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21/02/2017

[Conto] A Malhação de Judas (Oscar Gama Filho)


           Sábado de Aleluia.
         O homem estava ali parado — nu — meio da chuva. Parecia Me fitar intensamente, como quem vê muito: um povo. As senhoras que voltavam do baile olhavam de um lado para outro, disfarçando a curiosidade. Confusas porque nele havia algo de diferente. De sobrenatural. Confusas porque não queriam ter a vontade de ficar nuas. Confusas porque deveriam se amedrontar. Um só gesto; um só gesto e ele as teria. Mas continuou parado, e elas então acharam que deveriam se apavorar e começar a gritar e correr, para que todos testemunhassem sua moral inabalável. Mesmo assim ele prosseguiu imóvel. Fitando-Me.
         Nome: Judas. Idade: 33. Observação: esquizofrenia.
         As mulheres ligaram para a Polícia Militar, mas ela estava em greve. Sem a sua repressão, os limites deixaram de proteger Judas. Sem a lei, a barbárie foi solta, os valores perdidos e a opinião pública, permitida. A opinião pública se move. A opinião pública se aproxima vagarosamente de quem Me olha. Talvez fosse engano, Judas não conseguiria roubar nada que não fosse dele. Não ofenderia a ninguém. Mas também Eu conseguia ter a certeza de que ele era um marginal. Depois do grito “Os canas estão em greve”, houve o estouro da boiada. Pessoas atropeladas na corrida para agarrar Judas; Judas imóvel, olhando-Me, sem ver mais ninguém. Foi aí que tudo se precipitou. Amarraram-no na traseira de um carro, e só quando começaram a arrastá-lo lentamente é que despertou da apatia. Deu um urro de animal ferido. Limpou o suor sanguinolento que lhe manchava o corpo: mãos livres, porém descarnadas.
         Era o momento de gritar a verdade. Aquele era o homem errado. Mas a ausência de policiais nos tornou menos do que animais. Aproximei-Me, e Me deram um pau, e comecei a bater. É. O culpado de tudo era o doido. É sim. O sacana Me olhando de olho aberto, mas isso não fica assim, que nunca fui homem de levar desaforo para casa. Nunca fui homem de aguentar ingratidão calado, e matei todos que Me perturbaram — desde o começo da minha vida — com as pauladas que dei em Judas.
         Estava chegando mais gente, e resolvemos pendurar o homem na árvore pra todo mundo poder dar em paz. O babaca ainda Me olhando nu daquele jeito: tomei distância e enfiei a ponta do pau com força nos seus olhos. Um de cada vez. Parei um pouco para descansar, que não aguentava mais. Dois buracos negros Me olhando, a origem da noite. Toda a força voltou.         
         Prosseguimos dia adentro, até que um membro do Estado Islâmico abriu caminho na multidão, e mandou baixar o corpo. Obedecemos. Aproximou-se do homem, ungiu todo seu corpo com vinagre e sal e, iniciada a pregação, concitou-nos a retirar as mãos dos ladrões e a língua dos mentirosos. Nós disputávamos os lugares mais próximos, pedindo desculpas antes de pisarmos nos pés das senhoras. Silenciosos e fascinados. Em seguida, tomou de um machadinho, cortou pernas, braços e língua de Judas, e finalizou perfurando-lhe os ouvidos. O público delirava. Piedosamente, improvisou torniquetes para que a finalidade de castigo não se desvirtuasse com a morte de Judas, e retirou-se debaixo de aplausos.
         Vinda sabe-de-onde, uma limusine negra cantando pneus abriu caminho na multidão com uma freada sinistra e atropelou várias pessoas. A galera começou a gritar, mas da porta que se abriu saiu um homem assustador vestindo uma armadura de Samurai formada por pequenas chapas de ouro laqueado ligadas por cordas de seda e filigranas de pedras preciosas. Uma máscara ninja horrenda cobria seu rosto monstruosamente prolongado por um capacete de titânio incrustado de diamantes que se assemelhava a uma coroa real. Sacou sua katana da bainha e, enquanto cortava com sua espada o que restava do coto humano — tal qual um chefe di tutti chefs —, vociferava grotescamente em tom de delação premiada:
         — Eu sou o Samurai sem Honra, eu sou os terroristas no poder. Ao acordar, desmoralizado, desejo a morte. Mas, cego pelo poder, não a enxergo. Sem honra, luto com a vergonha. E venço. Deposito meus olhos na honra, sem que ela esteja no depósito bancário em minha conta. Depois tento fitá-la em lembranças da luta armada em que ela estava nas mentiras de trabalho, paz e amor. Mas ela corre, porque me entende, gritando “assaz o Caos e o Terror”! Que tipo de honra se nega a permanecer na memória de seu dono, que se nega a ser distorcida, que não permite participar da minha mentira, que tipo de honra pode ter algum escrúpulo em afirmar que molha o povo com paz e amor quando apenas o está marinando para o Terror completo, irreversível, para o Caos? Não desejo o poder nem implantar a ditadura. Já tenho um e outro e sei o que desejo, afinal. Meu sonho terrorista sempre foi implantar o Caos! Se com honra não é possível, luto com a vergonha. Nunca desejei ordem nem progresso nem trabalho. A Teoria do Caos sempre presidiu a entropia do Terror. Minha meta Samurai sempre foi disseminar o horror. Se a vida do povo sempre foi ruim, quero o muito pior! Não vejo o que ali está, o inegável fato, porque luto pelo Caos absoluto e alucinadamente o enxergo e tento trazê-lo para perto. Cego que sou, sem ele estar, enxergo. Paciência: se o Caos destrói a honra, luto com a vergonha que não tenho e venço.
         Massa de carne. Sempre Me olhando fixamente. Tá Me gozando?! Ele vai ver que aqui tem macho! O Samurai e a turba Me ajudaram a arrastar o danado até uma outra árvore, que aguardava de braços abertos em cruz, e ali o colocamos, o que sobrou, com o auxílio de uma corda de sisal e de pregos. Foi quando ele-sem-olhos Me fitou mais profundamente, e seu silêncio pareceu dar a certeza de que Me dizia algo como — Cristo, eis aí teu povo — enquanto as pessoas próximas eram apontadas por ele, apesar da mão espírita continuar pregada na árvore.
         Era então a hora sexta e, subitamente, das órbitas oculares escorreu a cor negra, que se misturou a um último raio de sol ou a uma lágrima, e produziu um fluido algo escuro e calmo como sangue coagulado. Como a noite. Como o que fugiu pelo mundo. Como o que ficou toda a Terra coberta de trevas até a hora nona, quando escureceu também a lua, e rasgou-se ao meio o véu do tempo e, com imenso terremoto, o céu se abriu, e O Espírito de Deus mostrou-Se com uma voz de trovões:
         — Este é Meu Filho amado. Fazei isto sempre em memória de Mim.
         — EU NÃO ERA DEUS! Eu havia me enganado. Não tinha direito sequer a usar a maiúscula quando me referia a mim. Percebi tudo, com espanto, e instintivamente corri apavorado, apavorados corremos aos Seus pés e nos arrependemos e breve falamos de amor e pedimos perdão quando vimos um batalhão de anjos se aproximar para nos jogar na noite saída eterna Dele. Mas Judas, sempre olhando para mim com Seus dois buracos negros, gesticulou com o corpo fantasma, indicando que estava tudo bem, e Seus membros cortados assentiram com o que Ele disse, e ainda hoje os povos civilizados celebram este rito de fé nas cidades onde Judas insiste em sobreviver desmembrado, despido, inapetente, eterno e sem sentir:
         — Deuses não são biodegradáveis.

