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05/03/2017

O esoterismo poético em Arcano Dezenove de Renata Bomfim (Fábio Mário da Silva)

Esse artigo, escrito pelo prof.º Dr.º Fábio Mário da Silva, foi publicado na obra O IMAGINÁRIO ESOTÉRICO LITERATURA CINEMA BANDA DESENHADA, organizada  por Cristina Álvares, Ana Lúcia Curado,  Sérgio Guimarães de Sousa e  Isabel Cristina Mateus, do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho, em Portugal. Editora Húmus, 2016. Acesse a revista

Capa do livro Arcano Dezenove 
de autoria do fotógrafo Jove Fagundes.


RENATA BOMFIM, que nasceu em Vitória, no Espírito Santo, em 1972, além de escritora, arte-terapeuta, educadora socio ambiental e profes­sora doutorada em Letras, começou a carreira como artista plástica dedicando-se à pesquisa da joalharia no âmbito da técnica do mosaico. No cenário brasileiro é autora de três livros de poemas – Mina (2010), Arcano Dezenove (2011) e Colóquio das árvores (no prelo) –, possui poemas seus integrados em antologias, ensaios e artigos publicados no Brasil e no exterior, e é autora do blog literário Letra e fel (www.letraefel.com). Estamos diante, então, de uma personalidade multifacetada que em 2010 estreou no cenário poético espírito-santense e brasileiro. Dentre as suas produções destacamos a que nos chamou logo a atenção, o seu segundo livro de poemas, Arcano Dezenove, no qual encontramos uma poesia ligada à ecologia, mas diante de uma tópica de misticismo e de esoterismo.

Em Arcano Dezenove, como já referimos no posfácio de nossa lavra, há um percurso estratégico situado em diálogos com outros autores (como, por exemplo, Florbela Espanca, Rubén Darío, e Maria Lúcia Dal Farra), através de um discurso focado na alteridade, proposta importante atualmente nos estudos literários –, a poetisa mostra os seus espelhos poéticos sem, no entanto, perder a sua originalidade (Silva, 2010: 84). Por seu turno, Maria Lúcia Dal Farra argutamente explicita, através de uma análise acurada em relação a esta e a outras cartas (o Arcano 16 e Arcano 17), bem como do Tarot em geral, citando autores como o ex-abade Constant, Baudelaire, Nerval, e André Breton, que os segredos e mistérios deste arcano (e dos outros), percorre a dinâmica seguidamente explicitada, desde a apresentação da capa até desembocar nos poemas e na própria figura da poetisa Renata Bomfim:

A Lâmina que a capa compõe é toda luz e sombra, magia branca e negra, incerteza melíflua (…). A Lâmina explicita, portanto, essa caçadora celeste, essa divindade lunar (Artemisa, Diana, Hécate) – imagem que se aglutinará durante a leitura do livro, graças mesmo a esse simbolismo de trânsito, de passagem, de viagem heróica que o Arcano 18 encerra. Do plano iniciático da via úmida lunar nascerá a Feiticeira, a Maga e a Poetisa que, viajando em corpo etéreo (o «corpo cósmico» tão referido no volume) da Noite para o Dia, da Luz Noturna para a Luz Solar que o Arcano 19 encerra, buscará despertar, com suas palavras, aquilo que dorme. Aliando-se ao Sol, ao Fogo Criador e à Pedra Filosofal próprias do Arcano 19, a Poetisa procurará representar o Centro da Consciência capaz de abranger e dar voz ao Universo. (Dal Farra, 2011: [s.p.])

