriendo con armiño todas las rugosidades del llano, nivelaba las superficies toscas y orlaba de preciosos encajes los trechos de las viviendas y las dunas del río.
Todo parecía muerto y aterido. Ningún ruido rompía el enorme estupor de la campiña, que se había recogido, en un silencio religioso. (ARGÜEDAS, 1957, p. 131)

No Brasil Mário de Andrade lança Macunaína (1928) com base na filosofia do Modernismo e dentro do realismo maravilhoso e mágico. Contando e (re)contando “casos”, intextualiza fábulas, provérbios e estórias tradicionais do folclore brasileiro. O personagem central da narrativa, Macunaíma “herói de nossa gente”, é um índio que nasceu negro e passou para branco. Ele, como verdadeiro americano, nasceu “no fundo do mato-virgem. Era preto retinto e filho do medo da noite”. (ANDRADE, 1992, p.135)[1] Suas aventuras, impregnadas do mito do índio, contradizem o mito da sociedade técnica e da cultura colonizada. Com a metamorfose do herói, a obra nos transmite a idéia de que os que nascem na América, não são nem índios, nem negros e nem brancos, pois existe uma miscigenação racial e cultural. Por isso, em Macunaína, Mário de Andrade revive, de uma maneira divertida, mitos indígenas americanos e cultura popular e folclórica do Brasil. Satirizando nossos problemas, transforma o que poderia ser uma situação dramática em diversão.
No século XX, bem poucas obras sobre o tema do índio foram escritas no Brasil. Não podemos deixar de citar Quarup (1966) de Antonio Callado, Maíra (1976) de Darcy Ribeiro que, como Meu tio Iaurete de Guimarães Rosa, busca assinalar o término de uma cultura e pôr em destaque o abandono dos índios pelas leis governamentais.
Em Quarup em tom leve e brincalhão, o narrador denuncia o desinteresse do governo pelos índios. Os homens do SPI (Serviço de Proteção aos Índios) se encontram no Parque Nacional do Xingu - Mato Grosso, para a festa do Quarup. O Padre Nando faz o contato com os índios que morrem de fome dentro das reservas (CALLADO, 1966).
Maíra, dividida em quatro partes, reproduz a estrutura de uma missa e apresenta trechos em latim, grego e tupi, inclusive tupi “pornô”. A sua estrutura permite várias leituras. Uma delas é ler os mitos indígenas em contraposição com os mitos cristãos (católicos, protestantes, etc). Maíra, ser ambíguo, é a grande figura de herói civilizador, deus, que preside a sexualidade A intertextualidade cristã, que aparece nessa obra,  provém dos Cânticos dos Cânticos, de Santa Teresa de Jesus, de São Juan de la Cruz (Cap. Aaeté), do Diálogo sobre a conversão dos gentios do padre Nóbrega. Os indígenas pertencem a trinta tribos. O personagem central, Isaías, é o índio Avá que foi para Roma como seminarista e voltou ao seu povo para ser índio outra vez, mas não consegue essa readaptação (Ribeiro, 1976).
Todavia, enquanto de um lado os escritores desse século se interessam pelo tema do índio e procuram demonstrar o péssimo estado em que eles vivem, por outro lado, o Governo se mostra menos sensível e até desinteressado por essa causa.
Nesse ambiente surge, na Argentina, agora, em 1981, na Pós- Modernidade, um romance, com o tema indianista, Ema, la cautiva de César Aira[2].
O autor não apresenta a obra na forma de uma clara denúncia[3], impregnada de realismo, própria das obras hispano-americanas do princípio do século XX. Porém, aproximando-se, analogamente, do escritor romântico brasileiro José de Alencar, o autor põe os índios em contato com o branco e mostra a sua forma primitiva, salientando os seus valores. Volta-se essa obra para uma revisitação do mito do selvagem, no seu habitat natural, ao mesmo tempo em que foram surgindo as mudanças de ambiente e foi aparecendo o cotidiano da personagem central, Ema, e a vida no forte Pringles.
A ação deste romance se desenvolve nas regiões do pampa argentino, ao sul de Buenos Aires, no final do século XIX, nas cercanias de Carhué, Azul, Pringles y Bahía Blanca, na época do povoamento da região – 1870-1880.[4]
Nessa obra há uma convergência de diferentes tendências da literatura americana, tais como a exaltação a uma natureza utópica, luxuriante, apresentando o exótico nativo, o desenvolvimento de uma ideologia e a valorização da paisagem que emociona o autor, por conhecê-la e ter nela vivido, por isso a adorna com imagens e é minucioso ao descrever o pampa, apresentando a terra e os que nela habitam. O relato histórico da colonização do Sul da Argentina e a vida no forte no discurso de César Aires adquirem um tom poético. Cabe exemplificar com a seguinte descrição: ‘La mañana se anunciaba perfecta, con el sol todavía velado de rojo aunque estaba alto y Venus como una naranjita blanca. La brisa soplaba llena de perfumes, con salinidad que exaltaba”.[5]
César Aira (1081) narra, em Ema, la cautiva, a história de uma frágil mulher branca, pequena, que, raptada pelos índios, conseguirá sobreviver, mas que, ao sair desse convívio, se mostra uma mulher determinada e apta para os negócios.