                                 
                                 

Oscar Gama Filho nasceu em Alegre, E.S., em 31 de março de 1958. Publicou seus poemas em De Amor à Política, 1979; em Congregação do Desencontro, 1980, em O Despedaçado ao Espelho, 1988 e em O Relógio Marítimo, pela Imago, em 2001. Procurou o tempo perdido em obras como História do Teatro Capixaba: 395 Anos, 1981, Teatro Romântico Capixaba, publicado pelo Instituto Nacional de Artes Cênicas, em 1987, e Razão do Brasil, lançado pela José Olympio Editora em 1991. Traduziu-se para Rimbaud no conto-poema-ensaio-tradução-crítica Eu Conheci Rimbaud, de 1989. Realizou a exposição de arte ambiental poético-plástica Varais de Edifícios, em 1978, e gravou o disco Samblues, em 1992 — incluído no selo histórico Série Fonográfica do Espírito Santo. Em 2005, lançou o CD Antes do Fim-Depois do Começo, contendo músicas em parceria com Mario Ruy. Dirigiu suas peças teatrais A Mãe Provisória, em 1978, e Estação Treblinka Garden, em 1979. Pertence à Academia Espírito-santense de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Profissionalmente, é psicólogo clínico. 


** O texto "A Malhação de Judas" teve sua primeira versão publicada em 1979, na Revista Letra e foi republicada no Caderno de Cultura Pensar, do Jornal A Gazeta, no dia 18/02-2017.



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