Arcano Dezenove é dividido em cinco sessões (sob os títulos de «Arcano Dezenove», «Memória», «Quinta essência», «Transição» e «Rituais») nas quais a proposta de Renata Bomfim muito se alia a apro­fundar a origem do cosmo, do ser humano, da essência dos elementos e da inspiração poética, daquilo que é inominável. Assim, o sujeito poético nesta obra se assume como o próprio segredo, como o mestre que transmite aos seus discípulos uma experiência espiritual através de símbolos para que seja possível a sua compreensão: «A minha pena guarda segredos./ Ela tem um quê de mistério e maldade» (2010: 32). Por isso, nos deparamos com uma poética arraigada a uma tradição esotérica, seguindo uma filiação que contempla o diálogo entre o mestre
e o discípulo que dialogam e procuram transmitir um conjunto de ideias através de uma tomada de consciência de princípios imanentes à ordem do universo, transmitidos através de rituais e símbolos que permeiam a grande maioria desses poemas. Não é por acaso que o poema que abre a obra se intitula «Poeta Adâmico», metáfora construída através da tríade lógica: paraíso (linguagem), Adão (Poeta) e Letra (Eva), numa combinação harmoniosa, criando um mundo sem pecado nem condenação, gerando o diálogo entre outros «poemas-sementes». Como elucida este poema de abertura, este livro procura compreender (e não desvendar, já que o mistério deve permanecer) a comunhão cosmo-natureza, abordando também questões em torno do desejo, da multiplicação dos sentidos e de sensações que demarcam o prazer e as angústias, associado a um êxtase com os elementos da natureza: «A ninfa ascende entre agonias,/ a selva orquestra gemidos de prazer» (Idem, 18). Para Renata Bomfim, da natureza não emergem apenas as relações de desejo e espiritualidade, mas também o ato poético e, consequentemente, o poeta, que representam também essa força cósmica da natureza:

O poeta julga-se superior e,
no momento da criação,
sente-se plutão,
atingido por meteoritos. (…)

É um mago condenado.
É tantos e todos que é ninguém.
Bruma solitária que vaga
Entre pepitas de ouro e cadáveres. (Idem, 19)


O poeta se sente como próprio elemento da natureza, só assim se pode tornar parte do universo místico. Esta é uma poesia que tenta revelar os sentidos da vida e da morte, através de um conjunto de inter­pretações quase que doutrinárias para os seus leitores, que buscam afirmar algumas «supostas verdades»; as leis que regem todo o universo, seja ele o material ou o ficcional (a poesia), e que é bem mais inteligí­vel, consistente e compreensível se for visto através dos elementos da natureza. Neste caso, em Arcano Dezenove está evidentemente explícito que nós somos meros coadjuvantes deste cenário primevo e infinito, e nossa pátria deve ser muito maior que uma identificação nacional: «Eu canto a Pátria-planeta,/ antes que o pensamento,/ Divagando entre futilidades,/ se perca» (Idem, 22). Há um desejo implícito do sujeito poético em se fundir aos elementos da natureza, num processo não apenas de metamorfose, mas de parentesco, de identificação, numa procura de descobrir novas sensações:

As ondas me constituem
Parentesco que me abisma
E me pego, assim, mareada,
Ansiando tons de cinza e azul
Enquanto, silenciosamente,
Quebro na praia. (Idem, 25)


Tornar-se elemento da natureza ou do cosmo, feito na sua totalidade de microcosmos e macrocosmos, se sentir astro, aí reside o «mistério maldoso» de que fala o eu lírico. A maldade em transpor as barreiras das verdades absolutas, deixar de ser senso comum para adentrar-se no mistério da criação, da cosmologia que apenas deve ser experienciada e sentida, nem tanto compreendida:

Inunda a minh’alma um sol de sétima grandeza
e te desejo toda, inteira,
Terra amada, Santa, Natureza!
Despi-me toda para recebê-la,
Veste-me de lírios
lilases e caprichosas.
Respiro profundamente
Te sinto mistério maior:
Quasares, buracos negros, estrelas
tudo, tudo, tudo me leva a ti (Idem, 35)

Nesta fusão do corpo-sujeito com o corpo-natureza é criada uma atmosfera ritualística de entrega e de posse corporal, que se dá como oferenda sacral e se regozija nos «mistérios» quase ancestrais deste  contato; elementos da natureza esses que para Renata Bomfim têm uma estreita relação com o feminino: «Orgânica/ A mulher era verde/ E sem veneno» (Idem, 47); ou seja, estamos diante daquilo que Pierre Riffard (1996: 56) denominou como «esoterismo primitivo», associado a um culto da terra-mãe. Os rituais e pactos também se arvoram por questões filosóficas ligadas às bruxas e sua relação na busca por um equilíbrio pacífico e harmonioso com a Mãe-Terra, a Grande-Deusa – contrariando a ideia de obscuridade e maldade associados às mulheres feiticeiras –, como base prática de existência de retorno à essência dos seres, da purificação e encorajamento a atos benéficos, como aqui expresso em «Desejos de feiticeiras»:
  