Ema surge no relato, quase uma menina, de cabelos negros, com um tenro filho nos braços, viajando em um carro de boi cheio de prisioneiros, destinados para o forte Pringles. É um personagem silencioso, mas muito observador, e predestinado a uma vida de sofrimento. Durante o trajeto, Ema foi estuprada pelos soldados e capitão da caravana e tornou-se uma espécie de amante de um engenheiro francês. No forte, depois de amante de um oficial, casou-se com Gombo, um soldado do forte e fez amizade com os índios. Ema foi raptada, em um ataque dos selvagens, um “malón”, em uma noite de tempestade. Estava grávida e se separou de seu filho. A sua vida trágica lembra os romances góticos.

Em sua convivência com os índios, conheceu muitos caciques, fez parte da comitiva do príncipe Hual, durante a primavera, em Carhue, uma ilha paradisíaca; aprendeu a criar faisões, a viver a vida do ócio e a exercitar o pensamento em uma atitude relaxante. Anos depois, quando volta ao forte como uma criadora de faisão e possuidora de uma boa renda, está indianilizada nos seus costumes, com mais filhos, tendo reavido o mais velho, e com o prestígio de uma empresária.
O ambiente primitivo, o movimento constante de alguns personagens, a presença de certas cenas naturalistas aproximam a estrutura da narrativa simples de Ema, la cautiva aos romances de viagem do século XVIII, de ambiente medieval e aterrorizador.
Os romances: Ema, la cautiva e Iracema apresentam os índios nômades apreciadores do álcool, do fumo, do ócio, da meditação e da pintura. As duas obras nos mostram o elemento histórico da união dos povos europeus/índios e a colonização, no princípio do século XVII, quando se processou o povoamento do Ceará, Iracema, e no princípio do século XIX, quando se realizou a “Campanha do Deserto” no pampa argentino do sul de Buenos Aires até a Bahia Blanca, Ema, la cautiva. Nas duas obras há referências a índios que se destacaram por feitos heróicos: em Iracema, Poti e em Ema, la cautiva, Catriel[6]. As duas narrativas, revalidando a mítica e a ideologia de um espaço em um época precisa, apresentam uma civilização extinta e um novo tipo humano: o brasileiro, no filho de Iracema e o gaúcho, no filho de Ema.
Como Martín Fierro y La cautiva há em Ema, la cautiva “malones”, mas se diferencia dessa obra na apresentação do relacionamento  branco/ índio tumultuado e opressivo, pois retrata um convívio harmonioso e passivo. O índio na obra de Aira não odeia o cristão, ou a sociedade, nem é egoísta como é pintado nas duas obras argentinas, do século XIX, acima citadas. A imagem degradante do índio “dormilón” de Martín Fierro é elevada à categoria de arte. O seu viver é uma arte. Segundo Ema, “ellos era el arte mismo (...) habían caído sobre ella como el más hermoso de los espectáculos del cielo, habían sido ideas” (AIRA,1981, p 168). 
César Aira, também não segue as diretrizes dos escritores indigenistas do século XX, buscando combater injustiças sociais, fazendo um protesto social, mas busca valorizar a maneira de viver dos índios, de certa forma semelhante ao renascentista Ercilla que não só exaltou os índios araucanos como os apresentou aguerridos na defesa de sua terra. Ele os descreve como um bom selvagem, amigo dos brancos e do viver natural do ócio e do prazer, como nos mostra a romântica obra brasileira, Iracema.
Ema, la cautiva se aproxima de Iracema ao apresentar os elementos da natureza (fogo, ar, água e terra) em harmonia com a paisagem e ao reforçar os protagonistas na simbologia da fertilidade. O fogo se une à idéia da aproximação e alimentação. No ar em movimento surge o perfume emanado da natureza. O vôo dos pássaros une os elementos terra e ar. A água, elemento passivo, símbolo do feminino, se identifica com os protagonistas Iracema e Ema. Os lexemas de água: banho, mergulho, rio, lago, mar dão às duas obras um tom de renovação, de erotismo e aparecem em momentos de interiorização, de meditação, de melancolia. Nas duas obras os índios, por serem nômades, não deixaram monumentos como memória. Em Iracema, os Pitiguaras e Tabajaras, e em Ema, la cautiva, os Pehuenches. Em ambas obras as protagonista são muito jovens e há um mundo de ócio, de evasão do cotidiano, de sonho ocasionado pelo álcool ou pelo fumo e pensamento.
O resgate que César Aira faz do passado, relembrando uma sociedade extinta proporciona-lhe a oportunidade de construir uma dialética entre o mundo do trabalho e o do ócio e filosofar. Gombo, o soldado marido de Ema, é um dos porta-vozes do pensamento de vida do autor, pois como um Heráclito dirá:  “(...) La vida pasa siempre como una nube, sin tocar nada ni dejar huella. Igual que la tormenta: no deja huella porque se repite”.(AIRA, 1981, p. 119) Também Hual, o príncipe índio, filosofa. Sobre a vida e a morte expõe o seu pensamento: “La vida (...) es un fenómeno primitivo destinado a la más completa desaparición, (...) el destino es la fuerza estética de lo incompleto y abierto.” (Idem, 114)
Na nossa excursão pelo tema indigenista, concluímos que o escritor ao abordar esse tema toma a posição de relatar um mundo imediato, levado pela clara denúncia a uma situação regional ou a ele recorre para voltar ao passado, recontando a história palimpsestamente, fazendo uma leitura poética, recreativa do que seria o fato histórico, estendendo com sensibilidade os horizontes intelectuais, misturando os fatos real, sobrenatural e histórico, pois o texto é já dito por Umberto Ecco, um universo aberto onde o intérprete pode descobrir infinitas interconexões.
Observamos, também, que o romance histórico brasileiro, que trouxe à baila o tema indigenista, segue a linha de uma literatura de fundação de nacionalidade. Esse mesmo processo ficcional veio repetir na obra argentina Pós Moderna Ema, la cautiva.
Lembramos que na narrativa pós-moderna, sobretudo a Hispânica, onde há um crescente interesse pela temática histórica por parte dos autores de ficção, há a diminuição do elemento utópico e se diluem as fronteiras entre a ficção e a história. Na visão da história, ou do “novo romance histórico”, a vontade de reinterpretar o passado acontece numa reconstrução crítica, elaborada como Mário de Andrade faz em Macunaína, ou /e na narrativa Pós-moderna de Roa Bastos, Abel Posse, Carlos Fuentes, García Márquez, Vargas Llosa, entre outros. Todavia César Aira nada tem de visão descolonizadora como as que manifestam esses escritores hispânicos.
No discurso narrativo de Ema, la cautiva, a História não interfere no relato ficcional sobrepondo a ele. A narrativa se constrói no nível da interpretação e não na dos acontecimentos a serem interpretados. Estes são singulares, pouco coerentes com a verdade histórica, como no caso da confecção e distribuição do dinheiro pelo coronel Espina e pelos índios, porém verossímeis na narrativa, que se prende à linha tradicional da literatura americana na visão utópica da paisagem, na apresentação de uma ideologia de valorização do índio e crítica à política das autoridades citadinas.
César Aira não reconstrói uma História da Argentina, pois a estrutura e objetivos de sua obra não coadunam com essa ciência, não contém os shifters característicos do discurso histórico.
Também a narrativa de Ema, la cautiva não relaciona com a narrativa Histórica do  Século XIX, pois nos fatos relatados, funcionando como núcleo ou índice, não há uma série de estrutura de anotações e shifter de escuta tais como “ouvi dizer” ”tanto quanto sabemos”, etc.
Diríamos, enfim, que em sua obra César Aira procura tão-somente sensibilizar o leitor para uma região peculiar de sua pátria e para uma raça nativa de estrutura social pouco compreendida no passado e não doutrinar e/ou denunciar como os escritores históricos do passado ou os regionalistas hispano-americanos ao abordarem o tema do indianismo. Ele só pretende mostrar as peripécias de uma frágil mulher com um filho recém nascido sendo levada para um meio hostil e sua evolução física mental e social, nessa aculturação, por essa razão não há divisão cronológica, mas medidas de duração variáveis nas épocas. A necessidade empírica, povoamento do pampa e fundação de Pringles, e a ficção se unem, proporcionando uma locução impessoal, objetiva da narração combinando-a com a locução interpessoal e subjetiva do discurso do narrador e dos personagens,