Eu quero tocar os espíritos alheios
com encantos luminosos.
Acordar dormentes e sonâmbulos,
com fluidos escândalo-viscosos,
colhidos nas veias dos cristais e das ervas.
Lançar bênçãos,
Distribuir afagos e,
justificando a minha natureza,
distribuir, também,
olhares de secar pimenteiras (Idem, 71)

A única maldição lançada por esta poética é contra aqueles que desprezam a natureza, ato de violência imperdoável: «Se brigar com esses seres,/ Será amaldiçoado e perseguido./ Não adiantarão algas, nem filtros» (Idem,72). Esta poesia ensina então a fazer mandigas, filtros mágicos de conquista amorosa (mais eficazes que promessas aos santos), como, por exemplo, no poema «Banho de limpeza», no qual se recita uma limpeza espiritual que abre caminhos. Já em «Patuás» e em «Cerimônia do chá» ficamos a saber que muitos ritos só podem ser concretizados através de cerimoniais envolvendo as fases e místicas da lua, do número sete aliado à harmonia dos elementos da natureza, aquela «que guarda em si/ elementos combinados» (Idem, 81). É uma poética na qual, mesmo nas referências a figuras cristãs, encontramos um discurso voltado, mais uma vez, para um certo  eco-existencialismo, que relaciona natureza e religiosidade, [2] como, por exemplo, em «Nossa Senhora dos raios multicoloridos»:

Te sonho infinitamente,
Te busquei no mais alto das montanhas
cujos picos eram branco-azulados
E lembravam aqueles que partiram sem se despedir.
Clamei por teu nome, doce e secreto,
Do abissal de minhas entranhas e,
Nos meus pensamentos, armadilhados intangíveis,(…)

Como posso tocar o teu manto de luzes
Multicoloridas e vislumbrar a tua rara santidade?
Mil sóis estão explodindo, estrelas colidem ruidosas,
O caos se instaura dentro de mim.
Vem plena de amor, iluminada.
Eu não resistirei e serei a flor
Colhida e fresca, perfumosa,
à mercê de tua sábia providência. (Idem, 27)

A luz, neste caso os raios coloridos da Nossa Senhora, pode rees­tabelecer o caos instaurado intimamente no eu lírico. Esta dinâmica é muito parecida com a explicitada por Luc Benaist (1969: 27) que refere que a criação do mundo se apresenta como um ajuste do «caos» ou, mais precisamente, como «a consequência duma ‘ordem’ divina, que a Bíblia apresenta como um Fiat Lux, porque a luz sempre acompa­nhou as teofanias e que a ordem identifica-se com a luz». Por isso, o sujeito poético deste poema procura um equilíbrio através dos raios luminosos, deixando de ser caos, para se constituir como experiência espiritual e divina, acedida através da ordem que é luminosidade. Aliás, num outro poema, «Saturnais: mito de origem», Renata Bomfim traz à discussão a questão do surgimento da ordem através da luz, do sol, que só é possível graças a uma intervenção feminina:

Antes era Nada.
E de dentro do Tudo nasceu o Sol.
A grande roda brilhante se alimentava
nas generosas tetas cósmicas
das mulheres galáxias,
que eram, também
filhas do Tudo e netas do Nada.


Gotas de leite estelar caíram,
pingaram abundantes e deram forma a inúmeras raças:
os Syrios, os Krianos
e também, a humana,
de complexidade rara.

Para louvar o grande Nada
e agradar ao Sol,
organizavam festas que duravam
sete luas.
Ocasião em que essa raça,
que ainda não conhecia a sabedoria,
não roubava, nem matava, mas
cantava celebrando a vida e
fazia amor na alvorada.