REFERÊNCIAS
AIRA, C. Ema, la cautiva.  Buenos Aires; Belgrano, 1981.
ALEGRÍA, C. Los perros hambrientos. Perú: Alianza Editorial, 1987.
------. El mundo es ancho y ajeno. Perú: Rocarme, 1981.
ALENCAR, J. Iracema. São Paulo: Ática, 1972.
ARGUEDA, A. Raza de Bronce. 2.ed. Buenos Aires: Losada, 1957.
Guarani
CAllado
Ribeiro
ANCHIETA, José de. De Gestis Mendi de Saa. Poema épico. In: Obras completas.  Introd., versão y notas do Pe. Armando Cardoso,  São Paulo: Loyola, 1986. v. 1.
[1] ANDRADE, Mário. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter.28. ed. Belo Horizonte/ Rio de Janeiro: Reunidas, 1992. .
ERCILLA, Alonso de. La Araucana. Buenos Aires: Emecé, 1945. v 1 e. 2.



[1] ANDRADE, Mário. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter.28ª ed. Belo Horizonte/ Rio de Janeiro: Reunidas, 1992. 135 p.
[2] AIRA, César. Ema, la cautiva.  Buenos Aires, Belgrano, 1981.
[3] Contudo, pela situação da população indígena, diante do menosprezo da sociedade, é uma forma de valorizar os dela excluídos. A situação da população indígena na América é calamitosa. No final do século XVII, enquanto no Peru, a população indígena contava com oito milhões de habitantes, na Argentina, não chegava a 35 mil. No Brasil quando aqui chegaram os colonizadores, foi estimada em cinco milhões e em 1957, só havia perto de 1900 índios e foi constatado  o desaparecimento de 87 etnias.

[4] Época em que se realizou a “Campanha do Deserto” ocasião em que o representante do governo era Avellaneda e a região era habitada pelos índios “pehuenches” (“querandis”, “riaqueles”, “pampas” e “tehuelches”, hoje considerados extintos) que tinham o seu Habitat às margens dos rios, pricipalmente os da bacia do Negro, dos úlitmos rios de Córdoba e os perto das montnahas de São Luis. Eles se relacionavam com os araucanos nos caminhos do sul da cordilheira e a mestiçagem com o branco europeu era feita, em geral, com a união da mulher branca prisioneira, raptada durante o “malón”.

[5] AIRES p. 134.
[6] A história do índio Catriel se encontra registrada nos arquivos argentinos como um prestador de relevantes serviços nas fronteiras do sul tais como o de escoltar guardas nacionais, fazer descobertas e guarnecer os fortes para evitar deserções.

Um comentário:

Pedro Paulo de Souza Nunes disse...

Como de costume, a escritora e pofessora Ester Abreu nos brinda com um texto maravilhoso, denso e firme nas convicções.
"Parlimpseste" outras vezes ilustre Ester!

Pedro Paulo de Souza Nunes
escritor