Um banquete público era o que,
ao contrário, amor traduzia,
ato que refletia o lampejo da origem.
E, durante a festa, essa rude criatura
 revelava o que, da sua face, a rotina ocultava.
De tanto arranhar a Terra e violar os Rios
 ofendendo o grande Nada,
Tudo veio ensinar-lhes a compaixão e,
resgatando-os da ignorância,
ensinou coisas de partículas brilhantes.
Essa raça de pés sujos vive olhando para o céu,
esperando voltar ao seio da mãe primordial. (2010: 44)

Este poema está impregnado da ideia de «sagrado celestial», que é um tipo de experiência religiosa muito antiga baseada na ideia de que «a transcendência revela-se pela simples tomada de consciência da altura infinita» (Eliade, 1975: 128), visto que esse «muito alto», o sol celeste na poesia, é algo superior, atributo de uma divindade:

O ‘muito alto’ é uma dimensão inacessível ao homem como tal; ela pertence de direito às forças e aos Seres sobre-humanos. Aquele que se eleva subindo a escadaria de um santuário ou a uma escada que conduz ao céu, cessa então de ser homem: de uma maneira ou de outra participa da condição divina. (Idem,129)

 Renata Bomfim assim relata o Nada (o infinito cósmico) que é elevado, eterno, forte e procriador («E dentro de tudo nasceu o Sol»). O Deus-Celeste neste poema é o Nada, que deu sentido a um todo-tudo surgido in illo tempore. Na fala inicial do sujeito poético, neste tempo remoto, também encontramos referência à sacralidade na sexualidade, ao nascimento que as «tetas cósmicas» das «mulheres galáxias» pro­porcionaram, ou mais precisamente, ao mistério do parto descoberto pelas mulheres que são criadoras no plano da vida, experiência essa feminina por excelência.
Em suma, Arcano Dezenove traz à tona vários debates e temáticas ligados à experiência com a sacralidade criadora da Natureza, envolta em misticismo e religiosidade, que desembocam também em passagens fortemente marcadas por um tom esotérico. Por isso mesmo Maria Lúcia Dal Farra (2011: [s.p.]) diz que Renata Bomfim é uma «Feiticeira» e que «essa mulher é também telúrica e vegetal», visto o eu lírico compor-se como ser-planta num tom de equilíbrio dum ecossistema harmonioso: «A minha errância é como a água turva/ De um rio caudoloso:/ Não permite que lhe encontre a fonte/ Ou que lhe desnude os mistérios do fundo» (2010: 62). Por fim, acreditamos que o esoterismo de Arcano Dezenove está intimamente ligado ao que Jean-Paul Corsetti descreveu como uma dinâmica deste conceito:
  
En discernant la magie des métamorphoses sous l’apparent désordre, l´esotérisme révèle à l´homme de désir qu’ en transformant son regard sur le monde et sa connaissance de la nature, il ne cesse de récréer lúnivers qui l-entoure, réveillant alors la vie qui sommeille sous les pierres. (Corsetti,1992: 328)
Referências:
 Benaist, Luc (1969), O esoterismo, trad. Fernando G. Galvão, São Paulo, Difusão Européia do Livro.
Corsetti, Jean-Paul (1992), Historie de l’ésotérisme et des sciences occultes, Paris, Larousse.
Dalfarra, Maria Lúcia (2011), Uma leitura poética do Tarot, por Renata Bomfim, [em linha] diponível em http://www.letraefel.com/2011/09/uma-leitura-poetica-do­-tarot-por-renata.html [consultado em 18/02/2015].
Eliade, Mircea (1975), O Sagrado e o Profano. A essência das religiões, trad. Rogério Fernandes, Lisboa, Edições Livros do Brasil.
Riffard, Pierre A. (1996), O esotermismo, trad. Yara Azevedo Mauro e Elisabete Abreu, São Paulo, Mandarim.
Silva, Fabio Mario da (2010), «O que nos resta, após a leitura de Arcano Dezenove?», in Renata Bomfim, Arcano Dezenove (2010), Vitória, Helvética Produções Gráficas e Editora, pp. 83-85.


**Poema «Nossa Senhora dos raios multicoloridos», contido em Arcano Dezenove (Vitória: Helvética Produções Gráficas e Editora, 2010, p. 27). Todas as citações feitas neste trabalho dizem respeito a esta edição, pelo que daqui por diante será referido apenas o número de página, a fim de evitar a repetição constante da informação bibliográfica.

**Mircea Eliade em O Sagrado e o Profano explica bem esta dinâmica da seguinte forma: «Para o homem religioso, a Natureza nunca é exclusivamente ‘natural’: está sempre carre­gada de um valor religioso. Isto compreende-se facilmente porque o Cosmo é uma criação divina: saindo das mãos dos Deuses, o Mundo fica impregnado de sacralidade» (1975: 127).


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